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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

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Vicente, o menino que ele é verdadeiramente

20.09.17 | Vera Dias Pinheiro

Falo tantas vezes das birras do Vicente, da sua teimosia, de como acorda demasiado cedo todos os dias, de como absorve todos os segundos dos nossos dias com perguntas e chamadas de atenção constantes e ainda sobre a forma como tudo o que fazemos dá a sensação de não ser o suficiente para ele. Porém, ainda não falei o suficiente das suas qualidades e da forma como tem lidado com o facto de ser o irmão mais velho e, sobretudo, a forma como reage à cada vez maior invasão da irmã em casa e na vida de todos nós.


O Vicente tem um bom fundo e isso percebe-se logo no primeiro contacto, embora seja tímido e que observa tudo muito bem antes de decidir se quer ou não fazer alguma coisa. É aquele tipo de menino que não é egoísta, ele até pode tentar, mas a reacção dele vai acabar por ser sempre a de partilhar. Às vezes, sinto que é até um pouco demais, pois deixa-se prejudicar só para não dizer não aos outros. Contudo, o princípio é bom, só precisa ser um pouco trabalhado. Por exemplo, ainda esta semana pediu para fazer um bolo para levar para a escola e assim fizemos. Quando chegou à escola e viu a reacção dos amigos, numa total excitação, não coube nele de tanta satisfação.


Com a irmã,  oVicente também é assim. E, se no início eu fazia pressão para que ele partilhasse os brinquedos, agora admito que mudei um pouco a minha atitude, pois também percebo que a Laura se aproveita e só quer porque o irmão tem. Porém, o Vicente não aguenta muito tempo a ver a irmã chorar por querer uma coisa e lá vem ele dizer-me, com toda a sua calma, que "não faz mal, mãe", "ela pode brincar, eu não me importo". 


Também é um menino muito meigo e doce e que ainda faz uma festa quando eu bato à porta da sua sala, ao fim da tarde, para o ir buscar. Dá muita atenção, mas também precisa e a parte mais dificil desta sua aprendizagem de ter uma irmã é esta. É aprender a gerir os seus sentimentos e deixar de se sentir melindrado quando a irmã está a precisar ou a captar toda a nossa atenção. Quando dou por ele, está com aquela carinha meia triste, meia envergonhada... a carinha de Vicente :)


Depois, por oposição à irmã, é muito respeitador das regras, mesmo quando desobedece. Desde bebé que reagiu muito bem às rotinas e, desde então que não dá trabalho algum para adormecer, comer ou o que seja. É da sua maneira de ser. A irmã é o oposto, é uma força da natureza, com um misto de teimosia e de determinação. E, por isso, o meu grande exercício, enquanto mãe de dois, é sentir que não sou demasiado exigente com o Vicente. Acho que, quando temos um filho mais certinho, a tendência é exigir ainda mais dele, ao passo que, quando temos outro que é o oposto, soltamos um pouco mais a corda, porque é assim, mais traquina, mais irreverente. E não deve ser assim!


O Vicente precisa, sem dúvida, de momentos em que possa pisar o risco, em que seja picado para lutar pelo que é seu, para que expresse a sua opinião. É algo que eu acho que com os amigos, por exemplo, ele não faz. Fica magoado e sentido quando alguém faz alguma coisa que ele não gosta, mas não se impõe e é incapaz de dizer quando não gosta de alguma coisa.


O Vicente é um bom menino, tem bom fundo, disso tenho eu a certeza absoluta. Sei que, enquanto irmão mais velho, tem feito o melhor que, com os seus quatro anos, consegue. Sei que adora a irmã e que é sempre a primeira pessoa por quem pergunta e já tem alguma dificuldade em fazer alguma coisa sem ter a irmã por perto. Também é certo que lhe passa rasteiras e a última novidade foi darmos com ele a fazer judo com a irmã... nem vos conto!


Sei que tem uma adoração por mim e pelo pai. E se antes a ligação mais forte que tinha comigo era inequívoca, actualmente já não é bem assim. Mas é do género de menino que me diz não já quer fazer cinco anos para que a mãe não fique velhota, é do género de reparar quando mudo a cor do verniz das unhas, quando coloco um baton diferente ou quando vou arranjar o cabelo. É um menino que elogia e que sabe quando estamos a precisar de um elogio. É um menino que não tem problemas em dizer o quanto gosta de alguém, em abraçar ou dar beijinhos.


O Vicente é o meu menino crescido, ainda que me seja um pouco díficil reconhecer que o meu bebé está a tornar-se, alias, já é, um rapazinho. O próprio corpo já tem outra constituição, as roupas assentam de maneira diferente, as conversas e o raciocínio que ele faz de tudo o que se passa à sua volta e a companhia que nos faz.


Daqui a meses faz cinco anos e já está cheio de ideias para a sua festa. É uma mão cheia de anos que parecem ter passado a voar. No entanto, ainda que nos seja difícil reconhecer isso - e até aceitar - a verdade é que as fases que se seguem são igualmente desafiantes e giras. Começam a tornam-se verdadeiros companheiros do dia-a-dia, os programas passam a ser outros, a nossa vida enquanto pais também se altera, entre tantas outras coisas. Ainda assim, está a crescer e, sem dar por isso, vai perdendo a imagem de bebé, que é, afinal, quando tudo isto começa, quando se dá o inicio de toda uma vida.


Tenho muito orgulho neste meu filho, sinto que está a formar-se um futuro adulto com valores e com uma boa índole, mesmo que nem sempre isso seja algo apreciado pela sociedade em que actualmente vivemos. É só preciso que aprenda a defender-se e a afirmar-se.


Para já, sabe que, cá em casa, não se diz "não consigo", mas sim "vou tentar!!!" :)


E ainda sobre este tema, deixo-vos a ligação para este post: O Vicente não pisa o risco


Boa noite.