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O "perigo" da nossa zona de conforto

27.01.20 | Vera Dias Pinheiro

os perigos da nossa zona de conforto

 

Fixem o que vos escrevo de seguida: não sabemos mesmo a força que temos e as capacidades que conseguimos desenvolver até sermos postos à prova.

 

Ou somos educados ou é apenas o instinto natural do ser humano a procura pela zona de conforto e, uma vez lá, evitar ao máximo sair. Seja pelo trabalho imenso que é voltar ao início, ter que aprender uma série de coisas novas e o pior nem é isso, o pior mesmo é o tempo que temos que andar completamente desnorteados até encontrar novamente o Norte. E isto é algo complemente limitador das nossas próprias capacidades e até dos nossos próprios sonhos. E comparo muito às crianças que agora, depois de toda a evolução que pude assistir nos meus filhos e as capacidades (diria) inatas que trazem consigo para se adaptar a tudo: língua, país, pessoas, escola, etc. É tão fácil e, ao mesmo tempo, revelador da elasticidade gigante do cérebro e das capacidades das crianças e, portanto, agora eu sou a primeira a dizer que é uma pena não expormos as crianças a estes estímulos de mudança e às coisas novas, pois a rapidez com que aprendem e assimilam nestas idades é enorme.

 

Em contrapartida, quando chegamos a adultos as coisas mudam completamente de figura. Questionamos infinitas vezes se a mudança compensa o trabalho e o stress que vamos ter; questionamos inclusivamente se realmente precisamos de mais, ou seja, deliberadamente aceitamos menos só para não ter que lidar com o imbróglio de nervos que representa mudar.

 

No meu caso, felizmente ou não, tenho enfrentado sempre as mudanças, 99% das vezes sem ter plano B caso corressem mal. No entanto, a verdade é que sempre que mudei, mesmo com o tal imbróglio de nervos, acabei por progredir sempre mais um pouco, acabei por crescer e por ganhar mais qualquer coisa. Bom, convém esclarecer que o ganhar mais não é financeiro, mas talvez seja por não viver obcecada com o valor material da vida – não fazendo isso de mim uma pessoa irresponsável, pois nunca faltou para nada, desde os bens essenciais até aos pequenos luxos, sim, vamos dar nomes às coisas sem termos pudores com isso – que, no final, acaba sempre tudo por dar certo.

 

Ainda assim, havia uma parte de mim mais conservadora, mais acomodada e que deliberadamente delegava só para não ter chatices e problemas. Portanto, tudo o que dizia respeito a burocracias, formalidades, legalidades e outras “ades” que tal, eu simplesmente deixava para o meu marido. Imaginam que mudar de país e trazer duas crianças connosco em idade escolar envolve muitas coisas deste género a tratar e a resolver e, muitas delas, mais do que uma vez pois não correm bem logo à primeira.

 

Como tal, estes últimos 13 dias em que o pai esteve ausente – regressa amanhã, finalmente – em que fui tendo filhos doentes praticamente o tempo todo, começou com o Vicente a acabou na Laura, como era de esperar – a rezar para que esta tosse e impressão na garganta não passe disso mesmo – foram um teste ao meu “comodismo”. Mais um, na verdade, porque desde que chegamos que já tive que arregaçar as mangas muitas vezes para fazer coias que, a partida, na divisão de tarefas, estariam do lado do meu marido.

 

Não havia um plano de emergência para esta situação, não tínhamos pensado em alternativas caso um filho adoeça nem para o caso de adoecerem os dois. Não estava a outra parte para esperar enquanto um vai por a escola, ou para passar na farmácia, ou para gerir tudo o resto. Efectivamente, sacrificamo-nos todos um pouco durante estes dias: o Vicente teve que sair de casa doente para conseguir levar a Laura à escola e a laura teve que ficar “fechada em casa” porque o irmão estava doente. E eu tive que fazer malabarismos para que, no meio de tudo isto, eles fossem os menos sacrificados possível. E consegui! E mais, sinto que consegui e que não me deixei ficar no meu comodismo, a tentar fazer as coisas da minha zona de conforto, a nossa casa. Afinal, a Laura podia ter faltado à escola, pois não tem ainda essa obrigatoriedade, por exemplo. Todavia, parte da segurança que eu preciso e procuro ter aqui, neste ambiente que ainda é desconhecido para muitas coisas, por exemplo, pegar num filho para ir ao médico, é claro que me sinto mais confortável se esse médico comunicar comigo em português pois só assim eu sei que não me escapou rigorosamente nada. Ora, parte dessa segurança, dizia eu, advém da minha coragem, ousadia, o que seja, em vencer esse desconhecido, em não delegar coisas no meu marido, porque eu posso precisar de ter que as fazer sozinha. E quando somos apenas nós, que se lixe, não é?! Mas quando envolve os filhos, as coisas mudam um pouco de figura.

 

E em jeito de conclusão confidencio-vos uma coisa. Não há nada que me deixa mais desconcertada do que o Vicente ou a Laura me perguntarem se eu não sei… qualquer coisa. Seja no que for, até na língua. Isso é muito desconcertante para mim, enquanto mãe, porque eles confiam em nós e esperam de nós a confiança em todos os momentos.

 

Atenção que isto é diferente de não assumir que não sei algo e que vou procurar saber ou descobrir… porque isso faço sem problema. Mas entendem, não entendem?