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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

... quando me perguntam o porquê de mudar em prol da família?

11.07.19 | Vera Dias Pinheiro

parque ten bosch bruxelas

 

Cresci numa família onde nunca me faltou nada! Porém, desde sempre, percebi, tanto eu como a minha irmã, que isso implicava muito trabalho. E não era preciso muito, bastava ver as horas que o meu pai e a minha mãe dedicavam ao seu negócio e eu própria, para quem desde sempre foi normal ajudá-los em algumas tarefas nos períodos de férias da escola.

Como tal, o não faltar nada era tão somente a consequência desse trabalho e dessa entrega e das horas a mais que faziam todos os dias, fosse semana ou fins-de-semana.

 

Juntamente com isto, vinha uma série de outros valores que cresceram comigo e que, hoje em dia, são importantes para mim e na minha família. Por exemplo, as refeições eram sempre feitas à mesa, todos juntos sem televisão; os passeios eram em família; havia cumplicidade com os meus pais sem que isso colocasse o respeito pela autoridade de ambos e também a responsabilidade que ficava presente em nós.

 

E tudo isto para vos dizer que tudo aquilo que eu fui conquistando foi com muito trabalho da minha parte, às vezes, com trabalhos que gostava menos, que nada tinham a ver com a minha área – mas que olhando para trás, todos foram importantes para mim. De certa forma, preparou-me para saber arregaçar mangas sempre que é preciso e, por vezes, saber fazer omeletes sem ovos!

 

Contudo, também fui adolescente e jovem adulta e tive momentos da minha vida em foi muito revoltada contra as injustiças da vida. Não as aceitava, não tinha a capacidade de ultrapassar isso e seguir em frente. O foco era apenas o “eu não merecia isto”.

Amadureci, creio eu, entretanto! E percebi que saber aceitar as coisas más que nos acontecem tão bem como as outras é meio caminho andado para as resolver também.

 

E quando, há pouco mais de um mês, a pouquíssimas semanas de me mudar para Bruxelas, dei por mim a entrar num bloco operatório, não houve revolta ou desespero – só queria ir à festa de finalista do Vicente. Aceitei! Digeri, da melhor forma que pude, e segui em frente com aquele elemento novo na minha vida.

 

No final, tudo se fez e agora estamos onde era suposto estarmos e seria, a partida, uma espécie de “final feliz”. Todavia, a vida esta constantemente a dar-nos provações, mesmo que eu não sabia muito bem o que mais há que provar ou onde é suposto chegar ou mudar.

 

Eu não tenho essa vida pacata, não tenho! Acho até que vida tem uma forma meio estranha de me mostrar os caminhos ou de me orientar ou de me dar avisos. E a prova disso é que, quando menos esperamos e quando menos deveria acontecer, estamos outra vez sem chão à procura do sítio certo para nos agarrarmos.

 

Quando achamos que a nossa vida vai ter estabilidade e tranquilidade, essa confiança é abalada. E mesmo que a raiva seja o primeiro sentimento, de que adianta? De que adianta quando aquilo que é preciso fazer é precisamente o oposto?

 

É preciso arregaçar as mangas e lutar, lutar sem parar porque acreditamos que vai dar certo. Acreditamos que, pelo meio das tempestades de vida, há um final feliz para nós.

 

Não existem vidas perfeitas e nem a vida se resume as fotografias do Instagram. Há pessoas reais com problemas reais e preocupações e é nesses momentos que percebemos que não número de likes suficientes que te reconfortem nos problemas que realmente abalam a tua estrutura. E repenso, neste momento, até que ponto valerá mesmo a pena andar por aqui.

 

A parte mesmo incrível, foi aprender que o corpo humano é uma máquina incrível de superação dele mesmo, e de alguma forma sei que vou encontrar a armadura para esta batalha com tudo aquilo que é preciso para ir à luta. Agora sinto apenas a imensidão de dor e de injustiça, sinto o medo do desconhecido. Amanhã visto a armadura e vou à luta. E, pelo caminho, sei que as respostas vão surgindo de forma natural.

 

Portanto, no final, quando me perguntam o porquê de mudar em prol da família? Porque é tudo o que me resta, é nela que eu posso chorar sem parar, é nela que eu posso desabafar e é nela que eu vou buscar muita da minha força. É no amor da minha família que encontro a cura para as minhas feridas e no amor que dou à minha família que curo as feridas de todos os outros.

 

Escolho a minha família mil vezes, mesmo quando tudo se resumo a um imenso desconhecido, ao medo e à incerteza. Escolho a minha família independentemente dos defeitos de cada um, das brigas e dos desentendimentos. Escolho a minha família, porque no meio da minha “loucura” e vontade de voar, é ela a minha âncora.