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É preciso falar da morte sem tabus!

30.01.20 | Vera Dias Pinheiro

dia mundial da luta contra o cancro

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No dia 4 de fevereiro assinala-se o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro. A campanha em vigor, uma iniciativa da Liga Portuguesa Contra o Cancro – que podem ver abaixo – conta comigo e com o Vicente. E, na altura, nem há um ano atrás, nada fazia prever que hoje, ao celebrar este dia, eu conhecesse esta luta tão bem.

 

 

E com isso, a forma como eu encaro esta doença e as diferentes formas de a combater também. Se antes, lutar contra um cancro se traduzia, acima de tudo, nos tratamentos e na busca da cura. A minha experiência tem-me ensinado que, por vezes, essa luta pode ser também a de conseguir dignidade ao doente para que descanse (e parta) em paz.

 

E infelizmente, há ainda um longo caminho para percorrer neste sentido. Porque o cancro que nos arrasta para a morte fá-lo através de um processo, para uns, mais longo do que para outros, mas sempre com muito sofrimento e infelizmente com uma degradação do estado físico e psíquico do doente – bastante injusto e triste de qualquer das formas. Para os doentes que terminaram os seus tratamentos e cujo corpo deixou de conseguir combater a doença não existem muitas saídas dignas para aquele caminho que se fará a partir dali e cujo “prazo” não se pode adivinhar.

Por outro lado, e embora Portugal seja um país católico, a morte é um Tabu do qual se fala com muitas reservas, mesmo quando é essa a única esperança para que o doente deixe de sofrer.

 

Há alguns meses atrás, todos nos falavam de esperança, mesmo quando se sabia que o tempo e a esperança era conceitos que ali se falavam sobre perspectivas completamente diferentes, mas que num caso de “vida ou morta” são o suficiente para nos alimentar a alma e acreditar que podemos ser a excepção à regra. Infelizmente, isso não aconteceu connosco, ainda assim espero que consigo seja diferente!

 

Como tal, desde então, toda a gente fala da morte sem nunca se dirigir ao termo directamente. A opção é questionar se temos conhecimento da situação e da sua gravidade… portanto, lidar com uma doença destas tem também um elevado grau de loucura associado que nos leva para uma montanha russa entre os momentos maus – que vão sendo sempre cada vez piores – e os momentos bons, em que basta o sorriso de quem nos reconheceu para avivar a tal esperança que, afinal, ainda se pode tratar tudo de um grande engano.

 

Pediram-me para me preparar para a morte, sem, na verdade, mo dizerem directamente e tu tens que olhar para uma pessoa que está viva e preparar-te para a sua partida, numa espécie de esquizofrenia – e até agora, só conhecia a da maternidade, que é, diga-se, um passeio no parque comparado com tudo isto. Mas como pessoa racional e evoluída que sou, assim tenho feito, num trabalho árduo e muito meu de racionalizar este caminho. De separar o emocional, de me desprender do corpo, esse que nos prende, afinal, enquanto à vida à esperança. Contudo, é certo que fomos sempre, sempre superando os ditos prazos, ainda que numa debilidade sempre crescente, ultrapassou os três meses, ainda passou (mais) um natal connosco, entrou na nova década e ainda assistiu (?!) a mais um aniversário do Vicente. Tudo isto foram vitórias da minha mãe, mesmo que a doença se fosse apoderando cada vez mais do seu corpo e a transforme em algo que não é a nossa mãe e que nos transmite uma profunda tristeza.

 

Pelo meio, apanhei um avião desesperada porque tudo indicava que tinha chegado o dia. Aqueles dias levaram-nos ao esgotamento emocional e foi o momento em que os médicos reconheceram que tinha chegado o fim e que, a partir dali, só dependia dela.

Mas a minha mãe não se resignou ali. Voltou para casa e orgulhosamente dizia que tinha conseguido voltar a andar. E a partir dali parece que entrei numa apatia sem conseguir sentir rigorosamente nada. O racional parecia estar a ganhar, embora a razão jamais consiga acompanhar a dimensão da dor, quanto mais apaziguá-la.

 

Temos imagens romanceadas para muitas coisas na vida até para a morte, que imaginamos tranquila, suave e sem sofrimento. Porém, a imagem do dar a mão no último suspiro está agora cada vez mais longe e o telefone com o som sempre no máximo - uma coisa inédita - porque isto vai mesmo acontecer.

E nisto, o meu corpo fica dormente, fecho olhos, cerro os lábios e encolho-me como se fosse uma criança à espera que algo de muito mau aconteça e, assim, pode ser que custe menos.

 

Com a minha história, uma triste história, venho, mais uma vez, apelar aos rastreios, aos exames médicos de rotina, a estarem atentos ao vosso corpo, a terem uma vida activa e a alimentarem-se bem.

Mais, mais do que isso, venho apelar, com a minha história, a que não guardem as coisas para o “fim”, a não esperarem por fazer as pazes, por deixar coisas por dizer, por estar com as pessoas que amam. No fundo, não esperem para dar o vosso melhor enquanto seres humanos. Afinal, as coisas más não acontecem apenas aos outros e, depois, se ficar tudo para o fim, é mesmo tarde demais!  

 

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