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Porque É Que A Maioria Dos Adolescentes Tem Vergonha De Tudo?

Um Recado Para A Minha Mãe

21.01.20 | Vera Dias Pinheiro

memórias com a minha mãe as saudades doente oncológica

 

Sabemos que a adolescência é uma idade complicada e, por mais ou menos problemáticos que tenhamos sido, lembro-me perfeitamente da idade em que sentia vergonha de tudo e mais alguma coisa. E, no outro dia, em que uma amiga partilhava algo no Facebook que explicava isso tão bem – sim, existe uma explicação real para que isso aconteça – senti-me a recuar no tempo.

“Durante a adolescência a amígdala é maior e mais activa. Essa activação excessiva acaba desencadeando uma vergonha exagerada que demora a sofrer uma habituação que possibilite passar com mais conforto por situações de exposição.

Além disso, o córtex pré-frontal, envolvido na atenuação dessa resposta da amígdala ainda está imaturo.”

 

O mesmo não aconteceu com a minha memória, que se manteve bem activa, pois eu lembro-me bem dessa época. Lembro-me inclusivamente da fase da vergonha pelos pais. Quem não tentava disfarçar os passeios em família ao manter uma distância, não inferior a 200 metros, dos pais?  E este sentimento de vergonha que ia até às coisas mais surreais?

 

Mas o porquê de tudo isto agora?! Nos últimos meses, semanas e até dias, tenho sido confrontada com um constante antes e agora e com mudanças abruptas a um ritmo avassalador. É impossível ficar indiferente às diferenças físicas e não só que a minha mãe está a sofrer pelo efeito da doença. E o caminho inverso é feito agora. O sentimento de admiração que já sentia pela minha mãe, cresceu ainda mais. Já fui muitas vezes ao baú das recordações da minha adolescência, desde os diários – muito escrevia eu – das cartas trocadas entre as amigas e as que recebia no correio da escola no Dia Dos Namorados, as fotografias antigas e sempre esse sentimento de amor e de admiração por cada fase da minha vida, pelo sítio onde cresci e vivi, pela educação que recebi, pelos meus pais e por tudo o resto.

 

Na adolescência queremos sempre o mundo e quanto mais longe melhor. Achamos sempre que sabemos tudo e que esse tudo é suficiente para sermos auto-suficientes. E eu quis esse mundo, achei-me capaz de o agarrar e assim fiz. Sai de Santarém para Lisboa, viajei até Toronto e fiz Erasmus em Itália. Sai à noite com as minhas amigas e – CREDO – tantas noites que nós saímos numa semana, todas as semanas. Nessa altura tinha um único lema - “a mim cabe a responsabilidade de tirar boas notas na faculdade e, dessa forma, os meus pais não teriam a que apontar o dedo”. E assim foi.

Terminada a faculdade, arregacei as mangas e fui à procura de trabalho – um trabalho remunerado que fizesse face à minha vida auto-suficiente. E mesmo reconhecendo alguma imaturidade na altura, a verdade é que consegui sempre dar a volta. Cheguei a ter dois trabalhos e aceitei o facto de ter que me afastar das minhas ambições com o curso que tinha escolhido e que era o meu “sonho”.

 

Porém, há uma pessoa que tive sempre presente e, mais do que isso, presente na medida certa, sem me desamparar e, ao mesmo tempo, sem assustar este adulto em formação que eu era. E essa pessoa foi a minha mãe. Admiro a forma com ela geriu as alturas mais complicadas, mas sobretudo a capacidade que teve de nunca me desamparar, de saber como ajudar e de saber quando se “retirar”. Percebo hoje os desafios de educar um filho, as dúvidas e, muitas vezes, o facto de não sabermos mesmo como fazer ou como dizer.

 

E aquilo que eu quero que a minha mãe não esqueça é que eu aceito os seus defeitos, porque é humana, tal como eu - que embora tente ter a consciência das minhas atitudes, continuo a errar, pois faz parte da nossa natureza. Porque, afinal, não saímos de um livro, não há instruções nem exemplos que nos mostrem como fazer a priori. Crescer como adulto e educar uma criança, que se tornará um adulto, é uma descoberta em contínuo ao longo da vida, com fracassos, erros, mas também com vitórias e muitas alegrias.

 

Quero que a minha mãe não esqueça que, independentemente de tudo isto, pode considerar-se uma “mãe de sucesso”, pois, para mim, é o exemplo e o modelo em muitos aspectos na minha vida enquanto mãe, mas não só. Será sempre o meu exemplo da perseverança e da fé – mesmo que agora esteja um pouco desapontada com vida e com a sua fé, mas quem, no seu lugar, não estaria, não é?

 

Se o fim é iminente e se, ao mesmo tempo, sente que há tanto que vai ficar por viver, tem sido um exemplo de coragem neste caminho difícil de luta contra o cancro. E quando me perguntam como é que eu faço para lidar com tudo o que está a acontecer? É graças à minha mãe! É nela que eu vou encontrar – mais uma vez – a força e o exemplo e é isso que fará de mim uma lutadora sempre.

 

Infelizmente, é inevitável que as saudades apertem e é esquisito como as sinto com ela ainda junto de nós, mas a doença já me levou a minha mãe. Não é a imagem dela actualmente que reflecte esta pessoa que vos descrevo e que é bem real, acreditem, é esta a única mãe que eu conheço e que vou guardar para sempre. Porém, há uma coisa que ainda nos agarra a ela, a força que encontra no meio da escuridão. Ainda assim, e porque sou uma filha (ainda) bastante chata, quero que ela entenda que não é por ceder ao cansaço que deixaremos de ter esta admiração, muito pelo contrário. É preciso uma coragem de gladiador para enfrentar esta doença em todos os seus momentos. O melhor dela está salvaguardado no melhor e mais seguro lugar que cada um de nós tem: o coração.

Levamos daqui uma enorme lição de vida que, por mais dura e triste que seja, nos fez crescer e, sem modéstias, fez de nós seres humanos com uma elevação espiritual maior.

Conseguimos ver a beleza que a vida tem só por si e como isso é suficiente para sermos felizes e gratos! 

 

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