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Podemos ou não (somos ou não) pessoas contraditórias?

10.01.19 | Vera Dias Pinheiro

pessoas contraditórias

Por vezes, quem está desse lado fica muito “obcecado” com as coisas que dizemos ou fazemos. Como se esperassem o primeiro passo em falso para, de imediato, emergirem os comentários de que “ah e tal… dizes uma coisa e depois fazes outra”; “ainda no outro dia disseste que não ias fazer isso e agora estás a fazer”; e por aí fora.

 

Mas antes de prosseguir, quero deixar aqui o primeiro disclaimer.

Não me estou a referir a nenhuma situação pessoal ou específica. Falo do geral, das coisas que todos nós vamos vendo na internet e nas redes sociais em particular.

 

E depois, penso eu, ser-se contraditório não tem que ter necessariamente uma conotação negativa. Pode, pelo contrário, ser sinónimo de seres humanos que evoluem, ao invés de estagnar. Ser contraditório pode ser ainda o sinónimo de se ter a humildade de “olhar para dentro” e, das duas, uma:

 

  1. Ou, primeiro, percebemos que, afinal, não tínhamos assim tanta razão e mudamos de rumo/opinião;
  2. Ou, segundo, temos a capacidade de experimentar coisas diferentes e/ou novas e descobrir outras coisas que gostamos mais ou com as quais nos identificamos mais.

 

Segundo disclaimer:

Excluem-se daqui todas aqueles que fazem aquilo a que eu chamo de "bluff cibernético". E que está na cara que não estão a ser sérios ou honestos.

 

Contudo, em coisas tão simples como as que vou falar abaixo, podemos ou não ser considerados “pessoas contraditórias”?

 

Exemplo 1:

Eu sempre disse que o Yoga não era modalidade que me despertasse a atenção. Dizia inclusivamente que era pouco físico, tão pouco que nem se transpirava e isso, para mim, era desperdiçar um dia de treino. O Pilates, pelo contrário, tornou-se um caso sério de amor e ainda o é, contudo, deixei de conseguir ir às aulas com regularidade. Aliás, actualmente, chega o dia e eu já nem penso nisso – se der, deu!

Contudo, há uma semana atrás, cheguei ao ginásio e encontrei precisamente a professora de Yoga. Conversamos um pouco – random talks – mas, no final, disse-me que ia dar uma modalidade diferente de Yoga e que ia ser a primeira aula. Eu fiquei curiosa, afinal, estou sempre disposta a experimentar coisas diferente e a desafiar-me. E fui e também fui à segunda aula, assim como, tentarei ir às seguintes.

E sabem porquê? Porque, no final, soube-me a pouco, mas senti-me completamente preenchida e feliz. E senti também o esforço físico, sobretudo de partes do meu corpo que eu nem sabia que conseguiam fazer força isoladamente, ao mesmo tempo, que exercito mais a minha meditação.

 

Exemplo 2:

Não quero ter mais filhos!

Tenha a certeza que muitas de vós, já me ouviram dizer “Eu não quero ter mais filhos!”. Ainda assim, e porque o Vicente quer um irmão – que já sabemos inclusivamente que se irá chamar Tomás – eu avisei cá em casa que “a loja” iria fechar a 31.12.2018. Mas é inegável o efeito que um bebé tem nas nossas vidas e, por isso, se avisei que a loja ia fechar, se calhar, era porque lá bem no fundo, haveria uma “restiazinha” de esperança em mim de que “um descuido” acontecesse.

 

Exemplo 3:

Não vou fazer compras nos saldos!

Isso mesmo! Eu não vou, pois não preciso de mais nada. E não quero voltar a encher as minhas gavetas e os meus armários de coisas acessórias, cujo efeito, será apenas o de me baralhar na hora de vestir. E viver sempre com a síndrome de “eu não tenho nada para vestir”.

Porém, se eu estiver num centro comercial ou passar por uma loja durante um passeio e, por mero acaso, avistar aquele casaco de inverno com o qual ando a sonhar há vários invernos atrás, aquele mesmo bom e de boa qualidade que vai durar uma vida, vou comprar. Aliás, eu tentei fazer isso e só não aconteceu de facto porque, infelizmente, não havia o meu tamanho! É que o casaco era mesmo O casaco e estava com um desconto tão bom!!!!

 

Exemplo 4:

Privilegio a alimentação equilibrada e saudável e o meu médico deixou bem claro que para eu andar bem, existem algumas regras que não devo esquecer. Contudo, eu não estou doente nem sou alérgica a nada, por isso, é bem possível que, caso se cruzem comigo numa pizzaria, e eu esteja com os meus filhos, que me vejam atenta aquela fatia que anseio (em silêncio) que sobre por estarem cheios. E essa pizza vai ter glúten e, muito provavelmente, lactose!

E o mesmo se passa no cinema, pois ainda que as pipocas sejam "só" milho, as pipocas do cinema têm outras mil coisas. Mas eu vou ter comigo um pacote médio de pipocas (porque o pequeno… é demasiado pequeno), metade doces e metade salgadas!

 

Exemplo 5:

A amamentação:

Tive uma grande desilusão por não ter conseguido amamentar o Vicente, tanto assim foi que, com o segundo filho, isso tinha que ser possível. E foi, durante praticamente um ano, com desmame natural. E ainda bem, pois eu senti alguma culpa, já na recta final, por estar já demasiado cansada e que aqueles meses já estavam óptimos, tanto para ela como para mim. Ainda assim, a decisão acabou por ser dela e não minha. UFA!!!

 

Conclusão…

 

Todos nós, se formos capazes de olhar bem para dentro de nós, percebemos que somos feitos de várias – muitas – contradições e que isso não tem que ser necessariamente mau. A vida, tal como nós, está em constante evolução. Apanhar “boleia” dessa corrente, é levar-nos mais à frente, aprender um pouco mais e descobrir um pouco mais de nós próprios. Afinal, é isso que importa, não é? Nós e não o outro! Quanto muito, que aprendamos a tirar lições com o outro, seja como exemplo do que fazer ou, pelo contrário, do que não fazer. Mas não criticar – o outro é o nosso espelho e, portanto, acabamos por nos estar a criticar a nós mesmos também.

 

Eu já acabei por fazer coisas que sempre disse que não iria fazer. Porém, olhando o presente, naquele momento, eram a decisão mais acertada e faziam todo o sentido. E se eu olhar para trás, não vejo absolutamente nada de que me arrependa. Tudo – mas mesmo tudo – contribuiu para a pessoa que sou hoje.