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As viagens dos Vs

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Famílias em burnout e as resoluções de Outono

01.10.18 | Vera Dias Pinheiro

famílias em burnout

 

 

Uma em cada três pessoas sofre de burnout no trabalho, de acordo com um estudo recente que ouvi um destes dias na rádio. Fiquei a pensar naquilo, talvez porque seja um assunto ao qual seja mais sensível. Mas fiquei a pensar, para aquelas pessoas que passam a maior parte do dia em clima de tensão consigo mesmas, o que as espera verdadeiramente fora do trabalho?

 

Pensei igualmente na sociedade que se está a criar. Pensei nas pessoas que sofrem sozinhas, porque paralelamente assistimos ao fenómeno da Internet e das Redes Sociais. Hoje em dia, conseguimos estar muito próximos de pessoas que nem sequer conhecemos pessoalmente, sentimos proximidade com desconhecidos com os quais até temos vontade de desabafar. E, por outro lado, as próprias relações próximas que temos acabam por ser mediadas pela Internet, pela actualização das Redes Sociais ou pelas mensagens trocadas em chats.

 

O pensamento seguinte foi: e se aquela pessoa – uma em cada três – que sofre de burnout não tiver ninguém? Se chegar a casa e estiver no vazio? Ou se, porventura, vive um relacionamento igualmente tóxico, uma relação igualmente agastada pela pressão do dia a dia ou mesmo de fachada?

 

É preciso que socialmente haja um amparo significativo, um escape grande para que estas pessoas deem a volta. É preciso que, ao fim do dia, tenham tempo para estar com os filhos, para fazer uma refeição em família, que desfrutem de um momento para si, que tenham um hobby, que leiam um livro, que convivam pessoalmente com outras pessoas, que haja proximidade com essas pessoas e que, no fundo, possam sentir que a vida não se resume a um ecrã ou a um trabalho que lhes dá cabo do psicológico diariamente.

 

Idealmente, diria que todos nós deveríamos ter acesso a terapia, que a psicologia não deveria ser um luxo ou exclusivo apenas para alguns. Numa sociedade que se moderniza constantemente, como estaremos a cuidar do lado afectivo e psicológico das pessoas? De que forma podemos dar a volta e não nos acomodar, que a vida não tem de ser tão pesada e que não devemos sentir-nos mal por fazer algo de que gostamos?

 

Não precisamos de provar a mais ninguém que não a nós próprios e se, nos meus tempos de estudante e quando se falava em trabalho, parecia bem termos ambições elevadas, querermos fazer carreira e ser importantes em alguma coisa. No fundo, era da aprovação dos outros, dos nossos pais em particular, que se tratava.

 

Quando me despedi e já falei tantas vezes sobre isto por aqui, senti pressão em provar que ia ser alguém, que ia fazer carreira em outra coisa ou que simplesmente que seria uma blogger com mega sucesso ou que tivesse uma proposta de trabalho mega. E, mais importante do que tudo, que esse sucesso fosse medido aos olhos dos outros.

 

Entretanto, passaram-se quase dois anos desde que tomei a decisão mais revolucionária da minha vida, aquela atitude que uma pessoa só pondera quando já "tem outro pássaro na mão" e não tive a tal proposta de trabalho e nem fui ainda nomeada para os blogues do ano. Porém, sou imensamente feliz e sinto-me muito realizada com as oportunidades que tenho tido - mesmo quando os pagamentos atrasam e as contas não podem esperar.

 

Sou feliz por não precisar de andar a correr, por não ter que me sujeitar ao trânsito caótico da cidade, por não ter que deixar os meus filhos no prolongamento da escola – e se, eu ou o pai não pudermos, têm a sorte de ter uma avó sempre a 200% disponível. Sou feliz por ter alcançado um patamar da minha vida em que não me reconheço nos outros, em que não preciso que acham que sou isto ou aquilo. Sou feliz por ter as oportunidades que tenho, por ter conseguido equilibrar a minha vida fintando a vida que a sociedade nos impõe. E sou ainda mais feliz por poder mostrar isso aos meus filhos diariamente, porque a atenção, o carinho e o acompanhamento não se compram e nem vêm da Internet. As relações humanas ainda são pessoais, ainda se fazem do contacto, da conversa, do tempo para estar.

 

O desiquilíbrio psicológico e tantas outras doenças “da moda” que afectam pessoas cada vez mais jovens e que surgem em pessoas aparentemente normais e com tudo para serem felizes, não vem de outro lado que não o vazio humano das relações e do isolamento. Queremos convencer-nos que seremos felizes a ser modernizados, a ter uma página de Instagram com muitos seguidores e com a validação dessas pessoas, 99% deles meros desconhecidos.

 

Não sei o dia de amanhã e não sei como será a sociedade do futuro, aquela em que os meus filhos viverão enquanto adultos. Todavia quero acreditar que viveremos um retomar das origens, que encontrarão alguém com quem partilhar a sua vida, que terão um trabalho digno e que respeitarão e serão respeitadores do outro.

 

Quero acreditar que podemos viver na sociedade sem nos tornarmos aliens sociais e o smartphone não controle o nosso tempo. Que tenhamos a coragem de lhe dar a importância que tem: a de um acessório!

 

Começou um novo mês, o primeiro dia deste mês foi a uma segunda-feira, que isso seja um sinal de nova energia e de novos planos nas nossas vidas. Analisar o dia-a-dia, rever as prioridades que temos e o que podemos fazer mais pela nossa própria felicidade.

 

E a olhar para este momento do meu domingo de manhã, o mais preciso eu para ser realmente feliz? Porquê andar atrás de outras coisas (que nem sei exactamente quais), quando tenho tudo aqui diante de mim?

 

pessoas em burnout

 

Boa noite!