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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

Como o Pilates transformou a minha vida!

28.06.18 | Vera Dias Pinheiro

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O ser humano está em constante evolução e o segredo, para mim, tem sido aceitar essa evolução, não me deixando estagnar. Mesmo quando sinto que estou confortável ou que encontrei o meu equilíbrio - porque esse estado só é "perfeito" durante um tempo – não me fechei as portas a encontrar algo mais ou de diferente.

E tem sido assim a minha vida desde me deixei entregar ao curso da própria vida, em que libertei as amarras (mais comuns) da vida adulta, que é, por exemplo, o trabalho. O elemento que nos segura durante anos, que nos leva a uma certa estagnação, mesmo quando se adora aquilo que se faz, porque esse elemento é aquele que nos dá a segurança indispensável às responsabilidades dessa mesma vida adulta.

O lado confortável faz com que nos deixemos ficar pelas mesmas rotinas e pelos mesmos hábitos, os mesmos locais que frequentamos, as mesmas pessoas com quem estamos e por aí a fora. O desconhecido é sempre causador de algum desconforto, inconscientemente tenho uma certa resistência.

Afinal, se está bom assim por que motivo devemos mudar? Não é verdade?

Não, não é verdade! O ser humano é um ser evolutivo. Um ser que precisa de ser constamente alimentado, que precisa da novidade e novos estímulos, por mais que nos custe pensar: "ora bolas, agora que estava tudo tão bom, vamos começar do zero!" Eu sei, eu sei! Senti na pele tudo isso, afinal, despedir-me, que parvoíce, posso não me sentir bem, mas tenho um ordenado fixo ao final do mês. Mudar de casa e voltar a ter que encontrar novas rotinas, novos horários, qual a necessidade?! Ir a um restaurante diferente porquê se comemos tão bem no habitual e ainda por cima temos sempre mesa, sem ter que esperar. E este aparente conforto vai-se multiplicando por todas as áreas da nossa vida, incluindo a dos nossos filhos.

Mas eu acredito que nada acontece por acaso e que o salto se dá quando em algum momento da nossa vida somos forçados a tomar uma decisão radical. No meu caso, despedir-me, sem qualquer direito ou regalia, foi uma espécie de grito do Ipiranga. Eu não queria nada dali a não ser ter a minha liberdade de volta.

Bom, mas tudo isto para vos dizer que tenho vindo a desenvolver uma relação crescente com o Pilates. Sim, isso mesmo! E por muito disparatado que possa parecer, tem tudo a ver com tudo isto. Eu sou uma adepta assumida de desporto de intensidade, gosto de sentir que estou no meu limite e de ter o tempo contado. Não melhor sensação do que a de acabar um treino completamente de rastos. Sim, eu sou essa pessoa.

Contudo, desde que vim descobrindo o meu corpo, a partir do momento em que percebi o impacto da minha cesariana e os seus múltiplos efeitos, que entrei numa viagem interior de procura por respostas muito grande. Duas gravidezes e dois filhos depois, com mudanças de país pelo meio, alterações profundas na minha vida, quer profissional, quer pessoal, estava na hora de me encontrar e de poder dar à minha família - a quem eu me tinha dedicado a 200% até então - a Vera, a pessoa que eu sou. Com o papel de mãe e de mulher de parte. O que tinha sobrado de mim? O que tinha mudando em mim? Eu precisava de respostas!

O culminar foi quando, na extracção de um dento do siso se deu uma reviravolta na minha vida. O melhor conselho era voltar ao básico, reaprender tudo do início e, assim, conectar-me de novo com o meu corpo. Estava a faltar isso, o tempo e a concentração para pensar na forma como respiro, onde estou a ir buscar a minha força e até que ponto consigo desligar de tudo realmente para me focar apenas em mim e no meu corpo.

E foi assim que há uns meses decidi iniciar o Pilates e levá-lo a sério. Tem sido uma relação crescente, não valeu desistir quando tomei consciente das minhas limitações físicas, de como era difícil controlar o meu corpo e até relaxar e esticar, sem tensão. O Pilates tem sido uma daquelas relações de amor que se vão intensificando com o tempo. Em que contamos os dias para voltar a estar juntos e quando estamos não queremos que o tempo passe de jeito algum.

Desligar a mente não foi imediato, mas à medida que fui conseguindo, apercebi-me do quanto eu preciso disso. Do quanto eu preciso de desligar o meu pensamento de tudo aquilo que me consome diariamente, do que me preocupa, do que me deixa ansiosa, do que me faz estar sempre a programar o que vem a seguir, etc… Durante 60 minutos sou apenas eu, a minha mente e o meu corpo. A mente completamente focada no corpo e vice-versa. E a sensação de ter ambos em plena simbiose é absolutamente maravilhoso. Perceber que é possível esticar só mais um pouco mais, que é possível o nosso corpo mover-se por partes em sintonia com os movimentos e as sequências do Pilates. Sentir que sabemos exactamente onde estamos a ir buscar a força e que está a ser no sítio certo é bom! Era disso que eu precisava.

Quero muito acreditar que esta era a peça que faltava no meu puzzle e que consigo finalmente encontrar o meu caminho. Que sei quais são as minhas respostas e que o meu corpo deixou de ser um mistério para mim. Não sei se isto que vos falo vos parece um tanto absurdo, mas nestas “viagens” todas que fiz, desde há cinco anos atrás, que me fui dispersando de mim e do meu corpo. Fui tendo sempre outras prioridades, foi preciso aguentar o barco, segurar a pontas e providenciar soluções para tantas mudanças familiares. Foi a minha escolha e o tempo passou sem que dela me arrependa, mas este reencontro pessoal e até espiritual tinha que chegar, mais cedo ou mais tarde.

Finalmente chegou! Deu luta, mas eu não nunca perdi o foco de mim. Eu sabia que, bem lá no fundo, este momento haveria de chegar e nem imaginam o bem que me sinto e o tranquila que estou. Sinto-me capaz de escolho bem as minhas batalhas, sabendo reservo-me para aquilo que é essencial. O estado de esgotamento e de cansaço extremo são um limite ao qual eu espero não voltar. Espero ter aprendido a lição! Boa noite!