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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

Aquilo que eu entendo quando ouço falar na afirmação do "corpo real"

29.05.19 | Vera Dias Pinheiro

corpos reais e pós-parto

 

 

Já ninguém quer saber da perfeição, ou pelo menos eu assim o entendo. Já não precisamos andar a justificar que somos reais e que não somos perfeitas, nem a nossa família e nem a nossa vida. Não há assim tanta necessidade de afirmação do eu real, que se assume com todos as suas imperfeições, porque se é o normal, não deveria ser motivo de tanto alarido ou devia?

 

Ou, na realidade, continuamos todos à procura do corpo perfeito, da família perfeita, das férias perfeitas, da carreira perfeita… e por aí a fora? Todos queremos o melhor e todos desejamos alcançar os nossos sonhos e o nosso mundo ideal. Contudo, enquanto essa pressão vier de uma rede social ou de qualquer outro lado que não nós mesmos, podemos vir a sofrer de uma grande (de)pressão e frustração pela dificuldade que é conseguir lá chegar.

 

E se assim não fosse, porque haveríamos nós de justificar (ou pedir desculpa) sempre que postamos uma foto com fraca edição ou tirada “apenas” com o telemóvel? Será que alguém iria dar conta ou, sequer, importar-se com isso? Nesta altura, começamos a justificar a tal barriguinha que faz uma impercetível dobra, mas normal, quando estamos sentadas de biquíni nestes primeiros dias de praia.

 

Acho óptimo e desejável que se faça esta afirmação e aceitação de sermos como somos, das nossas formas, das nossas limitações e até daquilo em que somos diferentes em relação ao outro. Não temos o mesmo bio-tipo e, desculpem, estar a focar-me mais nas questões ligadas ao aspecto físico, mas é o tema sobre o qual as pessoas mais sentem necessidade de falar ou justificar.

 

No meu primeiro pós-parto senti toda essa pressão e sofreguidão por seguir os perfis do Instagram do fitness, das recéns mamãs, como eu, que já estavam recuperadas fisicamente a 200% e sem barriga alguma. Comia o mesmo que essas personas comiam, fazia os mesmos exercícios e ansiava pelo momento em que pudesse fazer um antes e depois.

 

Esquecia-me, todavia, de olhar para mim e de perceber quem eu era, qual a minha genética e a minha realidade. Era complemente falso dizer que, na altura, estava preocupada com o meu bem-estar, pois aquilo que eu desejava era, mesmo tendo sido mãe há pouco tempo, estar magra, sem barriga e sem qualquer sinal de flacidez.

 

Hoje em dia, se formos bem a ver, mantenho quase todos os hábitos: vou ao ginásio sempre que posso, procuro os tratamentos estéticos e as massagens que possam melhorar aquilo me incomoda mais, procuro fazer uma alimentação saudável e adaptada a mim – aqui foi o que fiz de diferente mesmo, o ter procurado um médico que olhasse para mim como a Vera e não como mais uma pessoa a quem vai “prescrever” a mesma dieta.

 

É certo que já estive mais magra do que agora, mas também já estive mais gorda. A diferença é ter aceite o meu corpo tal como ele é e trabalhar sobre isso e não com referência a fotografias que vejo passarem no meu feed. Entendi coisas, como por exemplo, meu corpo, mesmo magro, não veste um 34 sem se sentir apertado. Ou que manter a minha barriga lisa é uma tarefa difícil e árdua. Porém, percebi a coisa mais importante de todos, que o meu bem-estar deve ser a minha meta, mas, acima de tudo, a prioridade no meu dia-a-dia.

 

Já percebi que os pudins de chia e as panquecas de aveia nunca farão de mim uma pessoa fit, porque a aveia e a chia são duas das coisas que devo evitar comer, vejam só?!

Acima de tudo, assumi um estilo de vida que acaba por transversal a toda a família, seja na alimentação, seja no exercício físico.

É o estilo de vida de quem percebe que está a cuidar de si e do seu bem-estar, que mimamos o nosso corpo por vontade própria, sabendo o que é melhor para ele. É o estilo de vida que sabe que tanto o ginásio como as massagens são fundamentais para mim e, como tal, estão na minha agenda para não sejam esquecidos.

 

Vivemos expostos a tudo e a todos e esquecemo-nos, muitas vezes, de nos protegermos da influência negativa de que somos algo e que nem sequer nos percebemos.

Não há fórmulas perfeitas, embora aquilo que todos gostaríamos de encontrar fosse a resposta exacta para alcançar o mais parecido a essa tal perfeição. O equilíbrio que tenho hoje é o resultado de anos de procura de respostas, de tentativas-erro, não posso dizer que fiz uma só coisa e resultou-  poderia ter sido, mas comigo não foi o caso.

 

E, à medida que vejo os meus filhos crescerem, é essa a mensagem que lhes quero passar, de que o mais importante é saberem quem são, aceitarem-se e, a partir daí, tentarem ser os melhores. Acima de tudo, que não se culpem pelo que vêm no espelho, pela frustração, porque, afinal, somos todos iguais, passamos todos por altos e baixos, e aquilo que nunca vamos poder ver é a realidade tal como ela é, pois essa nunca passa para uma rede social por mais que se diga o contrário.

 

Boa noite!