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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

Afinal, temos (ou não) tudo para sermos felizes?

29.05.18 | Vera Dias Pinheiro

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Temos tudo aquilo que precisamos para sermos felizes. E enquanto acreditar nisso darei todas as oportunidades que entender necessárias para não abdicar dessa felicidade. A família que construi partiu da vontade  e do sentimento de duas pessoas que se juntaram, tiveram um filho, depois outro e que, ao longo dos últimos sete anos, têm dado todas as oportunidades que têm feito sentido para continuarem juntos.

Se eu achava que era mais fácil? Talvez! Se eu achava que não ia dar tanto trabalho? Talvez, sim. Achamos sempre que será mais fácil até termos a nossa família e descobrirmos que dá muito trabalho criá-la e, acima de tudo, mantê-la. Contudo, se houve aprendizagens que trouxe comigo dos dois anos que vivi expatriada foi precisamente a de vivermos uns com os outros e a de sermos autossuficientes uns para os outros, porque só existimos nós.

Esta "dependência" faz com que a união seja mais forte. Por exemplo, se queria ir ao ginásio, tinha que ir antes do meu marido ir trabalhar. Para ir às aulas de francês tinha que ser depois do horário de expediente do meu marido. E vice-versa, pois quando ele precisava de apoio, era eu que estava lá. As saídas a dois eram mais valorizadas, mais aproveitadas e mais desfrutadas, porque, afinal, estávamos a pagar a uma babysitter, era bom que aproveitássemos - e também eram menos recorrentes.

 

Os programas eram sempre feitos a três, as viagens a três, o dia-a-dia, para o bem e para o mal, era sempre a três. Aprendemos a reconhecer o valor do outro, do nosso companheiro, nem que não fosse porque dependíamos inteiramente dele e ele de nós. Aprendi a ser mãe e a ser esposa longe e isso fez-me concentrar no outro, aprendendo a ver para além dos defeitos, dos feitios e das dificuldades. Afinal, não havia para onde fugir, não é verdade?

 

Não foi perfeito, mas foi o ideal para aquela fase da nossa vida com tanta coisa a acontecer. As responsabilidades foram repartidas, não tivemos pontos de fuga e não houve ajudas de fora. Cada um aprendeu o seu papel e o seu lugar, sendo que o nosso papel e o nosso lugar é estar ali para o que der e vier e saber que não temos ali outra pessoa que nos conheça melhor ou outra pessoa com quem possamos contar.

 

Daquela experiência da nossa vida tenho muito boas recordações. Trouxe comigo aprendizagens e lições para a vida e é graças a isso que eu não baixarei os braços à mínima coisa. Ou, então, já passamos por tanto que será preciso muito mais para nos fazer desistir. E digo-vos que, de certa forma, foram tempos que deixaram saudades. Porque inevitavelmente que a nossa vida aqui é muito mais partilhada, fazendo o recurso à ajuda e ao apoio que podemos ter. Não somos apenas nós, o nosso núcleo, somos muito mais pessoas. O que não é nada mau, haviam muitas saudades, no entretanto, da família e dos amigos. Contudo, ao mesmo tempo, sinto que, por vezes, nos dispersamos do objectivo, sinto que nos perdemos no essencial.

 

E nesta fase menos boa de saúde, (re)descobri que é a minha família que me faz falta e que, ao mesmo tempo, me basta. É com eles que eu posso contar e que eu quero contar. É com a minha família que eu quero estar. Temos tudo para sermos felizes e, na maior parte das vezes, nem nos damos conta. Temos tudo para sermos felizes, mas a natureza humana faz com queiramos sempre algo mais. Temos tudo para sermos felizes, mas é mais fácil queixarmo-nos do que agradecer.

 

Eu só quero ter saúde para cá estar muitos anos e estar juntos destas pessoas que contribuíram muito para a pessoa (mais feliz) que hoje sou. Estou grata pelo dia em que tomei a decisão de ir, porque não foi uma submissão ou criar uma dependência, foi dar oportunidade a única coisa que realmente pode valer a pena nesta vida: a família! Estas pessoas, estes dois filhos, que eu tanto amo e que, à medida que crescem, vão-se tornando na minha companhia preferida. As aventuras que temos, as descobertas que fazemos. Quero continuar assim, junto deles, com saúde, a vê-los crescer e a vê-los sorrir e a dar-lhes o amparo necessário sempre que caírem.

 

Ter filhos é agri-doce. É maravilhoso por tudo, porém cria igualmente muita instabilidade e insegurança. E, sabem uma coisa? Leva tempo, muito tempo até que a nossa vida estabilize e um dos conselhos mais sábios que me deram até hoje, foi “não te precipites! Dá tempo, sabe esperar, porque leva tempo. E, então, depois desse tempo avalia se realmente vale ou não a pena.”

Cada dia, todos os dias, é isso que tento fazer. Dar tempo e espaço para que as coisas voltem ao seu devido lugar ou, então, não… Mas dar tempo.

 Boa noite.