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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

Ser Filho Único Ou Ter Irmãos?

O que há de tão especial na relação entre irmãos?

13.02.20 | Vera Dias Pinheiro

filho único ou ter irmãos

 

Este tema é assunto porque tenho alguns amigos/pessoas próximas que, ponderando uma série de factores racionais e objectivos, sentem receio em avançar para um segundo filho. A responsabilidade, os encargos e uma vontade soberba de que nada lhes falte são alguns dos motivos que suportam essa reticência. E é completamente válida, pois o mundo actual é bastante exigente, em que praticamente nos sentimos colocados num certo patamar de estilo de vida (nomeadamente pelos aumentos dos custos fixos de vida) que nos obriga a trabalhar mais, a fazer mais cedências em prol dos filhos, sobretudo da sua educação e do futuro que desejamos para eles.

Vivemos numa sociedade que nos leva a dar demasiada atenção ao dinheiro e a ter os “cifrões” como elemento importante na tomada de uma série de decisões. E sim, o dinheiro é essencial, claro que sim, mas não é um valor em si mesmo, não pode – não deveria ser – um fim/objectivo. No final, não será o dinheiro que nos trará o bem-estar que precisamos e a paz interior que tanto desejamos.

 

No meu caso, ter apenas um filho nunca foi uma opção. Tinha todas as certezas de que era minha “obrigação” dar um irmão ou irmã ao Vicente e já tive prova de que foi das decisões mais acertadas da minha vida e só isso já era suficiente para eu continuar convicta de que é importante ter irmãos.

Na verdade, o que acontece é que eu cresci a ouvir constantemente que “onde comem três, comem quatro”.

 

E nestes curtos anos enquanto mãe de dois guardo já momentos marcantes, por exemplo, do início da nossa instalação em Bruxelas, momentos em que, nas dificuldades, o Vicente e a Laura foram o apoio um do outro. Vi, com os meus olhos, a forma como se procuravam um ao outro, muitas vezes, em substituição do pai ou da mãe, em como conversavam e a profundidade da sua relação mesmo com a tenra idade de ambos.

 

Sei que a palavra do Vicente tem um valor para a Laura e que o Vicente não pensa duas vezes quando é preciso defender a irmã ou ajudá-la. E para não falar da cumplicidade, que foi crescendo também por força das circunstâncias, a própria mudança levou a que, durante três meses, tivessem que ser os melhores amigos, porque não tinham mais ninguém. Aprenderam a brincar um com o outro, a tolerar-se um pouco mais e a aceitar-se. E eu vi tudo isto a acontecer e a crescer. As idas ao parque eram momentos de pura observação para mim daquela interacção entre irmãos.

 

Naturalmente que a partida da avó – não gosto de dizer morte – marcou-os muito. E mais uma vez, tiveram que se apoiar um no outro. Fosse por verem a mãe, em certos momentos, bastante preocupada e, depois, desolada. Fosse por sentirem também o pai apreensivo, preocupado e a tentar dar-me algum apoio.

 

Mas, por outro lado, eu também sei que as pessoas crescem, as personalidades são diferentes e nem sempre a relação entre irmãos é assim tão forte e inabalável - eu sei pela minha própria experiência. Contudo essa experiência e vivência pessoais mostraram-me algo que eu ainda não tinha sentido de forma tão clara e absoluta ou, pelo menos, com a consciência que a minha história de vida e idade agora me permitem ter, a relação de sangue e a ligação entre irmãos tem mesmo algo de diferente e especial. E isso é o resultado também dos valores inegociáveis que nos foram passados pelos nossos pais.

 

A doença da minha mãe aproximou duas irmãs e foi tal e qual como se fosse um íman, com a capacidade sublime de apagar divergências, discussões e tudo mais que um dia nos pudesse ter afastado. E garanto que nenhum outro abraço me confortou tanto no dia do funeral como o da minha irmã. A linguagem visual, o entendimento sem serem precisas palavras, o conforto da companhia só por si. Se tivesse passado por tudo isto sem a minha irmã teria sido ainda mais doloroso.

 

Portanto, eu acredito muito que os irmãos têm a capacidade de se unir nos momentos fulcrais da vida, sou a prova de que podemos ficar sem pai e sem mãe e, inevitavelmente sentir uma espécie de orfandade que só é colmatada pela existência da minha irmã, a minha família de sangue, as minhas referências, um apoio que estará sempre lá e que juntas enfrentamos qualquer coisa. Sem ela viveria com um sentimento de solidão muito grande dentro de mim, ainda que hajam amigos que são famílias (de verdade e eu tenho a sorte de ter uma mão cheia de amigos assim). Porém, nesta fase de vida tão delicada, o que senti com ela não sinto com mais ninguém e acho que isso explica muita coisa.

 

E a mãe, esteja onde estiver a olhar para nós, estará certamente muito feliz e orgulhosa. Afinal, foi ela quem proporcionou tudo isto. Como tal, a par com este coração vazio e dolorido, está igualmente um coração cheio de amor e feliz por esta família que tenho.

 

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Como Fazer O Luto De Alguém Que Amamos Mesmo Muito?

Luto: A Despedida E A Eterna Saudade

10.02.20 | Vera Dias Pinheiro

como fazer o luto aceitar a morte de uma mãe

 

Antes de qualquer coisa, sinto a necessidade de partilhar algo com vocês: eu vivi com uma pessoa os seus últimos anos de vida sem o saber. E não mudaria nada do que foram esses anos, não acrescentaria nada, não apagava nada. E, neste luto tão duro, apazigua-me a alma saber que as despedidas foram todas feitas em vida, com os abraços, os beijinhos, as conversas e os momentos (que, mais tarde, se transformarão em bonitas memórias, pois agora é só dor e tristeza).

Isto é, para mim, uma aprendizagem de vida enorme que me transformou e que transformará certamente os meus filhos.

 

Há uma semana atrás fiz a despedida mais dura da minha vida. Já perdi o meu pai, da maneira contrária, sem pré-aviso e com todo o choque que a morte de um pai ou mãe representa na nossa vida, pois, pela primeira vez, senti que me “roubavam” os pilares de quem eu sou, sem que eu me sentisse capaz de ser quem sou sem esses pilares. Percebem?

 

Era bem mais jovem, uma adulta em formação e fiquei sem chão, ferida e revoltada. Só há pouco tempo tinha encontrado a serenidade que tanta falta me fazia, sem ter “sede” de justiça ou sem remoer nas atitudes más dos outros. Fui aprendendo a enfrentar os problemas e a resolvê-los mesmo não tendo sido eu a causadora. Enfrentei mudanças atrás de mudanças, contudo, foi nesse processo que tive igualmente a clara certeza de que “quem muda, Deus ajuda”. Porque nunca nada me faltou e acabei sempre por encontrar a melhor solução para esses problemas e, a verdade é que, a seguir acabava por ficar sempre um pouco melhor.

 

Até há sete meses atrás encontrava-me nessa altura da minha vida serena… serena até ao momento em tudo foi novamente colocado em causa e eu senti-me novamente encurralada, pressionada a ter que tomar as decisões mais acertadas, a ser mais racional e viver com um discernimento e uma objetividade que me permitissem ver o “certo ou errado” para além da emoção e dos sentimentos. Para além da angústia com os porquês e a injustiça.

 

Entre o diagnóstico da doença da minha mãe e o fim do seu sofrimento, passaram-se (apenas) sete longos meses na vida da nossa família. Vivi completamente esmagada com a responsabilidade de ser mãe e ser adulta perante as nossas escolhas de família e a profunda angústia por deixar longe a minha mãe (com esta doença tão grave e sem remédio), o pilar da vida de todos nesta casa. Não poder dar um abraço no preciso momento, não estar na primeira quimioterapia, não lhe tocar quando o contacto com ela já ia muito pouco para além disso. E, por fim, não estar no final e (agora) viver para sempre com a tristeza de não ter conseguido dar-lhe um último abraço, porque partiu quinze minutos antes daquele avião aterrar.

 

Vivi estes últimos sete meses em tensão, a viver no limite porque sentia que sempre que chegava até ela aquela doença já tinha roubado mais um pouco. Ainda assim, “enquanto há vida, há esperança” e a esperança foi alimentada pelos “prazos” que foram ultrapassados e pelas palavras que nos dirigiam… Porque nós, mesmo com todas as certezas, criamos a esperança que ainda podemos ser o milagre, a excepção à regra.

 

E por mais que nos digam que o cancro permite que nos preparemos para a morte, é mentira. Dói na mesma e dói mais, porque o cancro é uma doença cruel, sem piedade do corpo de quem se apodera.

 

E agora?

Agora vivemos entre o constante “tens que ter força”, mas, ao mesmo tempo, “tens que viver o teu luto”, entre o “tens que te distrair!” e o ser importante não “saltar etapas”. Não sei efectivamente como se vive o luto, parece que não aprendi nada com a primeira vez e não tenho conselhos para dar. Sei que ando numa fronteira muito ténue entre o querer desparecer por um tempo e a responsabilidade de ser mãe, de saber que é preciso reagir a tudo isso e, sim, eu também sei que é preciso “fazer aquilo que deixaria a minha mãe orgulhosa”.

 

Mas sabem?

Ainda nem se quer me habituei a ideia de que para falar com ela terei que olhar para o céu, em vez de lhe ligar. O vazio não se preenche de um dia para o outro e perder uma mãe é ficar sem nada e eu não perdi “apenas” uma mãe. Eu perdi muitas pessoas numa só!

 

Eventualmente farei o luto pela minha vida fora – é preciso aceitar a morte, mas também a doença e esta doença deixa marcas. Eventualmente a alegria muda de cores e de configuração. Eventualmente terei que me reinventar. Mas permito-me sofrer, chorar e, acima de tudo, sentir todas estas dores e todo este mal-estar sem que isso faça de mim uma pessoa mais fraca ou tão pouco que não honre a minha mãe – ela melhor do que ninguém sabe como a sua filha é emocional, sensitiva e… de lágrima fácil.

 

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