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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

Sobre A Aprovação Da Eutanásia Em Portugal

Os Motivos Que Me Levam A Ser A Favor Da Eutanásia

20.02.20 | Vera Dias Pinheiro

aprovação da eutanásia em portugal

 

Em primeiro lugar, acho que é preciso reforçar que um direito não nos obriga a nada, mas ter direitos, por sua vez, protege-nos.

 

Confesso que não li muito acerca do fundamento de quem é contra a eutanásia, prefiro pensar que se trata apenas de não ter noção do que é realmente um estado terminal de vida e o que é ver alguém que nos é realmente próximo em processo de morte. Para uns é rápida e indolor, mas, para outros é demorada, sofrida e em estado de degradação física e mental continua e assustadora.  

 

E eu sei que todos nós concordamos que a morte é das poucas certezas que temos na vida, porém quando chega a hora de falar sobre ela e de a enfrentar, a maioria das pessoas foge! Entra em negação ou em recusa! E a discussão sobre a eutanásia, para mim, é a prova disso mesmo.

 

No entanto, a minha opinião é tão somente isso, a minha opinião! Mas como pessoa que sou a favor deste direito, a eutanásia, eu estou feliz com esta notícia. E após ter vivido de perto a evolução do cancro num doente terminal - nunca entrei em detalhes quanto à gravidade, mas era bastante grave - se eu já tinha uma opinião favorável, essa não mudou quando me deparei com o facto de que, de repente, a minha mãe era um desses doentes.

 

O meu amor incondicional por ela fez-me desejar, logo que soubemos qual seria o desfecho, que nunca chegasse ao tal estado que os médicos falavam e para o qual diziam ter que me preparar. Na minha cabeça ficava sempre a dúvida de qual seria esse tal “estado” ao qual a minha mãe chegaria. Que raio de evolução tão grave poderia acontecer, que transformação o cancro a levaria a enfrentar que exigia que eu tivesse que me preparar para ver uma mãe totalmente diferente no fim da doença?

 

E sabem? É mesmo inimaginável, a não ser que tenham a infelicidade de passar por isso. Contudo, o meu desejo profundo é que ninguém tenha que chegar até ao tal estado, que eu vi com os meus olhos. Por isso, falar de eutanásia faz todo o sentido quando somos transportados para esta realidade que fica, na maioria das vezes, guardada dentro de quem a vive.

 

Quando recebo uma videochamada e a minha irmã me pergunta se estou preparada para ver a minha mãe, a minha primeira reacção foi achar que ela só poderia estar doida. Que ideia a dela para me perguntar uma coisa dessas… O que mais poderia ter acontecido, em menos de 24 horas (o momento do meu último telefonema para a Unidade onde estava internada há menos de uma semana) para que a minha irmã estivesse naquela aflição?

 

Quando a câmara se vira, eu não encontrei mais a minha mãe. Vi alguém a morrer aos meus olhos e ninguém ia fazer nada, simplesmente íamos esperar, naquele estado de agonia e de aflição, que o fim chegasse. E quando é que chega? Há pessoas que ficam dias, semanas no tal estado, sabiam?

 

Todavia, no tal estado também já não existe amor à vida, nem tão pouco existe a pessoa que amamos. Existe apenas um corpo - que quero acreditar estar já vazio da sua alma - em luta, em conflito ou simplesmente em transição. Nesse momento, do nosso lado, há aflição, angústia e um sofrimento atroz que só acentua a dor da perda de quem amamos. Porque juntamente com a sua ausência, temos que lidar com todos os fantasmas e todos os “ses”: “e se ela sofreu” E “se ela percebeu que estava a morrer” e “se…” e “se…” e “se…”   

 

Ainda não havia eutanásia e ninguém ia fazer anda, mas Deus concedeu-lhe alguma dignidade no seu fim, aquela que já vinha a perder aos poucos, e foram poucas as horas que vivemos dentro daquele pesadelo.

 

A minha opinião é tão válida como qualquer outra, mas o meu amor pela minha mãe ou pelas pessoas que amo é, acima de tudo, querer que elas tenham dignidade em todos os momentos, mas, sobretudo, na doença e na doença oncológica, em particular. Se soubessem o quanto ainda existe por fazer por estes doentes e o quanto lhes falta para que vivam o seu fim com dignidade e alguma qualidade vida, a pouca vida que lhes resta… Se soubessem…

 

Por mais que se ame alguém e que queiramos muito ter essa pessoa na nossa vida, acreditem, pode haver um momento em que amar essa pessoa é deixá-la partir, porque só isso permitirá que descanse.  

 

Expliquei ao meu marido a minha vontade em deixar escrito os meus desejos caso venha a passar por uma situação de saúde com esta gravidade. Porém, agora já não precisa levar-me para nenhum outro lugar. Agora posso ficar no meu país, onde sei que a minha vontade será respeitada.

 

Bruxelles: Aller-Retour || Healthy Brunch In Antwerp

DIVERS, The Healthy Brunch In Antwerp

19.02.20 | Vera Dias Pinheiro

 

*Scroll Down For French.

 

healthy brunch antwerp

 

Gostamos muito de um belo brunch, é verdade, e longe vão os tempos em que procurávamos a gastronomia típica dos lugares que visitávamos. Hoje em dia, é mais perceber onde se come um belo brunch e de preferência que seja saudável. Sim, somos esse tipo de pessoas.

 

Portanto, devo dizer que estamos a levar este lado de “connaisseurs de brunchs” muito a sério. E porquê? Porque fomos até Antuérpia de propósito para ir ao brunch. É certo que a cidade é linda para se passear também, mas a chuva e o frio estavam daquele jeito que desmotivam até os mais audazes e corajosos, tipo eu!

 

Onde fomos?

DIVERS

Volkstraat 9, 2000 Antwerpen

 

Especialidade?

Bowls em geral e bowls de açaí

Sem lactose e com opções sem glúten.

 

O que comemos?

  • 2 Bowls diferentes, uma com frutos vermelhos de base e outra com ananás.
  • Tosta de abacate
  • Tosta de manteiga de amendoim e banana.

Nota: Na verdade, as opções dividem-se somente entre as tostas e as bowls, de qualquer forma tem variedade e ficamos com muitas outras sugestões debaixo de olho para uma próxima visita.

healthy brunch antwerp

 

healthy brunch antwerp

 

Sobre o espaço?

O espaço é pequeno, mas acolhedor e aceitam reserva de mesa, o que é óptimo. De qualquer forma, e sendo domingo, nunca chegou a estar cheio nem confuso e nem tão pouco fila de espera. Se queremos voltar? Sem dúvida, ficou totalmente aprovado.

O grande objectivo deste espaço é oferecer uma alimentação o mais "clean" possível e, ao mesmo tempo, contribuir para uma maior ingestão de vegetais na mesma. Sem extremismos e sem dietas, DIVERS oferece comida saudável cheia de sabor e de nutrientes bons para a nossa saúde. 

 

 

E antes da chegada do momento em que cedemos perante a chuva e o frio, houve tempo para um breve passeio e matar as saudades que já tinha de Antuérpia. Na mira estava uma livraria e foi até que nos dirigimos, The Other Book Shop

antwerp, belgium

 

antwerp, belgium

 

_______________________ FRANÇAIS _______________________

 

C'est vrai qu'on aime un beau brunch, et nous sommes déjà loin des temps où on cherchait uniquement la cuisine cuisine typique des lieux qu'on visite. Aujourd'hui, il s'agit plutôt de trouver les endroits où on mange bien et de façon saine. Eh oui, nous sommes comme ça.

 

Je dois donc dire que nous prenons très au sérieux ce côté des «connaisseurs de brunch». Et pourquoi? Parce que nous sommes allés à Anvers exprès pour aller au brunch. C'est vrai que la ville est belle aussi pour se balader, mais la pluie et le froid étaient si mauvais qu'ils découragent même les plus audacieux et courageux, comme moi!

 

Où est-on allé? DIVERS (Volkstraat 9, 2000 Anvers)

Spécialité? Bowls en général et bowls açaí. Sans lactose et avec des options sans gluten.

 

Que mange-t-on?

  • 2 bowls différents, un à base de fruits rouges et un à l'ananas.
    Toast à l'avocat.
    Toast au beurre de cacahuète et banane.

Remarque: En fait, comme les options se répartissent, uniquement entre les articles et les bowls. De toute façon, il y en a beaucoup de variété et nout jetons déjà un coup d'oeil pour une prochaine visite.

 

À propos de l'espace?

L'espace est petit, mais confortable et accepte une réservation de table, ce qui est super. Quoi qu'il en soit, et étant un dimanche, il n'y a jamais eu trop de monde, de confusion ou même d'attente. Voulons-nous y retourner? Sans aucun doute, il a été entièrement approuvé.

 

Le grand objectif de cet espace est de proposer une alimentation la"plus saine" possible et, en même temps, de contribuer à une plus grande consommation de légumes. Sans fondamentalismes, DIVERS propose des aliments sains, pleins de saveurs et de bons nutriments pour notre santé.

 

Avant l'arrivée de la pluie et du froid, in a eu l'occasion de faire une courte promenade et de se souvenir combien Anvers noua manquait déjà. On avait ciblé une librairie à visiter et on a réussi à la trouver just'avant notre départ, The Other Book Shop.

 

antwerp, belgium

 

 

Fiz 37 anos e tive zero de vontade para os festejar!

17.02.20 | Vera Dias Pinheiro

sem vontade para festejar o aniversário

 

Fevereiro até é um mês querido, mais curto que todos os outros e, de certa forma, é o mês do amor e isso traz sempre boas energias e é o mês do meu aniversário. Tinha tudo para ser um mês querido, mesmo com o frio e a chuva que, a maioria das vezes, assinala esse dia, o 16 de fevereiro. Mas não é e nunca foi um mês que me trouxesse particular alegria.

 

Talvez por ter demasiadas expectativas intrínsecas em cima dele e das datas que nesse mês se assinalam e, no final, os planos saírem todos furados e as expectativas todas ao lado. Este ano não foi de todo a excepção à regra. E, a partir de agora, será para sempre um mês triste, aquele em que vi a minha mãe partir.  Contudo, e se eu acredito que nada acontece por acaso, a minha mãe partiu no mês do aniversario das duas filhas – não fosse correr o risco de ser esquecida por nós, como se isso fosse possível. Mas com a “dependência” dela em relação a nós e a forma como sempre viveu para as filhas toda a sua vida, não deixa de ser curioso.

 

Acima de tudo, quero deixar registado que tenho o meu coração em paz e que se tudo isto aconteceu desta maneira, é para nos ensinar algo e, consequentemente, trazer algo de bom à minha vida. Mas aquilo que eu sinto é uma incapacidade enorme de expressar alegria genuína, de ter vontade para tirar prazer das coisas como antes… fiz 37 anos e tive zero vontade de festejar e se o fiz foi pelos meus filhos.

 

Mas não só… fi-lo também porque durante muito tempo da minha vida e da relação com a minha mãe, eu ficava furiosa com ela quando a via incapaz de tirar partido dos momentos e de ver o lado bom das coisas, independentemente da tristeza e dos momentos difíceis que pudesse estar a passar. Pedia-lhe muitas vezes para olhar para as filhas e para os netos e perceber quão sortuda ela era por ser tão amada e tão requisitada por nós.

 

A minha mãe perdeu a sua mãe ainda mais cedo do que eu, aliás, eu não tenho qualquer memória dos meus avós maternos. E sei que a morte da minha avó nunca foi um assunto resolvida para ela e que nos momentos de suposta alegria, como o natal, os aniversários, etc… era quando ela se sentia precisamente mais triste. Mas eu, ingénua nestas coisas das dores, insistia com ela para ultrapassar essa tristeza e olhar para a família que ela (e o meu pai) tinha construído e que estava ali para ela.

 

E agora, que me sinto desprovida dessa alegria interior, debato-me com a vozinha interna da minha cabeça que me lembra todas as vezes em que tive que ajudar a minha mãe a erguer-se para a vida. E neste processo, sei, com toda a certeza, que não quero acabar nesse lugar e não quero que os meus filhos sintam a mesma pressão (e responsabilidade) que eu senti em relação à minha mãe.

 

Porque, afinal, a vida é feita de ciclos e enquanto são os ciclos naturais a acontecer, então, quer dizer que ainda está tudo bem. É certo que, para mim, este ciclo que fechou, aconteceu demasiado cedo e repentinamente. As coisas foram sucedendo-se, umas atrás das outras, e nós só tivemos tempo de reagir e tentar adaptar. Mas não deixo de me sentir numa espécie de encruzilhada entre o que está para trás, os meus pais, e o futuro, os meus filhos. E independentemente da minha incapacidade em gerir o que sinto, sei que tenho que ter os olhos postos no futuro.

 

Com isto, sinto que se fechou um ciclo e que agora, a minha mãe, onde quer que ela esteja, está munida de tudo o que antes lhe poderia faltar para me poder ajudar no meu caminho. Agora sinto como se não existissem impossíveis para ela. E eu sinto que, para mim, as coisas também mudaram e é bom que eu aceite e encaixa uma nova mudança na minha vida, mesmo que esta de Bruxelas ainda nem esteja completamente ultrapassada.

 

Mas a vida tem-me ensinado que as mudanças são boas, mesmo aquelas que fazemos completamente às cegas, sem qualquer noção do que nos espera. Portanto, posso ter tido zero vontade de assinalar o meu aniversário, posso não ter feito uma mega festa ou jantar, posso ter estado de semblante mais triste e fechado e até “recusado” chamadas só para continuar nesta espécie de bolha em que estou, mas isso não significa que não abrace os meus 37 anos com esperança e muita fé. Não significa que seja um ano deitado fora, nada disso! A vida é para ser celebrada todos os dias.

 

Posso não ligar a datas comemorativas, mas comemoro a vida com a consciência do valor que ela tem e o quão frágil ela pode ser. Estou triste, mas esse é o meu estado, contudo estou grata por tantas coisas boas que tenho à minha volta e, acima de tudo, por ter a capacidade de as reconhecer diariamente e de as agradecer.

 

A vida não se resolve da forma como idealizamos, porém acredito que se confiarmos, mesmo sem entendermos o porquê de certas coisas, no final, tudo fica bem.

E eu ainda não perdi a minha fé!

 

Há coisas que só o tempo tem o poder de melhorar ou curar!

Mas quanto tempo o tempo tem?

14.02.20 | Vera Dias Pinheiro

a cura através do tempo

 

Hoje é sexta-feira – para os mais distraídos – e eu fiz-me uma mulher durante estes cinco dias. Limpei as lágrimas, respirei fundo e ergui a cabeça. Não há tempo para parar o tempo, infelizmente. Não há tempo para fingir que a vida não é carregada de obrigações e de responsabilidade e não há tempo sequer para tirar umas férias sozinha numa ilha deserta – que é basicamente a minha vontade. Tenho dois filhos que precisam de mim e sobre quem não posso libertar tudo isto que me pesa no peito, tenho um marido que viaja e trabalha bastante e a quem não posso pedir que tire uma licença para eu poder fazer o meu luto em paz. Tenho a casa, não me livro das tarefas domésticas nem por nada, e tenho o meu trabalho, cujo retorno resulta 98% do tempo da energia com me entrego e faço as coisas.  

 

Rapidamente é fácil perceber para que lado a balança vai neste tipo de situações, certo? Sei – porque vocês partilham comigo – que muitas, muitas, de vocês já estiveram ou estão em situações iguais ou semelhantes à minha. Portanto, o “aperto” da vida adulta é real (e geral).

 

Mas eu, e vocês, aguento-me! E nesta semana sem o pai, eu portei-me como gente crescida e fui exemplar. Fui ao ginásio quatro vezes, tomei o meu banho, arranjei-me, cuidei dos miúdos, não encomendei Uber Eats uma única vez, não desmarquei a consulta do Vicente – o que me obrigou ao exercício de falar sobre dentes e aparelhos ortodônticos em francês, sempre com o olhar do Vicente em cima de mim para ver se me apanhava em falso – fui ao supermercado, estivemos no mercado da quarta-feira, também não deixei a louça acumular na cozinha e, todas as manhãs, saímos de casa sem atrasos. E, por fim, não menos importante, até que me senti pro-activa no meu trabalho.

Ufa!

 

No fundo, ocupei a cabeça, cuidei de mim, venci o lado “negro” que, nestes momentos da vida, nos puxa para baixo e acabamos até por descuidar um pouco da nossa imagem. Mas neste aspecto, aprendi que devemos sair de casa sempre com a nossa melhor cara, mesmo que por dentro estejamos completamente na m**** - desculpem o palavrão. E, por isso, é normal que 95% das vezes as pessoas me encontrem com boa cara e com aspecto cuidado. Talvez, este seja mesmo um lema de vida que eu tenho.

 

Mas, depois, chego ao fim desta semana e olho para dentro e percebo que nada disto contribuiu para que eu realmente me sinta melhor. E porquê?

“Então, porque é que não está a resultar? Porque é que eu não me sinto melhor?”, desabafava eu com uma amiga.

 

"… porque é tudo uma questão de tempo!", respondeu ela e acrescentou:

 

“O tempo perguntou ao tempo
quanto tempo o tempo tem!
o tempo respondeu ao tempo
que o tempo tem tanto tempo
quanto tempo o tempo tem.”

 

{Um pequeno a parte}

Lembro-me de ser criança e ouvir na rádio esta lengalenga, talvez na rádio Renascença, pois era a que os meus mais ouviam na época, e perguntar o que é que significava esta coisa do tempo.

 

Porém, esta percepção da “cura” pelo tempo é algo que só aprendemos por nós próprios e em todas as quedas e percalços que vamos tendo ao longo da vida, os dissabores e os desgostos.  

E na vida é mesmo tudo uma questão de tempo, só ele tem o poder de ajudar ou melhorar tudo.   

 

Ser Filho Único Ou Ter Irmãos?

O que há de tão especial na relação entre irmãos?

13.02.20 | Vera Dias Pinheiro

filho único ou ter irmãos

 

Este tema é assunto porque tenho alguns amigos/pessoas próximas que, ponderando uma série de factores racionais e objectivos, sentem receio em avançar para um segundo filho. A responsabilidade, os encargos e uma vontade soberba de que nada lhes falte são alguns dos motivos que suportam essa reticência. E é completamente válida, pois o mundo actual é bastante exigente, em que praticamente nos sentimos colocados num certo patamar de estilo de vida (nomeadamente pelos aumentos dos custos fixos de vida) que nos obriga a trabalhar mais, a fazer mais cedências em prol dos filhos, sobretudo da sua educação e do futuro que desejamos para eles.

Vivemos numa sociedade que nos leva a dar demasiada atenção ao dinheiro e a ter os “cifrões” como elemento importante na tomada de uma série de decisões. E sim, o dinheiro é essencial, claro que sim, mas não é um valor em si mesmo, não pode – não deveria ser – um fim/objectivo. No final, não será o dinheiro que nos trará o bem-estar que precisamos e a paz interior que tanto desejamos.

 

No meu caso, ter apenas um filho nunca foi uma opção. Tinha todas as certezas de que era minha “obrigação” dar um irmão ou irmã ao Vicente e já tive prova de que foi das decisões mais acertadas da minha vida e só isso já era suficiente para eu continuar convicta de que é importante ter irmãos.

Na verdade, o que acontece é que eu cresci a ouvir constantemente que “onde comem três, comem quatro”.

 

E nestes curtos anos enquanto mãe de dois guardo já momentos marcantes, por exemplo, do início da nossa instalação em Bruxelas, momentos em que, nas dificuldades, o Vicente e a Laura foram o apoio um do outro. Vi, com os meus olhos, a forma como se procuravam um ao outro, muitas vezes, em substituição do pai ou da mãe, em como conversavam e a profundidade da sua relação mesmo com a tenra idade de ambos.

 

Sei que a palavra do Vicente tem um valor para a Laura e que o Vicente não pensa duas vezes quando é preciso defender a irmã ou ajudá-la. E para não falar da cumplicidade, que foi crescendo também por força das circunstâncias, a própria mudança levou a que, durante três meses, tivessem que ser os melhores amigos, porque não tinham mais ninguém. Aprenderam a brincar um com o outro, a tolerar-se um pouco mais e a aceitar-se. E eu vi tudo isto a acontecer e a crescer. As idas ao parque eram momentos de pura observação para mim daquela interacção entre irmãos.

 

Naturalmente que a partida da avó – não gosto de dizer morte – marcou-os muito. E mais uma vez, tiveram que se apoiar um no outro. Fosse por verem a mãe, em certos momentos, bastante preocupada e, depois, desolada. Fosse por sentirem também o pai apreensivo, preocupado e a tentar dar-me algum apoio.

 

Mas, por outro lado, eu também sei que as pessoas crescem, as personalidades são diferentes e nem sempre a relação entre irmãos é assim tão forte e inabalável - eu sei pela minha própria experiência. Contudo essa experiência e vivência pessoais mostraram-me algo que eu ainda não tinha sentido de forma tão clara e absoluta ou, pelo menos, com a consciência que a minha história de vida e idade agora me permitem ter, a relação de sangue e a ligação entre irmãos tem mesmo algo de diferente e especial. E isso é o resultado também dos valores inegociáveis que nos foram passados pelos nossos pais.

 

A doença da minha mãe aproximou duas irmãs e foi tal e qual como se fosse um íman, com a capacidade sublime de apagar divergências, discussões e tudo mais que um dia nos pudesse ter afastado. E garanto que nenhum outro abraço me confortou tanto no dia do funeral como o da minha irmã. A linguagem visual, o entendimento sem serem precisas palavras, o conforto da companhia só por si. Se tivesse passado por tudo isto sem a minha irmã teria sido ainda mais doloroso.

 

Portanto, eu acredito muito que os irmãos têm a capacidade de se unir nos momentos fulcrais da vida, sou a prova de que podemos ficar sem pai e sem mãe e, inevitavelmente sentir uma espécie de orfandade que só é colmatada pela existência da minha irmã, a minha família de sangue, as minhas referências, um apoio que estará sempre lá e que juntas enfrentamos qualquer coisa. Sem ela viveria com um sentimento de solidão muito grande dentro de mim, ainda que hajam amigos que são famílias (de verdade e eu tenho a sorte de ter uma mão cheia de amigos assim). Porém, nesta fase de vida tão delicada, o que senti com ela não sinto com mais ninguém e acho que isso explica muita coisa.

 

E a mãe, esteja onde estiver a olhar para nós, estará certamente muito feliz e orgulhosa. Afinal, foi ela quem proporcionou tudo isto. Como tal, a par com este coração vazio e dolorido, está igualmente um coração cheio de amor e feliz por esta família que tenho.

 

Como Fazer O Luto De Alguém Que Amamos Mesmo Muito?

Luto: A Despedida E A Eterna Saudade

10.02.20 | Vera Dias Pinheiro

como fazer o luto aceitar a morte de uma mãe

 

Antes de qualquer coisa, sinto a necessidade de partilhar algo com vocês: eu vivi com uma pessoa os seus últimos anos de vida sem o saber. E não mudaria nada do que foram esses anos, não acrescentaria nada, não apagava nada. E, neste luto tão duro, apazigua-me a alma saber que as despedidas foram todas feitas em vida, com os abraços, os beijinhos, as conversas e os momentos (que, mais tarde, se transformarão em bonitas memórias, pois agora é só dor e tristeza).

Isto é, para mim, uma aprendizagem de vida enorme que me transformou e que transformará certamente os meus filhos.

 

Há uma semana atrás fiz a despedida mais dura da minha vida. Já perdi o meu pai, da maneira contrária, sem pré-aviso e com todo o choque que a morte de um pai ou mãe representa na nossa vida, pois, pela primeira vez, senti que me “roubavam” os pilares de quem eu sou, sem que eu me sentisse capaz de ser quem sou sem esses pilares. Percebem?

 

Era bem mais jovem, uma adulta em formação e fiquei sem chão, ferida e revoltada. Só há pouco tempo tinha encontrado a serenidade que tanta falta me fazia, sem ter “sede” de justiça ou sem remoer nas atitudes más dos outros. Fui aprendendo a enfrentar os problemas e a resolvê-los mesmo não tendo sido eu a causadora. Enfrentei mudanças atrás de mudanças, contudo, foi nesse processo que tive igualmente a clara certeza de que “quem muda, Deus ajuda”. Porque nunca nada me faltou e acabei sempre por encontrar a melhor solução para esses problemas e, a verdade é que, a seguir acabava por ficar sempre um pouco melhor.

 

Até há sete meses atrás encontrava-me nessa altura da minha vida serena… serena até ao momento em tudo foi novamente colocado em causa e eu senti-me novamente encurralada, pressionada a ter que tomar as decisões mais acertadas, a ser mais racional e viver com um discernimento e uma objetividade que me permitissem ver o “certo ou errado” para além da emoção e dos sentimentos. Para além da angústia com os porquês e a injustiça.

 

Entre o diagnóstico da doença da minha mãe e o fim do seu sofrimento, passaram-se (apenas) sete longos meses na vida da nossa família. Vivi completamente esmagada com a responsabilidade de ser mãe e ser adulta perante as nossas escolhas de família e a profunda angústia por deixar longe a minha mãe (com esta doença tão grave e sem remédio), o pilar da vida de todos nesta casa. Não poder dar um abraço no preciso momento, não estar na primeira quimioterapia, não lhe tocar quando o contacto com ela já ia muito pouco para além disso. E, por fim, não estar no final e (agora) viver para sempre com a tristeza de não ter conseguido dar-lhe um último abraço, porque partiu quinze minutos antes daquele avião aterrar.

 

Vivi estes últimos sete meses em tensão, a viver no limite porque sentia que sempre que chegava até ela aquela doença já tinha roubado mais um pouco. Ainda assim, “enquanto há vida, há esperança” e a esperança foi alimentada pelos “prazos” que foram ultrapassados e pelas palavras que nos dirigiam… Porque nós, mesmo com todas as certezas, criamos a esperança que ainda podemos ser o milagre, a excepção à regra.

 

E por mais que nos digam que o cancro permite que nos preparemos para a morte, é mentira. Dói na mesma e dói mais, porque o cancro é uma doença cruel, sem piedade do corpo de quem se apodera.

 

E agora?

Agora vivemos entre o constante “tens que ter força”, mas, ao mesmo tempo, “tens que viver o teu luto”, entre o “tens que te distrair!” e o ser importante não “saltar etapas”. Não sei efectivamente como se vive o luto, parece que não aprendi nada com a primeira vez e não tenho conselhos para dar. Sei que ando numa fronteira muito ténue entre o querer desparecer por um tempo e a responsabilidade de ser mãe, de saber que é preciso reagir a tudo isso e, sim, eu também sei que é preciso “fazer aquilo que deixaria a minha mãe orgulhosa”.

 

Mas sabem?

Ainda nem se quer me habituei a ideia de que para falar com ela terei que olhar para o céu, em vez de lhe ligar. O vazio não se preenche de um dia para o outro e perder uma mãe é ficar sem nada e eu não perdi “apenas” uma mãe. Eu perdi muitas pessoas numa só!

 

Eventualmente farei o luto pela minha vida fora – é preciso aceitar a morte, mas também a doença e esta doença deixa marcas. Eventualmente a alegria muda de cores e de configuração. Eventualmente terei que me reinventar. Mas permito-me sofrer, chorar e, acima de tudo, sentir todas estas dores e todo este mal-estar sem que isso faça de mim uma pessoa mais fraca ou tão pouco que não honre a minha mãe – ela melhor do que ninguém sabe como a sua filha é emocional, sensitiva e… de lágrima fácil.