Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

Como Foi A Primeira Viagem De Avião Com Crianças | O Vosso Feedback | Outras Dicas

18.11.19 | Vera Dias Pinheiro

viajar de avião com crianças-dicas

 

Há alguns dias atrás lancei uma pull através do Instagramstories para perceber qual a vossa relação com as viagens de avião e as crianças a propósito deste artigo que escrevi. E a minha curiosidade deve-se ao facto de este ser um dos assuntos que mais pedidos de dicas e conselhos levanta sempre que é falado ou partilhado. Contudo, a minha experiência vale o que vale e é muito baseada na própria personalidade de cada um dos meus filhos. Ainda assim existem sempre “bengalas” que podemos usar para captar a atenção deles e distraí-los na esperança que não se apercebem do tempo que têm que estar sentados naquele lugar estreito, muitas vezes pouco agradável, seja pelo ar condicionado, pelo facto de não dar jeito nenhuma para dormir e ainda pelas regras a cumprir na hora de levantar e de aterrar.

acores-são-miguel-viajar-com-criancas

São Miguel, Açores, 2016

 

Ainda assim, quando perguntei se já tinham andado de avião com os vossos filhos, a grande maioria de vós (81%) respondeu SIM, contra apenas 19% do lado do NÃO. E para além disso, dentro deste 81%, a maioria afirmou ter feito a primeira viagem de avião com filhos ainda antes destes completarem um ano de idade – sendo que a média anda ali entre os 4 e 5 meses de vida. Nada mal! 😊

Eu faço igualmente parte desta maioria. O Vicente fez a primeira viagem com três meses, precisamente para Bruxelas, e a Laura com 6 meses para a ilha de São Miguel nos Açores. E as primeiras viagens de ambos foram bastante pacíficas.

 

Algo que vocês confirmaram também na mesma pull:

  • “Amo viajar com eles. Peanuts!”
  • “Super tranquilo. Dormiu desde que o avião levantou até que aterrou.”
  • “Espectacular. Adorou e repetiu uns meses depois.”
  • “Top! Correm sempre bem. Ou dormem ou vão entretidos a brincar.”
  • “Tranquilo. Na época, tinha o peito que era o melhor calmante e sonífero! Kkkkk”

 

Por contrapartida, quando não corre bem…não corre! E eu também cheguei a ter dessas viagens.

  • “É sempre interessante!”
  • “O meu filho tinha na altura perto de dois anos e a viagem de ida foi a chorar até se deixar dormir…”
  • “A primeira vez com 9 meses chorou a viagem toda. Os outros passageiros não estavam muito felizes.”
  • “Terrível, chorou durante 1h”

 

lago do como, itália, viajar com crianças

Lago do Como, Itália 2017

milão-viajar-com-crianças

Milão, 2017

Portanto, se os vossos filhos gostam de andar de avião, aproveitem e tirem partido dessa experiência sempre que possam. Porém, se não corre bem, o problema não será do vosso filho. Acontece! O importante é não terem receio, não se deixarem afectar pelo facto de estarem eventualmente a incomodar todos os outros passageiros, porque são crianças e tudo como eles tem sempre uma parte que nós não controlamos.

 

Entretanto, aproveito mote do tema para deixar aqui algumas informações gerais importantes e que acabam por responder às perguntas mais comuns:

  1. Se viajar com um bebé (com idade inferior a um ano) tem embarque prioritário;
  2. Os carrinhos de bebé podem ir até à porta do avião e recolhem, à chegada, no mesmo local.
  3. Na bagagem de mão podem levar toda a comida (do bebé) necessária para aquela viagem, tendo em conta a sua duração – inclui boiões e sopas.
  4. Até aos dois anos de idade, as crianças viagem ao colo com um cinto especial preso no do progenitor que viajar com o bebé.

 

Passamos agora às dicas mais objectivas para a primeira viagem, já que é aquela que representa um maior tabu para os pais – depois vão-se acostumando:

  1. Prepare a viagem de véspera e leve uma mochila com tudo aquilo que precisa, desde necessaire à alimentação, o melhor é ter tudo sempre à mão. Se o bebé gostar de marsúpio ou pano, aconselho a usarem também, é a forma de manterem aos mãos livres e levarem menos coisas possíveis para a zona de embarque;
  2. Sempre que possível, tente conciliar os horários dos voos com os do seu bebé – por exemplo, se for uma viagem de longo curso, recomenda-se que optem por fazer um voo nocturno.
  3. Quando o tema é como evitar as dores de ouvidos, o consenso é que se deve oferecer alguma coisa que o bebé consiga e goste de chupar – por exemplo, a chucha, o bibebrão ou a mama. É o movimento de sucção que vai ajudar a evitar as dores de ouvidos, especialmente durante a descolagem e a aterragem.
  4. Levem consigo alguns brinquedos, por aqui resultam muito bem os livros de colorir e os livros de autocolantes, fora isso, sim, é imprescindível um tablet com muitas apps de jogos, episódios de desenhos animados que gostam, porque esse recurso acaba sempre por ter uma elevada taxa de sucesso, sobretudo quando já nenhuma outra coisa funciona.

ACS_0841.JPG

Ostende, Bélgica, 2019

ACS_0732.JPG

Ostende, Bélgica, 2019

 

Posto isto, facto parece ser que noutra época, os nossos pais não tiveram que se preocupar com nada disto, porque segundo a mesma pull, percebi que os nossos filhos viajam muito mais cedo de avião por comparação connosco. No meu caso (e do meu marido) é igualmente algo que se confirma. No meu caso, a minha primeira viagem de avião, já era eu moça de faculdade, foi para Toronto, no Canadá. Fui sozinha e foi uma grande aventura! Era a primeira da família a andar de avião, imaginem lá? E olhem que de viagens não nos pedíamos queixar, descobrimos Espanha e todo o nosso Portugal, eu e a minha irmã, ao longo da nossa infância e adolescência e tenho memórias que irei guardar para sempre.  

E, desse lado, que memória guardam da vossa primeira viagem de avião? 

 

Boa noite.

Violência Doméstica: O Que Falha? | Testemunhos Reais #7

13.11.19 | Vera Dias Pinheiro

violence-against-women

 

Muito se tem falado sobre os crimes de violência doméstica: o que se deve fazer, como e a quem denunciar os casos, bem como o apoio que deve ser dado às vítimas deste crime público.

Parece, à partida, que tudo é muito fácil e acessível a quem passa por uma situação destas, mas a realidade é bem diferente.

 

Enquanto vítima de violência doméstica, e na qualidade de cidadã bastante informada, posso falar na primeira pessoa de que existem muitas falhas no que respeita ao apoio prestado às vítimas, começando, por exemplo, pelas próprias autoridades, associações de apoio à vítima e, por último, na justiça. É que existem ideias preconcebidas de que as vítimas de violência doméstica pertencem, sobretudo, a estratos sociais mais baixos desvalorizando por completo o testemunho e os relatos de vítimas que não se enquadram naquela “classe”.

 

De uma forma geral, posso garantir que os agentes das forças segurança de uma esquadra não estão preparados para atender um telefonema de uma pessoa em apuros. Das várias vezes em que liguei para a PSP, quando senti que a minha vida estava em risco estando eu na minha própria casa, trancada num quarto a relatar o que estava a acontecer a resposta foi a seguinte: “tenha calma, onde é que a senhora está? Está alguém consigo?” e repetem estas questões vezes sem fim enquanto eu apenas pedia por ajuda. Bem sei que existem muitos telefonemas falsos, mas tendo em conta que uma pessoa assim que liga logo se apresenta com nome, morada e relata a situação, bem que os senhores agentes podiam passar para o ponto seguinte. Quando questionava se me podiam ajudar voltavam a perguntar: “onde é que a senhora está? E está alguém consigo?”. Lá voltava a repetir tudo e pedia por tudo que me ajudassem. A resposta era esta: “o carro patrulha agora não está nessa zona e não temos ninguém para ir aí agora, mas ligamos mais tarde para saber como está?”. Tive a sorte (?) de o agressor ter fugido da minha casa quando percebeu que eu tinha ligado para a polícia. Nas outras vezes, em que era vítima de assédio (perseguição) e ficava encurralada na minha própria casa respondiam: “não abra a porta”. Ao que eu respondia que não podia ficar ali o dia todo porque tinha que ir trabalhar.

 

O mesmo registo é seguido por várias das associações de apoio à vítima, que existem na nossa praça. O único apoio que tive foi por telefone e quando me desloquei, pessoalmente, a uma delegação de uma dessas associações e repeti a minha história, vezes sem conta, a resposta que tive foi a de que nada serviria fazer uma queixa na polícia, pois de nada valeria. Fazem-nos ainda um questionário muito simples e avaliam assim “do pé para a mão” de que o risco é mínimo. Como se o facto de ser vítima de agressões físicas, psicológicas e verbais, e o facto de estar grávida, viver sozinha e, por isso mesmo, estar a pedir ajuda não pesasse rigorosamente nada na balança.

 

Só após muita insistência da parte da vítima, familiares, amigos e testemunhas, é que se poderá vislumbrar uma luz muito ténue ao fundo do túnel. Aí eu questiono: então e as mulheres que não têm este apoio, esta rede de apoio próxima ou facilidade económica e financeira o que fazem? 

 

Os números que vemos nos media são assustadores. Em 2019 já contamos com 30 vítimas mortais, incluindo crianças. Mas não são números que temos que combater. São pessoas que temos de proteger, de cuidar, de salvar. Falta o quê, então? O que podemos fazer? Gritamos por justiça, mas ela não nos ouve! Faltam redes de apoio? Talvez. Falta formação aos agentes e às autoridades? Falta! Faltam leis? Talvez não, mas falta formação aos magistrados, que muitas vezes aplicam leis baseados nas suas convicções e crenças pessoais.

 

É preciso ouvir as testemunhas e não descredibilizá-las! Precisamos de magistrados conscientes e capazes de se colocarem na pele das vítimas e tentarem perceber o flagelo pelo qual passaram sem olhar apenas a provas e a factos. Porque uma coisa é certa: o crime da violência doméstica acontece, sobretudo, dentro de quatro paredes, onde normalmente estão apenas a vítima (ou vítimas se existirem filhos presentes) e o agressor. Certo é, que a vizinhança, os familiares e os amigos poderão testemunhar algo suspeito, mas nunca poderão ser precisos, pois não estavam no local do crime. Sendo assim, não basta pedir bom senso. É preciso praticá-lo. É urgente agir com precisão e celeridade e impedir que este número, tão assustador, continue a aumentar, como se de feijões se tratasse.

 

                                                                                                                                                                                          {Obrigada}

 

 

Outros Testemunhos:

#1 "Mãe, porque é que eu sou gorda?

#2 Cancro: "A mãe está doente!"

#3 No Papel Da Madrasta

#4 A Minha Experiência Num Retiro Espiritual

#5 Quando O Cancro Bate À Nossa Porta

#6 Conviver Com Uma Doença Inflamatória Do Intestino

 

Se tiver uma história que queira partilhar comigo e neste espaço,

escreva-me através do seguinte endereço de e-mail

 blogasviagensdosvs@gmaill.com

5 Conselhos para quem gostaria (ou pensa) de abraçar a vida de expatriado

11.11.19 | Vera Dias Pinheiro

guia para expatriados-conselhos-grand-place-bruxelas

 

Falar em conselhos pode parecer um pouco pretensioso da minha parte e não é de todo essa a minha intenção. Até porque as experiências têm a ver com pessoas e as pessoas são todas elas diferentes umas das outras.

Portanto, no fundo, trata-se apenas da partilha de algumas das coisas que para mim têm feito mais sentido nestas experiências, fora do meu país, por um período de tempo prolongado.

 

Na verdade, foi um bichinho que começou com a minha estadia em Toronto, depois o Erasmus e, mais tarde, Bruxelas, que é já a segunda vez aqui. E se há algo de positivo a registar é o facto de nos sentirmos em casa nesta cidade, para mim fundamental. Não seria capaz de viver tanto tempo, ter a minha família, ter que ter a minha vida numa cidade se me sentisse estranha, se não a conhecesse verdadeiramente para além do turístico, da casa dos amigos com a mesma nacionalidade, etc… Por isso só por si não chega… pelo menos para mim. Eu preciso desenvolver rotinas, ter hábitos e ter caras que se tornam conhecidas do meu dia-a-dia, com quem se acaba por trocar um “bom dia/boa tarde”, acompanhado por um sorriso.

 

Ponto n.º1
Não podemos viver numa bolha. Se, por um lado, a experiência e óptima para fortalecer os laços da família nuclear, por outro, é preciso abrir espaço ao mundo que nos rodeia - sob pena de se fartarem uns dos outros, dos dias começarem e acabarem sempre com as mesmas caras à nossa volta.


Ponto n.º2
É preciso ter espírito aberto à possibilidade de fazer novos amigos em idade adulta. Porque é possível, aliás, os expatriados estão todos na mesma situação, no fundo, com disponibilidade de espírito para deixar que pessoas novas entrem na sua vida. Temos que aprender a dar um pouco mais de nós a pessoas que acabamos de conhecer de forma a criar oportunidades de criarmos relações que nos permitirão depois socializar.


Ponto n.º3
Não ter medo de andar sozinho. É preciso ter vontade própria para se aventurar na cidade. Ter iniciativa para explorar locais do seu interesse, cafés, lojas ou simplesmente passear pelas ruas e descobrir a cidade tal como ela é verdadeiramente – passamos a sentir-nos em casa quando saímos dos circuitos mais turísticos.


Quando vivemos numa cidade acredito que não queremos passar a vida nas ruas mais movimentadas pelos turistas ou envolvidos na confusão. Penso que queremos alguma paz e através disso encontrar refúgios que façam nascer a ligação afectiva com a cidade.


Ponto n.4

A língua não pode ser uma barreira. Aliás, aprender a língua do país é uma condição essencial (para mim). Em adultos ganhamos mais resistências e até um certo constrangimento por falar em público uma língua estrangeira que não dominamos, mas para viver fora do seu país é também preciso ter alguma dose de “sem vergonha” e ponha de lado esses preconceitos acerca de nós mesmos. Fale o mais que puder e em todas as circunstâncias.

E se tiverem filhos, acho ainda mais importante, afinal vão querer estar ao nível deles ou, pelo menos, conseguir acompanhar até chegar o momento em que são eles que o irão corrigir - ahahah.

 

Ser expatriado é sinónimo de ter algum espírito de aventura, ainda que a ideia seja criar relações afectivas com a cidade que o acolhe e não ser uma espécie de turista com residência mais prolongada. No nosso caso, optamos por viver sempre em zonas mais ricas em termos de vida social, bairros com vida própria, com pessoas a circular seja a que dia for. Não há nada nos falta assim que saímos do nosso prédio e tudo a distâncias alcançadas facilmente a pé. Não falta nada mesmo. Foi uma escolha e já falei aqui sobre a dificuldade em escolher casa e tudo aquilo que temos que colocar na balança e estabelecer como prioritário.


Chegado o momento em ter que fazer uma escolha, optamos pela casa em detrimento da localização! De certa forma, foi muito bom para a tal ligação afectiva, pois não moramos nos subúrbios nem numa zona maioritariamente residencial. E, embora a distância para a escola, eu não queria que o ponto central da nossa vida fosse a escola ou o trabalho do meu marido. Vivemos numa zona “isenta” que transforma os nossos dias a partir do momento em que entramos em casa.

Ponto n.º 5

Não se restringir à comunidade do seu país. É um enorme apoio ter amigos portugueses por cá, partilham-se contactos, conhecimentos e, em bom rigor, comunicar na nossa língua será, sem dúvida, sempre mais fácil.

Mas não acho positivo ser-se fechado e não criar amizades com pessoas de outras nacionalidades, especialmente quando é tão fácil e tão benéfico.

No que toca a nós, é algo que fazemos questão, o facto de estar com pessoas de outras nacionalidades e nutrir relações. Aprendemos tanto, as conversas são diferentes e eu sinto que fico sempre um pouco mais “rica” interiormente.

Entretanto, é natural que existam diferenças entre a minha experiência em 2013 e agora. Contudo, aquilo que prevalece é essa capacidade de sermos os nossos melhores amigos e a auto-confiança que nos permite ultrapassar a barreira do desconhecido. Almoço sozinha, vou às compras sozinha e não tenho mesmo problemas com isso. Também já fiquei horas a falar com pessoas desconhecidas como se fossem amigas de longa data. Já almocei, tomamos pequeno-almoço e fiz outros programas, abri inclusivamente a porta da minha casa para receber pessoas que, em bom rigor, conheço há muito pouco tempo. Saio da minha zona de conforto por opção própria

Não é de todo uma experiência fácil. E acredito que é preciso ter-se o bichinho/a vontade para o fazer. Não sou da opinião de que estas experiências sejam para ser vividas numa bolha ou pela metade. Viemos à descoberta de novas oportunidades, num sítio novo com tudo por descobrir.

 

O tempo é sempre curto e é sempre intenso. Mas isso é válido tanto para o menos bom como para o positivo, que passa a ser muito, muito bom.

São escolhas de vida. É uma questão de espírito. Mas, no fundo, é um livro aberto para novas oportunidade e experiências e somos nós que decidimos de que forma o iremos colorir.

Como se organiza uma semana atípica sem a nossa rede de apoio?

08.11.19 | Vera Dias Pinheiro

expatriados-quando-não-temos-rede-de-apoio

Eu achava que iria terminar esta semana em bom, pronta para o fim-de-semana em família e com os quatro juntos. Porém, a verdade é que termino a semana rendida ao facto de que preciso de cama e de “drogas” mais fortes para curar uma valente gripe. Talvez acentuada pelo facto de ter sido uma semana atípica e sem a nossa rede de apoio para dar aquele suporto, por vezes mais emocional que outra coisa.

 

As mudanças de temperatura e também o ritmo de vida tão acelerado, foram mais fortes de que os meus cuidados para que a coisa não escalasse. Aguentei-me desde que regressamos de Portugal, porém na quinta-feira e hoje, tive que ceder e dar o descanso ao corpo que ele necessita, tomar medicamentos mais fortes, fazendo um esforço para ignorar tudo o que não é urgente.

Contudo, quando se vive sem rede de apoio por perto, seja expatriado ou não, quando há alguma coisa fora da rotina, por mais pequena que seja, é o suficiente para destabilizar logo toda a semana. Porque temos que reorganizar todo um modelo de rotinas que, de si, já de bastante frágil, pois só funciona se tudo correr dentro da normalidade.

 

E o que aconteceu desta vez? Ora, bastou saber no domingo à noite por sorte, que o Vicente, afinal, não tinha escola na segunda-feira, por conta das reuniões de pais. Bastou que, daí a poucos dias, ontem, na escola da Laura – como em outras escolas públicas belgas – houvesse uma greve e, por conta disso, o horário da escola foi alterado, podendo ficar apenas por um período mais curto que nos restantes dias. E naturalmente bastou que nesta roda vida e as condições do tempo bastante invernais, a minha constipação de fosse agravando. Ainda conseguir ir duas vezes ao ginásio, na esperança que transpirando o vírus fosse embora.

Porém, o que este corpo pediu foi cama para equilibrar o stress e a correria. Não vos disse que o meu marido também viajou esta semana, pois não?

 

É nestas alturas que me treme as pernas, não pela doença, mas pelo facto de eu poder não estar ok para todas as situações do dia a dia, isso poder coincidir com as ausências do meu marido – que não é comissario de bordo, mas deve viajar tanto quanto um. As pernas tremem-me, porque é preciso haver um plano B, um recurso, uma ajuda quando é simplesmente impossível estar em dois sítios ao mesmo tempo e a verdade é que é nestas situações que nós sentimos que não sabemos muito bem com quem contar e se é que temos pessoas à nossa volta com condições para o fazer. Não é uma combinação para um café, um almoço ou uma ida ao parque, é preciso disponibilidade para um pouco mais. É preciso arranjar alternativas fiáveis à tal rede de apoio.

Eu sei que ajudaria ter os dois filhos na mesma escola, porém e por tudo o que já desabafei sobre a escola do Vicente e a da Laura, não tenho vontade alguma de a mudar no próximo ano e sim, manter este esforço.

 

O meu recurso é ter um anjo que me ajuda em casa algumas horas, os meninos gostarem imenso dela e ela ter conseguido trocar os nossos dias e os nossos horários para, além de tudo aquilo que já faz, dar uma ajuda com os meninos. Ficou na segunda-feira com o Vicente para eu poder levar a Laura e, mais tarde, ir à reunião na escola do Vicente e, na quinta-feira, veio à tarde e aí já para me ajudar com os banhos e dar-lhes alguma atenção, porque ontem foi mesmo o pior dia para mim.

 

Valeu-me igualmente a proximidade com a mãe de um amigo de turma do Vicente, valeu-me que ela viva perto da escola da Laura e, assim, em vez de me desdobrar em duas no dia da greve, só tive que ir deixar o Vicente a casa do amigo e assim ninguém se atrasou e ninguém faltou. E eu não tive uma crise de ansiedade – porque é isso que acontece quando sinto em tudo o que se refere ao Vicente e a Laura, sobretudo com as horas das escolas em dias de semana e o trânsito.

 

Hoje o pai chegou e com ele chega sempre uma repentina normalidade, mesmo que eu sinta, em certas alturas, ter sido atropelada por um camião. Passamos o fim-de-semana da melhor forma que sabemos, juntos e com muitos passeios.

 

Aquilo que eu sinto, desde 2013, na verdade, é este grande compromisso com a família. Uma dedicação quase “anormal” face aos nossos padrões, mas super normal para “quem é de cá”. A família pode e deve ser uma prioridade sem prejuízo daquilo que somos enquanto indivíduo. E a verdade é que eu vim para Bruxelas, desta vez, com um enorme stress e andamento, achava que com os filhos na escola isto fazia-se com uma “perna às costas”. Passaram-se cerca de cinco meses e eu tive me adaptar – como própria condição para tirar algum partido da vida e desfrutar. Nunca foi o meu objectivo, após tantas mudanças, de andar a correr fosse para onde fosse.

 

Desacelerei e vou praticando o exercício de pedir ajuda e de delegar um pouco desta pressão. Ninguém irá medir o meu mérito no final desta experiência, ninguém irá dar-me um diploma ou coisa que o valha. E esta experiência também é minha, é de todos!

 

Bom fim-de-semana.

A Primeira Vez A Viajar Sozinha De Avião Com Crianças

06.11.19 | Vera Dias Pinheiro

viajar sozinha de avião com crianças

 

Assim de repente, acho que viajar sozinha de avião com crianças, neste caso, o Vicente e a Laura, era das poucas coisas que me faltava fazer. E assim foi, numa viagem de última hora a Portugal e na impossibilidade de o fazermos os quatro, fomos e regressamos apenas os três.

 

A parte mais difícil de todas foi, sem dúvida alguma, as despedidas. As despedidas do pai, pois embora estejam muito habituados às viagens do pai, esta foi a primeira vez que estiveram no papel de serem eles viajar e o pai a ficar. Foram longos minutos junto ao controlo de segurança no aeroporto de Bruxelas com os dois a chorar sem parar. Foi um DRA-MA e não estou a exagerar! Levou tempo até que se adaptassem a este novo registo, o que só mudou praticamente no dia seguinte, quando acordaram já em casa da avó. E o mesmo no regresso, desta vez não no aeroporto, mas em casa da avó.

“Mãe tinhas razão, as despedidas custam muito. Estou sem coração.”, palavras ditas pelo Vicente.

 

Efectivamente, esta foi a parte mais difícil para eles e para mim, que tive que falar com eles sobre todos estes sentimentos saudosos, uma certa tristeza e uma grande nostalgia de quem passa vir apenas de visita ao seu país. E sobretudo não perder a calma, não deixando transparecer a minha própria vulnerabilidade.

 

Invariavelmente, é quando está a ficar bom que temos que vir embora. Além disso, o tempo é muito curto e a gestão que fazemos dele parece sempre ingrata porque não se trata de preferir uns a outros ou de fazer umas coisas ao invés de outras. É uma questão de oportunidade, urgência e até de prioridades. Desta vez e das próximas, a prioridade é a avó que vive em Santarém, a outra avó e depois vai-se gerindo.

 

Entretanto, entre os desafios de viajar sozinha de avião com crianças está a questão de ter que desmultiplicar os olhos, os braços, a atenção, ao mesmo tempo que estamos mais dispersas com uma série de coisas. Se o voo for à noite e se os dois adormecerem o grau de dificuldade aumenta. Mas o truque é simples: descomplicar e não ceder à “galinhice” de mãe de que temos que os poupar a tudo e mais alguma coisa. Ajudam e são responsáveis, cada um em função da idade que têm.

 

E (viajar sozinha de avião com crianças) de um modo geral, correu bem, tirando o cansaço normal. Com os meus filhos resulta muito bem comprar uma revista/livros de autocolantes, desenhar, etc… no aeroporto, a novidade faz com que se entretenham um bom tempo e, de seguida, têm os jogos no IPad e alguns episódios de desenhos animados. Contudo, à medida que crescem, os motivos de divergências entre ambos vão sendo maiores também. Ou seja, o que um quer ou outro não gosta; o que um faz, o outro desfaz a seguir…

 

A viagem Bruxelas-Lisboa (e vice-versa) tem uma duração de certa de 2h30, umas vezes um pouco mais, para mim, o ideal para este tipo de viagens. Portanto, não existem propriamente tempo para entrarem em saturação. E eu gosto de ir com calma e não me aborreço nada nos aeroportos, onde acho sempre que o tempo passa a correr.

 

O importante é dosear a quantidade de bagagem que levamos connosco para o avião. As mochilas são os nossos melhores amigos e simplificar as quantidades de roupa e outros itens que levamos nas malas que, embora sejam de cabine, eu opto por despachar para o porão se possível. Comida é outras das coisas que não pode faltar, incluindo uma refeição mais composta, pois nem um nem outro gosta da refeição do avião se houver.

 

Viajar sozinha de avião com crianças foi, então, mais uma missão concluída com sucesso e eles, por sua vez, experienciaram mais uma novidade. Estão a amadurecer, nesta nossa nova vida, a olhos vistos e nas mais pequenas coisas. E eu vou crescendo também, não se enganem, a única coisa que asseguro é a segurança e a confiança para mim e para eles, tudo resto aprendo na hora e de acordo com as situações.

 

Agora, que já vamos a meio de mais uma semana, já estamos de novo evolvidos nas nossas rotinas e a verdade é que o sentimento de casa-lar, neste momento, já está aqui.

E é bom regressar ao nosso lugar e às nossas coisas!

 

  • Registo Fotográfico da nossa viagem - Imagens Em Galeria - 

 

Viver Expatriado É Viver Em Constante Nostalgia. Porquê?

04.11.19 | Vera Dias Pinheiro

viver-expatriado-e-viver-com-nostalgia

 

nostalgia | s. f. nos·tal·gi·a

(francêsnostalgiedo gregonóstos-ouregresso a casaviagem + gregoálgos-ousdor)substantivo feminino 

1. Tristeza profunda causada por saudades do afastamento da pátria ou da terra natal

2. Estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém.

"[nostalgia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/[nostalgia [consultado em 04-11-2019].

 

Este ir e vir à nossa terra natal, às nossas origens é passar a viver sempre com uma certa nostalgia dentro de nós. A nostalgia de quem volta às origens, à sua vida, às suas rotinas e, acima de tudo, às suas pessoas. Nostalgia de quem – quando está - gostava que o tempo parasse e pudesse fazer sempre mais: estar mais, ver mais esta e aquela pessoa, ir a mais algum sítio. No fundo, não se sentir um visitante na sua própria terra.  

 

No entanto, estes (poucos) dias em Portugal tiveram duas grandes prioridades: estar com a minha mãe, a prioridade de todas as prioridades - e levar até ela um pouco da nossa fé e esperança, sobretudo com a presença dos netos, pois as crianças que são um “boost” de vida. E depois, dar seguimento a alguns trabalhos e estar com algumas pessoas com as quais tive que cancelar as “despedidas” fosse pela operação repentina nas vésperas da mudança – quem ainda se lembra da minha apendicite sem pré-aviso? - fosse pela repentina mudança de planos na vinda em agosto com prioridades que tiveram que se sobrepor a tudo o resto. Tinha estas portas por fechar e precisei de o fazer.

 

Ainda assim, é importante agradecer (de coração) aos amigos e a todas as pessoas que compreendem, que nos apoiam, que nos ajudam logisticamente, que estão do nosso lado “no matter what”. Assim fica mais fácil e mais leve, este ir e vir, sempre a correr por mais tempo que tenhamos. Assim, temos a certeza que continuamos uma fase diferente da nossa vida e que não deixamos nada/ninguém para trás.

 

E agora em casa novamente, estes dias são invariavelmente envoltos nessa tal nostalgia. Aos poucos, com o regresso às rotinas, voltamos a sentir-nos em casa, voltamos à nossa vida cá, às videochamadas, aos grupos do WhatsApp e nas insistências para que nos venham visitar.

 

A vida segue feliz e preenchida, é verdade, mas sempre com essa tal nostalgia. Existem mais birras, mais choros que não são mais do que manifestações das saudades, para os miúdos é bem mais complicado do que para nós. E a verdade é que embora exista toda esta nostalgia, não estamos cá de forma egoísta, estamos a pensar sempre num futuro melhor para nós, para os nossos filhos, mas também para aqueles que estão à nossa volta e que podem vir a precisar de nós. Nem sempre é fácil colocarem-se do nosso lado e pensar que nos momentos complicados, sentimos uma grande solidão por falta da nossa rede de apoio, uma saudade imensa porque é nesses momentos que esse sentimento sai cá para fora em todo o seu vigor.

 

Mas é preciso estabelecer prioridades, por muito egoísta que isso seja, porque a nossa vontade é de estar com toda a gente. Mas é preciso fazer escolhas e aceitar as consequências delas mesmas, é o preço a pagar por sermos adultos, creio eu! Mas o preço a pagar é também ganhar a confiança para expressar aquilo que nos é possível (ou não) fazer, não criar expectativas e… aceitar as consequências das nossas atitudes.

 

Cresci muito quando fiz Erasmus. Cresci mais ainda quando vim para Bruxelas, em 2013, com um bebé de 3 meses e uma licença sem vencimento. E, acreditem, ainda tenho mais para crescer aqui, nesta nova experiência, passados praticamente cinco anos. Regressei e os desafios são outros, os “issues” que me prendem a Portugal são igualmente outros e muito presentes no meu dia-a-dia.

 

Perante isto, não há outra forma de lidar se não ACEITAR! Mas aceitar com muito amor por mim, muita condescendência pela pessoa que eu sou e pelos meus limites. A autocritica em excesso acaba por prejudicar a nossa confiança, acaba por nos deprimir e pouco ou nada incentivar a seguir em frente. Por isso, o primeiro passo é continuar este caminho de aceitação comigo e, por consequência, com os outros.

 

Foram dias muitos importantes aqueles que passamos em Portugal. A quem vi, foi de coração e, a quem não vi, acredite que continua no nosso coração e nos nossos pensamentos.

 

Até breve Portugal.