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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

Duas Semanas Na Escola Primária E Uma "Espécie" De Carta Ao Filho Mais Velho

13.09.19 | Vera Dias Pinheiro

entrada na escola primária

 

Querido Vicente, tu tiveste o privilégio de entrar mais tarde no infantário. Tinhas cerca de dois anos e meio quando te deixei pela primeira vez numa escola. Eu estava devidamente preparada para ser segura e assertiva, para não me demorar nas despedidas e repetir-te que viria buscar-te. Estava preparada, contudo aqueles momentos iniciais, entre a tua chegada e a minha partida, eram angustiantes e desconcertantes. Lembro-me que nos momentos a seguir ficava sempre um pouco desorientada – e, mais tarde, a história repetiu-se com a tua irmã.

Ainda assim, o problema não era estar, pois desde o primeiro dia que te adaptaste bem, não ficavas apático, triste ou introvertido. E a verdade é que nunca recebi uma chamada da parte tua escola para te ir buscar mais cedo.



Não esqueço, em particular, do primeiro dia de todos, com os teus braços enrolados no meu pescoço com uma força de gente crescida. Enquanto tentava separar-te de mim, repetia-te “a mamã ama-te e vem buscar-te!”. Repetia que o “vou buscar-te” mais do que uma vez, mas não me demorava nas despedidas - e este é o grande conselho que vos deixo, serem firmes e não frias, transmitir segurança sem deixar transparecer as nossas emoções, ou tentar.


A partir daqui, mudaste mais uma vez de escola e duas vezes de sala e nunca mais te vi chorar. Foste crescendo com os mesmos amigos, foste criando os teus próprios hábitos e o há vontade de quem vai passando para o grupo dos mais velhos. Voltar a tirar-te do teu mundo, custou-me muito e que nunca penses o contrário.

 

Hoje chegas ao fim da tua segunda semana na tua nova escola. Não tiveste problema em fazer amigos, não fizeste da barreira linguística um problema, estás entusiasmado com tudo o que estás a começar a aprender, adaptas-te à rotina com a tua turma e com a supervisão do teu professor, com quem simpatizaste. Mas voltaste a chorar e eu voltei a sentir aquele aperto no peito, porque mãe sofre porque mãe tem o coração fora do seu peito e, se pudesse, ela jamais colocaria o seu filho em situações que o pudessem fragilizar. Portanto, têm sido duas semanas intensas nas emoções, todas elas muito à flor da pele, as vossas que descarregam em mim e as minhas que descarrego… não sei bem onde.

 

Passaste de uma família-escola pequena para uma escola grande com demasiados alunos e alunos que váo desde o quatro anos até ao 12º ano. E embora esteja tudo organizado, a verdade é que é tudo demasiado grande para ti. Eu sei que subir as escadas da tua antiga escola sozinho em nada se compara ao facto de teres que te despedir de mim ao portão e seguir por um caminho que te parece demasiado longo para fazer sozinho. Eu sei e por mais que queira te proteger e que tente argumentar com os seguranças, eu não posso proteger-te para além daquele portão.

 


Sabia que este dia, numa escola grande, iria eventualmente chegar, mas não imaginava que fosse tão cedo, pois mesmo que sejas uma criança crescida, no meio de tudo aquilo, és ainda demasiado pequeno. São milhares de crianças a passar e tu a tentares manter o teu foco, lembrando-te das coisas que te ensinaram, do ponto de encontro, do que fazer e do que dizer.

Os olhos enchem-se de lágrimas sempre que estás na iminência de ter que fazer o teu caminho sozinho, que não encontras a vigilante ou algum colega. Agarras-te a mim e eu… eu, filho, encorajo-te a seguires em frente sozinho e que se olhares para trás, eu vou lá estar, mas que agora é altura de saíres do meu ninho.

Depois, a magia acontece e tu ficas bem, tens amigos e tens a tua zona segura e as rotinas orientadas e guiadas. Mas a separação custa e eu, ingenuamente, também achava que ir conseguir ter-te debaixo da minha asa por um pouco mais.


Foram duas semanas loucas em termos de emoções, tanto para ti, como para a tua irmã. Contudo, falo para ti, porque a entrada no primeiro ano tem uma simbologia especial, significa a tua entrada na grande escola. E agora, meu filho, tens uma vida pela frente, com oportunidades, valores, aprendizagens, superações e também decepções com as quais terás que lidar. E eu, como tua mãe, passo os dias a pensar em como lidar contigo a partir de agora, como há tantas coisas que eu te quero ensinar e ferramentas que vais precisar para essa pessoa adulta, ainda em formação, que serás.

 

Mas nunca penses que não me custa, porque custa. Porque ajudar um filho a crescer e entregá-lo ao mundo, custa. É como se tivéssemos que arrancar uma parte de nós, do nosso corpo da qual precisamos para viver. Agora vou aprender também eu a ser mãe de um menino crescido, vou aprender a sossegar o meu coração porque tu estás a fazer o teu caminho e é assim que deve ser.

 

 

Se tu soubesses o orgulho que tenho em ti e na tua irmã… é imenso!

 

É Tudo Uma Questão De Organização... E De Paciência Também!

11.09.19 | Vera Dias Pinheiro

organização nas rotinas do dia-a-dia

 

As crianças começaram a escola. Aos poucos dos horários vão-se definindo e eu, por sua vez, começo a ver uma luzinha lá ao fundo sobre como serão, afinal, os meus dias nesta nova vida. Até aqui, a grande preocupação tem sido eles – o Vicente e a Laura – que estejam integrados na medida do possível nas escolas, que percebam as suas novas rotinas e os novos horários. Contudo, neste processo ainda que meio difuso, foi importante que eu fosse, ao mesmo tempo, tentando não perder o foco em mim e na minha vida.

 

Foram dois meses de férias muito intensos com os dois em casa, depois e até começar a escola, consegui gerir com o meu marido e retomar o ginásio - até aqui o único “me time” que me era possível ter, diga-se sozinha! E a meta seguinte seria coincidiria com o início da escola, retomando alguma normalizada e conseguir ter rotinas ou melhor, encontrar rotinas dentro desta nova realidade.

 

Diga o que disserem, são essas rotinas e essa organização que me permitem conseguir fazer “tudo”, mas, acima de tudo, é o que me permite ter tempo para mim e ter algum controlo no dia a dia. Pode retirar-me alguma espontaneidade, sim, concordo, contudo, de segunda a sexta-feira, eu prefiro mesmo ter esta ordem e não abdico sobretudo no que toca a horários.

 

Por exemplo, foi importante ter estado cá em março e ter percorrido todas as “portas abertas das escolas possíveis para a Laura, pois tivemos tempo para ponderar a nossa decisão. E foi igualmente importante ter vindo em julho, pois nesta fase a questão da mudança e da adaptação à cidade e a língua é agora que está ultrapassado. Já todos nós nos sentimos em casa, já não vivemos entre caixas e até já tivemos tempo para pensar nos últimos detalhes da casa.

No meu “planeamento” setembro seria para ajustar outro tipo de rotinas: a das escolas e da maneira como isso condiciona tudo o resto, nomeadamente a gestão da casa, das compras e da minha própria vida.

 

Em contrapartida, se havia muita expectactiva com a chegada desse dia, também é verdade que ainda estou em fase de testes. Para já, o meu grande objectivo é minimizar o tempo que passo a conduzir e de forma a que eu consiga ter o maior tempo possível para conseguir completar, por exemplo, uma coisa do início ao fim sem interrupções.

Mas a esta altura os horários das escolas ainda não estão completamente fechados, há actividades extracurriculares por começar e, nessa altura, os horários estarão mais homogéneos e eu consigo sacar mais uma ou duas horas “só para mim”.

 

Agora vivo um pouco com aquela sensação de “gastar tempo” sem realmente ter tempo para fazer o que preciso. O relógio condiciona e o trânsito também. Entre ir buscar o Vicente às 15:05 e a Laura às 15:20, imaginam que para que tudo corra bem, tem que estar tudo muito bem controlado.

 

A distância escola-casa e a escola provisória da laura, que ainda não pode juntar-se à do irmão, faz com que este ano lectivo seja um pouco assim, numa versão mais de mãe-uber. É que aqui não temos a nossa avó para dar uma mãozinha – ou várias. Aqui estamos só por nossa conta numa sociedade que nos obriga a viver para os filhos e para a família. Atenção, obriga no bom sentido, porque aquilo a que estamos habituados é a deixar os nossos filhos assim que a escola abre e ir buscar no último instante. Não é desejado, mas antes uma consequência do ritmo de vida. Mas aqui tudo está orientado de forma contrária ou, pelo menos, tem que estar e temos que fazer vários malabarismos e ter muita paciência acima de tudo connosco próprios.

 

Desbravamos o desconhecido literalmente e aos poucos esta fase ficará para trás. E quando se vivem momentos assim, com muita novidade e muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, o meu truque é tentar manter o foco nas prioridades e uma delas sou definitivamente EU.  

 

Boa noite!

 

Escola Nova. Rotinas Novas | Sobrevivemos À Primeira Semana

09.09.19 | Vera Dias Pinheiro

regresso às aulas

 

Foi uma semana inteira sem escrever aqui, a gerir as urgências do meu trabalho e da minha vida pessoal – sim, é verdade, ainda me resta um pouco de vida pessoal por aqui.  Foi uma semana em que a cabeça esteve a 1000 à hora e em que, na verdade, a minha cabeça teve virada praticamente em exlcusivo para esta nova fase da vida de todos, mas em particular do Vicente e da Laura.

 

Podia dizer aqui que me faltou o tempo, no entanto, o tempo, mesmo quando é pouco, arranja-se sempre. Diria, porém, que o início do ano lectivo foi o culminar do início daquilo que será a nossa vida a sério por aqui. E naturalmente que eu e os miúdos sofremos o impacto disso, cada um à sua maneira, mas todos tivemos que lidar com dificuldades.

A rotina, os horários, o “despachar crianças”, organizar os lanches e os almoços, as horas de entrada e de saída em duas escolas diferentes, o primeiro dia de aulas, já de si propício a alguma tensão, o facto de tudo isto ter coincidido precisamente com a primeira viajem em trabalho do meu marido. Foi como se tivesse caído um peso enorme sobre mim!

E, diga-se, eu tenho urgentemente que limar as arestas da minha vida, pois, levanto-me agora às 6 horas da manhã, o que não é compatível de todo com o horário a que tenho ido dormir. Como tal, andei (e ainda me sinto) cansada mas, sobretudo, tenho sono

 

Os estados de espírito dos miúdos, que oscilam da manhã para a tarde e de um dia para o outro; o tanto de informação que tenho que reter de uma escola e de outra numa língua que também não é a minha, deixam-me a cabeça cansada tal é o esforço diário para tentar acompanhar tudo sem deixar nada para trás.  

Posto isto, sentar ao computador e concentar-me para mais alguma coisa foi bastante difícil. 

 

Para além disso, o Vicente e a Laura, embora tendo estado em casa comigo dois meses, precisaram, nesta última semana, ainda mais de mim, da minha companhia, de conversar comigo, de fazer festinhas para adormecer, de paciência e de demonstração de amor e de verbalizar o quanto orgulhosa estou de ambos. 

 

Podemos saber ou imaginar ao que vamos, contudo passar pelo processo é completamente diferente. E os obstaculos iniciais têm um grande impacto, porque são os primeiros, são os mais difíceis de contornar porque não temos termo de comparação ou experiências para trás. É nesse momento que a incerteza, o medo e a insegurança nos fazem travar lutas internas em torno do “estou ou não à altura desta mudança” e das exigências que ela acarreta. 

Mudar é mesmo isso: abalar estruturas, mexer com tudo o que somos, com as relações e com o mundo à nossa volta e até com a forma como olhamos para ele. 

 

Foi igualmente uma semana em que cuidei pouco de mim, tive poucos cuidados com a minha rotina de rosto, adoptei o estado descontraído em versão exagerada pois resulta dessa falta de “tempo” para mim, fui ao ginásio uma única vez, não tive uma rotina de refeições normais, passei os dias condicionada pelos horários de um e de outro, com medo de me atrasar e sempre a correr de um lado para o outro e, por fim, passei demasiado tempo no trânsito.

Não queria que nada falhasse e queria que eles sentissem que a mãe tem tudo controlado - mesmo quando, para mim, 90% de tudo é igualemente novidade e desconhecido. Senti uma pressão sobre mim quase injusta, diria...

 

Posto isto, os meus desejos para esta semana são poucos mas concretos. Desejo que voltemos a encontrar uma rotina no nosso dia-a-dia, pois isso permite-nos(me) ter controlo sobre o dia. Desejo que os dias fluam de forma mais natural para eu conseguir ter o controlo da gestão do meu tempo e, não menos importante, desejo acertar as horas de sono face aos novos horários.

 

O importante é que aos poucos entramos nesta vida e nestas rotinas, esse é o caminho. É preciso dar tempo ao tempo, com calma e paciência.

Boa semana!