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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

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4 Contributos Para O Mês De Julho Sem Plástico

08.07.19 | Vera Dias Pinheiro

plastic free july

 

No passado dia 3 de julho assinalou-se o Dia Mundial Sem Sacos De Plástico, o que serviu de mote para o movimento “julho sem plástico”, ou seja, um movimento de alerta e consciencialização que propõe passar um mês inteiro sem usar plástico descartável.

 

Uma tarefa que pode parecer difícil, porém, pela minha experiência, passa um pouco pela nossa atitude e determinação. Foi preciso fazer algumas adaptações às rotinas de compras, sobretudo e uma capacidade de resistência e de dizer não de cada vez que nos tentam dar um saco de plástico numa compra.

 

Penso que consigo, sendo que a minha maior dificuldade era com as compras de frutas e legumes, pois num super ou hipermercado é difícil contornar os sacos transparentes. Por isso, passei a fazer todas as compras deste tipo no mercado mais próximo e levava sem quaisquer complexos os meus próprios sacos de pano, mesmo se pagasse mais uns cêntimos pelo peso dos mesmos.

 

Aliás, quando era o meu marido a ir sem mim, a senhora da banca dos legumes já avisa que a mulher (portanto, eu) não gostava de sacos de plásticos. Esta mudança era algo que, no início, incomodava um pouco a minha mãe e mesmo o meu marido, porque era diferente e supostamente podia aborrecer os comerciantes.

 

Entretanto, para que isto corresse mesmo bem passei a andar com um KIT de compras no carro, com vários sacos e sacolas que fosse preciso para qualquer ida ao supermercado de emergência. Sem isso, posso dizer que fazia recursos de tudo o que tinha à minha disposição: as mochilas da escola dos miúdos, a minha mala e as mãos!

 

Contudo, as novidades mais concretas e que, para mim, são realmente um passo importante no meu caminho sem plástico descartável foram outras e que coincidiram com a nossa mudança para Bruxelas, todo o processo de “destralhe” e mudança e também com o estilo de vida por aqui:

 

1.Tupperwares: caminho progressivo para passar para os recipientes de vidro, finalmente! Estamos resumidos a cinco ou sete tupperwares de plásticos e chega! Já comprei alguns de vidro, por necessidade, mas comprei igualmente as tampas em silicone que me permitem reutilizar muitos dos recipientes de vidro que já tenho para conservação.

2. Escovas de dentes em bambu para todos. Já tinha tentado fazer esta passagem, contudo achava que se degradavam muito rapidamente no copo com a humidade. Entretanto, em conversa sobre esse assunto aconselharam-me a usar um prato para colocar as escovas em vez do tradicional do copo e, de facto, resulta. Neste momento, já somos os quatro a usar estas escovas de dentes de bamboo.

3. Acabar com os garrafões e garrafas de água. Beber água engarrafada era algo a que estou habituada desde sempre. Nunca tive o hábito de beber água da torneira e tanto assim era que estranhava mesmo quando a água da torneira era boa para beber. Aqui em Bruxelas temos um “problema” com o excesso de calcário na água. É mesmo um grande problema, contudo, a zona em que moramos é melhor. Ainda assim estava a ser insustentável, com a quantidade de água que bebemos diariamente. Assim, outras das medidas que queríamos mesmo era passar à Brita, os jarros filtrantes para água. Cada filtro dura um mês, ao fim do qual deverá ser substituído por um novo – supostamente, o próprio jarro avisa-nos!

4. O supermercado que transformou a minha vida. Em Bruxelas, os produtos Bio e os supermercados Bio existem em grande oferta e tal como em Portugal, um pouco mais caros que os comuns. Contudo, descobri perto de nossa casa o supermercado The Barn com um conceito, diria eu, o ideal de supermercado numa era em que devemos repensar os nossos hábitos de vida.

No The Barn, tudo se vende a granel, desde frutas, legumes, cereais. No fundo, ali podemos fazer as compras de acordo com aquilo que deveria ser a base da nossa alimentação. Para além disso, não existe plástico, existem embalagens em papel, frascos de vidro. Todavia, o mais maravilhoso de tudo, é que podemos trazer tudo aquilo que é nosso, por exemplo, nos frascos de vidro tiramos a tara dos mesmo e, na caixa, esse valor é retirado. Estou muito maravilhada com este conceito, alimentos biológicos de produtos nacionais, a próprias lista dos legumes e das frutas de acordo com os meses do ano e, por incrível que pareça, no final, a conta não sobe astronomicamente!  

the barn bio market plastic free july

 

the barn bio market plastic free july

 

the barn bio market plastic free july

 

Quando em tempos fiz um workshop de Zerowaste promovido pela Maria Granel senti-me complemente perdida e a achar que era completamente impossível chegar a um estado da nossa vida mais sustentável e amigo do ambiente. As transformações pareciam gigantes e começar esse processo parecia implicar alteração até na nossa carteira, o que é um pouco contraditório ao princípio deste estilo de vida. Mas talvez o bichinho tenha lá ficado, e ficou de certeza. Ficou o objectivo e, aos poucos, a verdade é que as mudanças, embora pequenas, foram acontecendo.  

 

A ideia é não deitar tudo o que temos fora e investir num estilo de vida novo. A ideia é caminhar aos poucos, com a consciência de que é facto importante mudar os nossos hábitos e padrões de consumo, de comportamento para com o meio ambiente e de alimentação. Isso é claro e são cada vez mais as provas que o mundo nos vai dando de que é preciso mudar comportamentos.  

Não podemos ficar à espera da mudança para apanharmos “o barco”, temos que ser nós os agentes da própria mudança.

 

E por aí? Que tipo de mudanças “mais sustentáveis” têm adoptado na vossa vida e na da vossa família?

 

Fim-de-semana em família e amigos: as novas rotinas em Bruxelas!

07.07.19 | Vera Dias Pinheiro

fim-de-semana em bruxelas

 

A vida por aqui desenrola-se com calma e com tempo para todos. Talvez por já termos vivido em Bruxelas não sentimos aquela vontade extrema de bater perna pela cidade, afinal, já conhecemos e já a exploramos antes.

 

Em contrapartida, temos todo um bairro novo para conhecer e descobrir. É uma zona com imensa vida e em outros tempos, vínhamos muito pouco para aqui e quando vínhamos acabava por ser sempre aos mesmo locais. Imaginem uma espécie de Campo de Ourique amplificada… é a melhor comparação que encontro.

 

Como tal, temos tudo aquilo que precisamos à volta: os parques, os restaurantes, os supermercados, as lojas, desde a moda aos serviços mais básicos do dia-a-dia. E o facto de passarmos agora mais tempo por aqui faz também parte do processo: de construir rotinas e hábitos que nos tragam algum sentimento de pertença e de integração. E, aos poucos, vamos alargando os horizontes e mostrando outras coisas ao Vicente e à Laura.

 

Porém, este fim-de-semana toda a cidade esteve agitada com a Grande Partida da Grande Prova de Ciclismo de Franca ser em Bruxelas. Estradas cortadas, transportes públicos gratuitos durante todo o fim-de-semana e muita, muita gente, a aderir ao entusiasmo da prova, vestindo-se a rigor. E se no sábado tentamos, mas não conseguimos apanhar a partida, hoje fizemos finca pé para ver passar os ciclistas e conseguimos.

brussels grande depart 2019

 

Mas nem só de ciclismo se fez este fim-de-semana. Levamos o Vicente e a Laura a fazer o pequeno tour pelos pontos turísticos mais emblemáticos de Bruxelas e, por assim dizer, fazer mais uns baptismos belgas. A zona da Praça Royal, onde está o Palácio dos Reis e o Museu Magritte, a zona do Grand Sablon, onde podem tomar um café no Café no piso superior da loja dos conhecidos chocolates belgas Pierre Marcolini. De seguida, descer até à Grand Place, umas das mais bonitas na minha opinião, distinguida como Património da Unesco, sem esquecer de fazer uma visita ao Burgo Mestre, com passagem obrigatória pelo Manneken Pis – quem nunca, não é verdade?! E aquela desilusão básica por constatarmos ser tudo em ponto muito, muito pequeno.

manneken pis brussels

 

taschen bookshop brussels

 

pierre marcolini bruxelas

 

Fartamo-nos de andar a pé, como sempre sem darmos conta, pelo facto de ser uma cidade bastante plana e relativamente pequena, o que faz com que facilmente demos por nós na ponta oposta da mesma. Andar de transportes públicos é algo que não fazemos muito em Lisboa, por vários factores práticos que não tornam os transportes públicos facilitadores das nossas rotinas, porém, aqui é algo que fazemos muito. Deixamos o carro para as viagens mais longas ou, por exemplo, idas a supermercado de maiores dimensões para compras maiores ou visitar amigos.

 

Esta é também uma novidade para o Vicente a para a Laura, mas que, aos poucos, vão-se habituando e gostando cada vez mais de andar de transportes públicos e também de andar no seu próprio meio de transporte pelas ruas. A bicicleta, a trotinete e o skate fazem parte do dia-a-dia dele - outra das vantagens de se viver numa cidade plana.

Só falta a minha bicicleta, que espero podermos ir comprar em breve! Estou super entusiasmada por andar com eles sem carro e num estilo de vida até mais activo e, ao mesmo tempo, saudável.

 

Todavia, o fim-de-semana não poderia acabar sem uma ida a um dos muitos parques que existe por aqui. Muitos deles autênticas florestas – a coisa boa de tanta chuva que cai nesta cidade: muito verde, muitos parques e muitos espaços ao ar livre muito bem aproveitados por todas as pessoas.

 

Desta vez, fomos a um parque um pouco mais longe, um dos maiores, pelo menos que eu conheço. Chama-se Park Josapath e tem imensos espaços diferentes de lazer: parques infantis, animais, muita relva, mais parques infantis, mais relva, cafés e bares. Sem qualquer esforço passam ali uma tarde animada com os vossos filhos e amigos.

park josepath brussels

 

Bruxelas é uma cidade boa para se viver! Não é perfeita, como nenhuma, penso eu, é verdade que é precisa paciência para os belgas e para certos “modos de fazer as coisas” desta cultura. Contudo, tudo isso devidamente encaixado, a qualidade de vida nas pequenas coisas é muito grande e acho que é por isso que quem parte fica sempre com saudades de voltar.

 

Boa noite.

 

A viver devagar nestas duas semanas de nova vida em Bruxelas

05.07.19 | Vera Dias Pinheiro

viver devagar slowliving

 

Fez ontem uma semana que entramos no nosso novo lar e ontem precisamente desfazia a última caixa e arrumava as roupas que ainda estavam espalhadas. Uma coisa que foi amor à primeira vista e não por ser a ideal ou a mais gira de todas. Nada disso! Foi amor à primeira vista talvez por ser realmente a tal, por ser realmente aqui que deveríamos estar e por eu estar desperta isso e ter marcado a visita, mesmo sem o meu marido mostrar qualquer interesse.

 

Quis o destino que ele, mal entrasse, sentisse o mesmo e quisesse fechar o negócio sem que ainda tivesse visto a casa toda. E acreditem que depois dos dias longos, preenchidos com visitas e nós já bastante desanimados, sem muitas mais opções pela frente, cancelamos todas as visitas assim que saímos da “nossa” futura casa.

 

São sinais que a vida nos dá e das duas uma: ou captamos e confiamos ou continuamos noutro sentido à procura do ideal, que nós próprios nem sabemos muito bem qual é… - nestas coisas do “abstrato” tenho sempre que dar um empurrãozinho ao meu marido que pouco ou nada está virado para essas coisas. E parece que com o tempo, lá me vai dando alguma credibilidade e sem se arrepender.

 

E, mais tarde, quando aqui chegamos, a cereja no topo do bolo foi quando começamos a arrumar as nossas coisas em novos lugares. No início, fiquei com a ideia que as coisas não iam ficar bem nesta casa, dois estilos completamente diferentes e já estavam com ideias e listas de coisas que eventualmente teríamos que comprar. Contudo, sabem o mais engraçado? Tivemos uma união perfeita e o essencial que viajou de Lisboa até Bruxelas, vai o suficiente também aqui.

 

Tive semanas inteiras a destralhar a mudança. Tinha claro na minha cabeça que não iria trazer anda que não usasse ou que não gostasse, o que mesmo assim já é muita coisa. E hoje, uma semana após estarmos cá e com tudo no lugar, transmite-me coisas boas ver armários e gavetas vazias e uma casa ampla onde a energia flui. E é isso que eu quero de uma casa.

 

Preciso de uma estante para livros, de uma cama para a Laura, porque preciso criar espaços diferentes e uma secretária para acompanhar a nova fase escolar do Vicente. Levei imenso tempo a sentir a nossa anterior casa como nosso, passei imenso tempo a pensar nas coisas que nos faziam falta, passei também muito tempo a destralhar, e estávamos felizes em nossa casa.

 

E agora sentimos o mesmo, as nossas escolhas não forma em vão e adaptam-se perfeitamente a esta casa com características diferentes. E os dias que aqui passamos contrastam com os anteriores à nossa vinda para cá, que foram de correria e de grande azáfama. OS dias têm sido passados de forma tranquila, sem pressas e, tanto os miúdos como eu, temos aproveitado a cama um pouco mais de manhã.

 

Sabem?! Falamos tanto do slowliving, eu própria também, sem muitas vezes, o sentirmos realmente. E eu, entretanto, nestas duas semanas consegui atingir esse estado da minha existência e da nossa vida. Hoje sei o que é o slowliving, porque os nossos dias têm sido desfrutados, sem pressas, de manhã à noite, com a rotina gostosa de fazer tudo a pé, voltei a ter o meu troley para ir às compras ao supermercado e observo os meus filhos felizes e soltos pelas ruas, umas vezes de trotinete, outras de skate e outras de bicicleta. São eles que escolhem e o resto deixamos fluir. Levamos mais tempo nos percursos, temos peripécias e conversamos muito.

 

Não sei se estou a perder alguma coisa ou se deveria estar a correr atrás de alguma coisa, sei, contudo, que preciso disto que estou a viver agora. Sinto que os momentos que passamos de manhã, na nossa varanda, entre as brincadeiras deles, o meu silêncio enquanto termino o meu café, o cheiro da relva e o cantar dos passarinhos, é tudo aquilo, que eu secretamente pedia para ter um dia. Portanto, se esse dia chegou, eu permito-me desfrutar de tudo isso sem qualquer tipo de pressa.

 

E com isto não confundam o slowliving com o não fazer nada, porque nada tem a ver. Continuo com todas as tarefas, aliás, mais ainda nesta fase e nas próximas, mas faço a um ritmo diferente. Foi como se de alguma forma, eu tivesse abrando o ritmo e não me perguntem nem como nem porquê. Mas se querem um conselho, quando se sentirem próximos de viver um momento assim, experimentem!

 

Bom fim-de-semana.

O Vicente teve direito a uma visita (super) especial esta noite. Adivinham?

04.07.19 | Vera Dias Pinheiro

fada dos dentes

 

O Vicente foi surpreendido por uma vista há muito desejada. Adivinham quem? A Fada dos Dentes! YEAH Sou oficialmente mãe de um filho desdentadinho, ou seja, sou oficialmente mãe de um rapaz – oh meu Deus!

 

Durante este ano lectivo, houve uma altura em que todos os amigos do Vicente começaram a perder os dentes de leite. E o Vicente sem sinais disso, já estava a ver o caso mal parado sem uma estreia com a Fada dos Dentes. E o engraçado é que nós achamos esta, uma fase terrível das crianças, desdentadas e com os dentes definitivos a nascer, numa mistura que nada os favorece. Porém, para eles é um marco importante a acontecer nas suas vidas e a alegria supera a de muitas outras coisas que os deixam habitualmente (muito) felizes.

 

O que eu noto nos seis anos é uma grande vontade de se afirmar como crescido. A autonomia com que fazem as coisas faz-se de acompanhar de uma grande autoconfiança e de iniciativa. O Vicente de antes era muito reservado e o Vicente que hoje temos connosco, nada tem a ver. É conversador, extrovertido e cheio de iniciativa. Cresceu, essa é que é essa e, sem dúvida, que venceu a sua timidez!

 

E é um rapazinho que não gosta de ficar para trás, portanto o facto de ainda não ter perdido nenhum dente já estava a deixá-lo um bocadinho triste. E foi na última consulta de rotina no dentista que recebemos a boa notícia: havia um dente mesmo a abanar e a coisa podia acontecer dentro em breve.

 

Voltamos para casa e lá fomos fazendo tudo aquilo que podíamos nomeadamente comer coisas cruas e com casca. Mas nada acontecia e com a azáfama das mudanças, ninguém mais se lembrou do dente que abanava, nem ele próprio.

 

Entretanto, ontem o dente estava quase, quase a cair, ainda prometeu ao pai que esperava por ele e a mim pediu que o arrancasse caso ele não caísse. Eu já estava pronta, acho eu, o meu pai fez-me isso alguma vezes, sabia que ia precisar de uma linha, fazer um nó e passamos à acção com determinação.

 

Entretanto, nada disto foi preciso, pois, no final do lanche, já não havia dente para contar história. O Vicente tinha acabado o lanche e pelo que parece, o dente foi junto, lá pelo meio do que estava a comer.

 

E foi aqui que se levantou a grande questão:

“Sem dente, será que a Fada dos Dentes vem à mesma?” Ora aí estava uma questão importante. Será que viria nessa noite? Será que saberia que o Vicente tinha mudado de casa? Será que as Fadas dos Dentes vêm até Bruxelas?

 

Tantas perguntas que vieram à sua cabeça naquele momento e a expectactivas ainda maiores com que se foi deitar. Todavia, quando cai um dente a uma criança, a Fada dos Dentes que aparece e que é para todos. E, em todo caso, tendo apanhado esta mãe desprevenida, até foi bem generosa – era o que havia na carteira da mãe, sorte do rapaz – deixou-lhe um envelope com o seu nome, para não haver enganos, com a surpresa.

 

Entretanto, já lhe expliquei que o primeiro dente que cai é especial e, por isso, a Fada tinha sido tão generosa. Assim como assim, era bom manter as coisas realistas! 😊

 

E com tudo isto, tenho a impressão que hoje até andou mais bem-disposto e feliz por aqui. Cheio de confiança como quem tinha ascendido a um patamar mais acima de si mesmo, se é que me entendem.

fada dos dentes

 

E, por aí, têm histórias engraçadas sobre a queda dos primeiros dentes?

 

Boa noite.

 

Envolver as crianças no processo de mudança: Sim ou Não?

03.07.19 | Vera Dias Pinheiro

emigrar com crianças bruxelas

 

A ideia inicial era manter o Vicente a Laura longe do processo da mudança, portanto, mantê-los o mais longe possível da confusão, quer na casa antiga, quer na nova. Pois, embora a nossa decisão tenha sido sempre a de manter o diálogo aberto com eles sobre esta mudança na vida de todos, a cabecinha deles não arruma as coisas da mesma forma que a nossa e vamo-nos apercebendo disso com o passar do tempo.

 

A casa que era a deles, deixar de ser, as coisas que vão progressivamente desaparecendo do lugar, porque vão sendo empacotadas. Compreender que as coisas deles não vão desaparecer e que há toda uma logística um bocadinho mais complexa associada a esta mudança. Adaptar-nos a viver com o mínimo possível e sem a arrumação e o conforto ao qual eles sempre estiveram habituados.

 

E eu fui tomando consciência de que talvez a decisão de os ter connosco nesta fase, tivesse sido apenas pelo conforto emocional de os ter por perto, porém, as perguntas e as dúvidas e a sensação de ir embora, tornaram tudo muito difícil no final.

 

Eles perguntam tudo, reclamam mais a nossa companhia e atenção e nós, estamos desdobramo-nos em mil para dar conta do recado e do que é fechar um capítulo numa cidade e num país e abrir um novo num outro local completamente diferente.

 

Esperamos - egoisticamente - que eles tenham alguma capacidade de auto-gestão, o que acarreta consigo um grande sentimento de culpa e deixa-nos completamente divididos. O que, por sua vez, também é uma janela aberta para que pensamentos menos positivos assombrem as nossas decisões. Enfim…

 

Na cabeça do Vicente e da Laura está claro que temos uma casa nova e que essa casa é em Bruxelas. Contudo - e o Vicente agora já não tanto - não têm consciência do que isso implica na prática. Por exemplo, porque é que a avó não vem a nossa casa ou porque é que não estão a ir à escola. Isto na Laura.

 

Com o Vicente, as coisas já mudam de figura e a saudade é algo que ele sente muito. Fazem-lhe falta os amigos e a consciência de que vai ter uma escola cá e de que não irá a Lisboa com regularidade, é algo que ainda é preciso arrumar melhor naquela cabecinha.

Numa primeira fase, achava que tudo isto era apenas umas férias longas, depois encaixou o facto de viver aqui e das consequências. E aí, as lágrimas saem-lhe com facilidade – ou não fosse ele, filho da sua mãezinha.

 

A forma que encontramos para colmatar isso, foi mostrar-lhe que não estará sozinho por cá e começamos logo a marcar encontros com os nossos amigos com filhos, os meninos dos quais já lhe tínhamos falado muitas vezes. Intregra-se facilmente e é verdade quando dizem que um miúdo com uma bola de futebol, nunca estará sozinha. Portanto, ainda bem que ele adora futebol.

 

Porém, uma instalação é um processo longo e profundo. É preciso meter as coisas no lugar, arrumar, limpar, desencaixotar, lavar roupa, ir ao supermercado… muitas tarefas que, para eles, são apenas uma seca!

E daí ,também, a minha pressa em arrumar tudo o mais rápido possível. Essa ordem, que nós adultos aceitamos que possa levar algum tempo, para eles é essencial. É importante que eles percebam que a casa deles está igual e que as coisas deles não desapareceram – apenas fizeram uma longa viagem dentro de um camião.

 

 E eu guardo para mim as inseguranças para lhes passar a eles a segurança de que está tudo bem. Arrumo as coisas depois deles se deitarem para que, durante o dia, haja tempo de qualidade com eles. Porque o tempo possível para que eles aguentassem a mudança já passou. Agora é preciso dar-lhes a tranquilidade de um lar, mostrar-lhes que terão as mesmas rotinas, um parque para brincar, os passeios em família e tudo resto. Temos também que ajudá-los a ultrapassar a estranheza da língua. Como? Relativizando e falando sempre francês na rua, explicando o que nos dizem e o que nos respondemos. Repetimos com eles as palavras básicas, às quais eles até se acostumaram com facilidade.

 

Sinto-os à procura do seu lugar, cada um deles, mas eu também estou à procura do meu, na verdade. Não se carrega num botão e, pronto, já está. Levamos tempo a mudar o chip e tornar as coisas mais banais do dia-a-dia normais neste novo contexto.

O tempo tudo traz tanto aqui, como aliás, em tudo o resto na nossa vida. É um cliché, é verdade, mas daqueles bem verdadeiros!

 

 

Voltei a sentir-me em casa e tudo o resto se encaixou!

01.07.19 | Vera Dias Pinheiro

emigrar com crianças bruxelas

 

Os últimos dias têm sido longos e bastante exaustivos. A última vez que vos escrevi ainda não estávamos em nossa casa e ainda não tinha chegado a transportadora com as nossas coisas. Entretanto, quando chegaram, emergimos (de novo) no caos e na confusão e o meu foco era livrar-me logo das caixas. O segundo (foco) era ter as coisas no seu devido lugar e o terceiro, ter a casa limpa e arrumada para conseguirmos sentir alguma tranquilidade.

 

O pequeno detalhe é que eu queria fazer estas três coisinhas logo no primeiro dia… Quem me conhece sabe que eu não sou a pessoa de ir fazendo e a verdade é que as minhas costas ficaram (também) logo todas afanadas. E, no total, foram três dias sem ver mais nada à frente, mas ao terceiro dia, à tardinha, consegui finalmente desfrutar de um banho como (acho) já não tomava há semanas…

 

A casa para mim é muito importante. Gosto de passar tempo em casa e, por isso, é importante sentir-me bem na minha casa e no meu espaço. Como tal, o processo de escolha de casa em Bruxelas foi difícil. Por um lado, desgastante fisicamente, porque passamos literalmente os dias com visitas as casas, muitas casas, e foi mesmo aquela experiência de chegar a ter 7 visitas agendadas no mesmo dia - portanto, imaginem! Por outro, em Bruxelas, as casas têm tipologias um pouco estranhas e, em particular com as casas de banho, podemos ter experiências bastante bizarras. Por exemplo, é possível encontrar uma sanita no meio da sala ou um lavatório nos quartos. Isto é assim o mais “fora” comparativamente com Portugal. Porque, depois, tal como aí, vemos de tudo e, à medida que vamos sentindo a pressão de ter que encontrar uma casa, começamos a ficar um pouco desesperados.

 

E, embora Bruxelas não seja desconhecida para nós, neste momento, existem os factores a ter em consideração: a localização do trabalho do pai e de duas escolas diferentes, a conveniência de serviços e comércio por perto, a própria casa em si e até que ponto estaríamos preparados para abdicar de algum destes factores em detrimento de outros. E, tendo que ser feito, o que seria mais importante?

Para mim, o mais importante era, sem dúvida, estar perto da escola da Laura. O meu marido estava mais focado na casa em si, para que fosse “perfeita” para os miúdos e, no caso, procurávamos algo com um pequeno jardim.

 

No entanto, saberão tão bem quanto eu, que é muito difícil, para não dizer impossível, ter o match perfeito entre todos os elementos importantes para nós. Como tal, tanto eu, como o meu marido tivemos que redefinir as nossas prioridades.

 

Sendo que, tivemos um pequeno obstáculo “extra” que foi o ter que matricular a Laura na escola em março, numa altura em que era ainda muito cedo para procurar casa. E aí acabamos, ainda que involuntariamente, por restringir a nossa área de procura face à localização dessa escola. O que acabou por dificultar ainda mais as coisas.

 

Demos por nós, sentados num café, a rever em voz alta a ordem de prioridades dos factores, a fazer contas às distâncias e às casas e aquilo que estávamos dispostos a abdicar. Nunca tinha passado por nada igual, talvez porque nunca me deparei com a situação de ter que escolher uma casa com esta “obrigatoriedade”.

Senti-me num daqueles episódios, que eu adoro, das séries que passam na Sic Mulher, ao género Proprety Brothers.

 

(Volto a referir) A casa é muito importante para uma família, temos que nos sentir bem, temos que conseguir transformá-la no nosso lar. A cada casa que entrávamos, fazíamos o exercício mental de nos imaginar ali e às nossas coisas. Porém, e como em tudo na vida, nós sentimos quando é a tal e quando isso acontece, deixamos de lado um pouco aquela tal lista de prioridades, porque sabemos que vamos dar um jeito para ajustar tudo e porque o mais importante é essa sensação de que entramos na “nossa casa” mesmo sem ser ainda. E foi assim que aconteceu.

 

Neste momento, já estamos mais do que instalados, sobraram duas caixas que ainda não foram desfeitas, outras pequenas coisas que ainda estão à procura do seu lugar. Mas já nos sentimos completamente em casa, nós e sobretudo o Vicente e a Laura.

A partir de agora, acredito que só irá melhorar!

 

Entretanto, um pequeno disclaimer:

Desculpem a ausência por aqui nos últimos dias, mas o meu foco estava a 200% na nossa instalação, especialmente, por querer muito que os miúdos voltassem a sentir-se em casa, numa casa deles, e que esquecessem toda a fase de caixas, de andarmos aqui e ali… e o quarto deles foi a primeira coisa que tratei.

Mães entenderão 😉

 

Boa noite.  

 

emigrar com crianças bruxelas

 

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