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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

Sobre sentir que realmente pertencemos a um lugar

30.07.19 | Vera Dias Pinheiro

santarém

 

Para quem tem acompanhado o blog e o Instagram, sabe que não estou a passar férias com a restante família, como planeado, e sabe também que o cancro bateu à nossa porta e exigiu que tudo o resto ficassem em stand-by. É uma doença feroz, rápida e implacável e, infelizmente, com toda a evolução da medicina, ainda não perdeu o peso (e o medo) que recai sobre o doente e a sua família.

 

O cancro é uma doença de todos e, por isso, a minha decisão foi ficar junto de quem precisa de mim neste momento. E isso faz com que eu esteja a passar uma estadia prolongada em Santarém, a mais longa dos últimos anos, na verdade. Porém, tirando os motivos menos felizes, estar aqui faz-me sentir segura e protegida. Sinto-me em casa, onde eu realmente pertenço e onde, das últimas vezes, me ponha a imaginar como seria regressar e viver aqui.

 

Gosto de andar pelas ruas da cidade, passar pelo Largo do Seminário, pelo Liceu Sá da Bandeira e, claro, as Portas do Sol, de parar na Bijou para tomar um café (ou comer o pampilho...) ou, simplesmente, ficar pelo bairro fazer as rotinas com a minha mãe, como ir à mercearia, parar no café da nossa rua e ouvir sempre, de cada vez que venho cá, os inúmeros elogios das amigas dela. Afinal, é a “Verinha” – a mesma Verinha de sempre - que foi para Lisboa e que a partir daí raramente passaram a ver. Porém, quando me encontram fazem uma festa e demonstram um afecto genuíno. Gosto disso e da sensação do tempo que abranda, um tempo que hoje em dia sinto que é tão pouco para conseguir agarrar uma vida.

 

Voltar a Santarém é, no fundo, voltar a casa e essa sensação é única e especial. Aqui tenho a casa que tem a minha história, a história de quem eu sou, tal como eu espero que os meus filhos sintam com a casa onde eles vivem. Ainda assim, hoje em dia somos muito mais “saltitões”. Mudamos de casa com mais facilidade e de cidade. Por isso, às vezes, penso se os meus filhos terão esse mesmo sentimento de pertença com Lisboa ou Bruxelas – nem sei bem - como eu tenho com Santarém.

 

Talvez haja um momento na nossa vida em que tal como cheiramos os nossos filhos desde que nascem, naquela necessidade quase primária de progenitora, há um momento em que tudo aquilo que precisamos é de o fazer com os nossos pais. Sentir o seu cheiro, deitar-nos ao seu lado na cama, passar tempo só por que sim, dar a mão, dizer o quanto gostamos e reconhecer o trabalho imenso que eles tiveram durante uma vida para nos educar e fazer de nós a pessoa que somos hoje. Há um momento em que a única coisa que sobressai é o amor incondicional e isso é transformador e faz com que nada mais importe. O amor incondicional basta-nos, torna-nos fortes e inabaláveis.

 

Precisava voltar a casa também para isso, para encontrar essa força, para me encontrar comigo mesma e saber quem eu sou. Precisava porque a vida exige de nós essa força e que apenas encontramos quando regressamos às nossas origens, porque a força que precisamos tem que vir do mais profundo de nós próprios.  

 

Neste sentido e tendo vindo eu preparada com tudo aquilo que precisava para trabalhar e ser produtiva, aquilo que não consegui ser no último mês, eu senti que precisa deste tempo e preciso ainda, mas escrever é uma espécie de catarse e há coisas que eu preciso exprimir numa espécie de terapia. Porque de repente, percebi que o “slowliving” que tanto apregoamos, é já demasiado rápido para mim. Preciso de viver cada fracção de segundo do hoje, do momento presente.

Nunca tive tanto medo do amanhã como agora. Nunca senti tanta incerteza como agora. Nunca senti que passamos a vida a desperdiçar a própria vida como agora. Entendem?

 

Passamos uma vida a criticar este mundo e o outro. Passamos uma vida à procura de problemas onde eles não existem e, depois, literalmente de um momento para o outro, percebemos que, afinal, tudo pode mudar e que aquilo que precisamos para sobreviver e ser felizes é mesmo invisível aos olhos. Portanto, se quer prolongar o tempo, é fundamental gostar de si e cuidar de si, como também ter amor ao próximo nas mais pequenas coisas.

 

Gostar de si é, acima de tudo, saber como é importante ter cuidado com a sua alimentação e como ser activa são coisas fundamentais para prevenir doentes (muitas delas, muito graves), assim como, combate-las. Nunca é tarde para recomeçar e ser melhor consigo mesma e se não for por si, que seja pela vontade que tem em estar perto dos que ama muitos e muitos anos. 

 

E, para além disso, dê mais do seu tempo aqueles de quem gosta, em vez de mitigar esse tempo com chatices que não importam nada. É aprender a pôr para trás das costas coisas das quais não gostamos e engolir uns quantos sapos. É desinibir-se e dizer mais vezes “gosto de ti”, “amo-te”, abraçar e beijar sem motivo.

 

O tempo não volta atrás, isso é certo, o presente e rápido e o amanhã está completamente fora do nosso alcance. Tenho aprendido a aceitar os obstáculos da vida com uma serenidade que me esforço por ter. Acredito no propósito de que nada acontece por acaso e que Deus sabe o que faz. 

 

O presente que vivo é intenso e doloroso, é verdade, porém, há um amor que me enche o coração e que acontece o que acontecer, vai estar sempre comigo.  

 

Quando o Cancro Bate À Nossa Porta... | Testemunhos Reais #3

25.07.19 | Vera Dias Pinheiro

quando o cancro bate à nossa porta

 

Quando o cancro nos bate à porta, não é apenas o doente que sente a vida a fugir-lhe mesmo diante dos seus olhos. A família, que o apoia, sente imediatamente a vida em suspenso, numa angústia súbita e inexplicável. O medo e, ao mesmo tempo, alguma incredibilidade pela notícia que está a receber.

 

É que desta vez não se trata apenas de mais uma notícia de alguém que conhecemos que tem cancro. Desta vez é connosco, é a nós que o coração gela e o medo… o medo… nos assombra no primeiro instante em que ouvimos a palavra cancro, medo esse que não nos larga mais.

Basicamente, é a sensação de estar a viver um pesadelo, contudo um pesadelo que não termina quando nos levantamos de manhã.

A verdade é que não sei como será suposto viver a partir daqui. Não sei que prazer conseguirei tirar da vida quando alguém que amamos – e que representa o mundo para mim - tem cancro.

 

Diria que 99% das pessoas, logo eu e muitos de vocês, é sempre um bocadinho egoísta por achar (ingenuamente) que só acontece aos outros. É verdade que sentimos o respeito, a compaixão e solidariedade por quem trava essa batalha. Contudo, é quando acontece connosco que percebemos que sabíamos tão pouco (e ainda bem) do peso que esta doença representa para o doente e para a sua família. É quando passamos para o outro lado que percebemos que os sentimentos que se apoderam de nós são impossíveis sequer de imaginar e muito difíceis de digerir.

Posso dizer que fiquei lívida quando recebi a notícia e que a minha garganta passou a ficar sempre mais seca da angústia e completamente preenchida por um nó. E é aí que eu volto a colocar a pergunta: como é suposto viver a partir deste momento? Como?

 

Parte de mim é a dor que sinto, como se eu própria me sentisse também doente, não sei explicar de outra forma. Outra parte de mim, é a vontade de querer dar colo, dar a mão para só voltar a largar quando o tal nó se desapertar e conseguirmos voltar a respirar novamente. E ainda outra parte de mim é uma força, que mesmo que não exista, tem que fazer parecer que existe, tem que passar essa mensagem ao nosso cérebro e que tem que dominar os nossos pensamentos e as nossas palavras.

Se há coisa na qual eu acredito mesmo é que a cura desta doença se faz com a confiança nos médicos e nos tratamentos que fazem parte do protocolo, mas também (muito) da atitude do doente perante a mesma, da sua fé e da sua crença de que vai ser capaz de vencer!

 

E, pela minha experiência até aqui, há uma vida antes e depois do cancro/da notícia. Sinto-me petrificada pelo medo, mas não posso! Sinto-me que tudo aquilo que posso fazer é pouco, mas não posso! Sinto-me que dava pouco valor ao sentido da vida, porque é inevitável e, por isso, cada segundo do nosso dia passa a valer muito mais.

 

Os abraços são demorados, as conversas mais longas, as brincadeiras mais frequentes, repetir o quanto gostamos dessa pessoa de forma incansável e, no fundo, agarrar a vida com todas as forças que temos, as mesmas que usamos para afastar o medo e todos os pensamentos maus.

 

E, pese embora, toda esta carga negativa que se abateu sobre nós e do medo real que tenho desta doença, sou daquelas que acredita também no seu poder transformador e na forma como pode representar um renascimento para o doente, assim como, daqueles que privam de perto, que acompanham e cuidam do doente de cancro.

 

A partir daquele momento, deixei de fazer mais planos, como tal, não me perguntam o que faço amanhã ou depois de amanhã. A partir daquele momento, agradeço todos os dias pelo facto de estar viva e com saúde – o simples facto de respirar é suficiente - por poder abraçar os meus filhos. Fazer planos para a vida parece-me demasiado egoísta neste momento…

 

Ouvi de uma doente oncológica por estes dias que vencer o cancro é só para os teimosos e eu acredito ter uma teimosa em casa, por isso vou lembrá-la todos os dias disso mesmo!

 

A todos aqueles que privam de perto com esta doença, muita força e sejam teimosos! Muitos teimosos! 

 

 

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"Cancro: A mãe está doente!" | Testemunhos Reais #2

 

Férias de verão um pouco diferentes do planeado!

23.07.19 | Vera Dias Pinheiro

férias de verão

 

Se não estou enganada faz hoje um mês que chegamos a Bruxelas. A nossa ideia quando pensamos nesta mudança foi tentar fazer tudo de forma suave com os miúdos. Não queríamos mudanças drásticas para eles, do género chegar um dia e logo a seguir irem para a escola.

 

Portanto, como o meu marido começava a trabalha dia 1 de julho, decidimos vir logo os quatro nessa altura. Viríamos já definitivamente, apenas com uma pequena interrupção para a (já) habitual semana de férias no algarve. Aliás, uma semana muito desejada por mim, porque iria significar algum descanso – o descanso relativo quando se tem filhos – em que eu não iria preocupar-me com logística das refeições e das arrumações.  

 

Como tal, até aqui, estive a organizar a casa, coisa que leva o seu tempo, assentar rotinas, fazer o reconhecimento do nosso bairro e da cidade. Sem pressas e sem grandes coisas. Tentei, ao máximo, criar as rotinas normais para que eles se fossem ambientando. Descobrimos os parques mais próximos de casa, os supermercados, habituamo-nos aos transportes públicos para passeios um pouco mais longe, eu dei as minhas primeiras voltas de carro para não criar qualquer tipo de fobia ou medo em conduzir nesta cidade onde os condutores são por norma bastante agressivos. Enfim… não houve passeios fora de Bruxelas nem grandes programas culturais. Mas tivemos sorte: apanhamos a partida do Grand Tour de França e as festividades do Dia Nacional da Bélgica c’est pas mal!

 

E, aos poucos, tanto o Vicente como a Laura foram aderindo e respondendo à nova realidade e hábitos. Entretanto, conseguimos (finalmente) ter televisão em casa, francesa, e tem ajudado muito na familiaridade com a língua e noto isso sobretudo na Laura que é mais nova e ainda não tem a “vergonha” que o Vicente já tem com seis anos. Nestas semanas tivemos tempo igualmente para encontrar amigos de cá com filhos, crianças que vão encontrar-se também na mesma escola.

Neste sentido, posso dizer que estamos instalados e que já nos sentimos em casa. Agora é tempo de visitar Portugal, numa breve estadia, para as férias e umas visitas rápidas a alguns amigos e familiares.

 

Contudo, pelo meio, há grande margem para o inesperado e, afinal, dos quatro, três seguem para o Algarve e uma pessoa ficará um pouco mais a norte. O planeado teve que ser alterado por decisões maiores que qualquer necessidade de uns dias de descanso, sol, praia e amigos. Fico de coração dividido, mas com a certeza de que é o certo a fazer. Explicar-lhes não foi fácil, mas eles compreenderam e já estão mentalizados que a mãe só irá dar uns mergulhos na sua imaginação e “descansar” com as fotografias e vídeos que prometem enviar-me todos os dias.

 

No meu coração reina uma estranha serenidade. Pelo menos, uma tranquilidade que se sobrepõe a todos os outros sentimentos ou o suficiente para que não me sinta demasiado inquieta. Ainda assim, é possível que evite as redes sociais para não levar com as vossas fotografias na praia, em fato de banho, em jantares, em piscinas, etc… Uma pessoa aguenta, mas não precisa estar a ser lembrada disso constantemente!

 

No fundo, sinto que a minha vida se resume a uma grande missão de cuidar de alguém. Às vezes, ainda há algo em mim que tenta revoltar-se contra isso, porque basicamente assumem que estou sempre na boa nesta “missão”. Mas não estou sempre na boa, às vezes, sinto-me a faltar o ar e com falta de espaço para mim. Todavia, a idade trouxe-me a tal serenidade e a confiança de que “deixar ir e seguir a corrente” é o certo e que se eu aceitar, a vida encarrega-se de me trazer de volta tudo aquilo de que hoje sinto falta. Não é da forma ideal? Não, isso não é.

Bom, depois, se tudo correr normalmente, regressamos para a segunda parte desta mudança. Desta vez, esperam-se mais passeios pela Bélgica e arredores e, claro, a preparação para o próximo ano lectivo.

 

E agora, vou rapidamente terminar as malas porque o avião não espera, certo?

Beijinhos a todos.

 

Doses of calm : Não devemos lutar contra os factos!

18.07.19 | Vera Dias Pinheiro

doses of calm

 

Não vou ao ginásio há mais de um mês, como também já não faço as minhas massagens drenantes. E ainda que a nossa casa tenha escadas, o meu exercício diário tem sido basicamente correr atrás do Vicente e da Laura e correr atrás dos pedidos e das necessidades e das tarefas domésticas.

 

Neste sentido e só para que tenham uma pequena ideia do estado da pessoa, ontem acabei de arrumar a cozinha do jantar com a sensação de, muito em breve, já ali estava de novo para preparar o pequeno-almoço. Realmente, é essa a sensação que tenho: de dormir depressinha entre uma tarefa e outra.

 

Portanto, a massa muscular que tanta luta me deu para ganhar, já se foi há muito e os glúteos já disseram adeus assim como a tonificação da barriga que, como se não bastasse, ainda teve direito a uma episiotomia. Tudo certo!

 

Há dois dias que, entre brincadeiras “parvas” (não têm outro nome) típicas de crianças e na picardia entre eles, a Laura acaba por fazer xixi no chão, ora do quarto ora das escadas. Da mesma forma que, em dois dias e devido às mesmas brincadeiras “parvas”, os meus dois filhos já caíram das escadas. Imaginem o susto!

 

Para além disso, em todos os espaços da casa conseguem ter brinquedos espalhados, mas o pior mesmo nem é isso. O pior mesmo é encontrar, em cada cesto ou mala ou caixa, mais não sei quantos bonecos, peças de lego, carros e outras coisas, como se os brinquedos sofressem do milagre da multiplicação.

 

Consegui, nestas poucas semanas, encontrar quem me ajude com a limpeza da casa e com o passar a ferro, ainda assim já perdi a conta às refeições, aos lanches e às idas ao supermercado que faço todas as semanas para alimentar “apenas” duas crianças pequenas.

 

A parte disso, a roupa que, numa família de quatro, mais parece haver roupa de 20. Entre as nódoas da sopa e das tintas das canetas, e das quedas na rua e das brincadeiras no parque, são pilhas de roupa para lavar, secar, dobrar e arrumar – e eu não passo a roupa, disse eu logo no início.

 

Também não limpo a casa – como já disse - mas já perdi a contas às vezes que varri e apanhei migalhas do chão, que arrumo e desarrumo a máquina da loiça, que faço camas e apanho coisas várias espalhadas e não me posso esquecer de regar as plantas.

 

Entretanto, é nestas alturas que penso, sorte a dos peixinhos que foram adoptados, pois eu não sei como seria encaixar um animal de estimação a exigir também ele cuidados nesta fase.

 

Já nesta correria, não me posso esquecer de que tenho duas crianças de férias e, como tal, aumenta-se o ritmo dessa correria para conseguir encaixar as saídas e os programas para eles sem esquecer o lanche, a água, os chapéus e negociar a quantidade absurda de brinquedos que a Laura quer levar sempre para a rua, o carrinho do bebé (dela), a trotinete e o carrinho dela mesmo porque daí a segundos já está a dizer que está cansada.

E mesmo assim, inevitavelmente, acabo sempre por ter que a carregar a ela e às coisas dela.

 

Entre os bocadinhos de tempo que mal sobram tento encaixar o trabalho, mas com a sensação (nada boa) de que estou a deixar muita coisa para traz e não quero e nem posso. Mas lá se escolhem umas actividades para eles por perto de mim e eu lá vou tentando eliminar algum item da minha lista (já longa) de coisas para fazer.

 

Estamos a dias de visitar Portugal e passar por lá alguns dias de férias e eu ainda nem consegui ter a roupa toda em dia da mudança. Enquanto isso, eu já estou a pensar nas malas para fazer.

 

E neste rol já longo de lamúrias do dia-a-dia, desculpem lá, mas essa coisa de que nós não nos podemos queixar não faz grande sentido, porque a alternativa é passarmos todos a fingir que temos as vidas perfeitas. Mas como ia eu a dizer, tive que, pela primeira vez, tomar uma decisão importante e por isso irei fazer uma paragem para dar apoio a alguém muito importante que precisa muito de apoio numa fase difícil. Ou seja, vou ter que abdicar das minhas férias de verão e eles vão com o pai. É o que tem que ser feito!

 

Ainda não fui à praia este ano e não vejo isso a acontecer tão cedo. Estou pálida, magra e com cabelos brancos. Felizmente tive tempo de fazer o botox e das rugas não me posso queixar, mas bolas... se é isto a vida adulta, eu voltava bem para o útero da minha mãe e ficava por lá uns tempos até me recompor.

 

Aquilo que vejo à minha frente é um turbilhão de coisas a acontecer, algumas eu simplesmente não controlo, e eu a escalar para não ficar para trás, aliás, para ficar à frente porque é aí que eu preciso estar.

 

E nisto, passa-se o mês de agosto num instante e em setembro temos o choque (novamente) do regresso à escola: tudo novo, amigos, espaço e língua.

 

Respiro fundo e deixo ir, não há hipótese!

 

Dão-se bem ou são irmãos? A cumplicidade fruto do tempo juntos

16.07.19 | Vera Dias Pinheiro

dão-se bem ou são irmãos

 

Há muito tempo que não voltava a esta rubrica. E, a verdade é que, nada de anormal se passa entre os irmãos, em que basicamente se resume a: tudo ou nada! Ora são os melhores amigos ora são os melhores inimigos.

Contudo, a relação entre irmãos é uma relação como tantas outras. É preciso trabalhar essa relação, aprender a conhecer o outro, os defeitos e as qualidades e para tudo isso é preciso tempo! Tempo de qualidade entre os dois. E se até aqui, vivíamos na rotina – se bem que privilegiados pelo tempo que têm em casa e em família para além da escola - era nas férias e durante os fins-de-semana que aprendiam a brincar um com o outro, que aprendiam a resolver os conflitos, a ceder, a partilhar e também a vincar uma posição quando é preciso afirmar-se, nomeadamente quando têm razão (é mais o Vicentinho, que a Laura tem afirmação que chegue e sobre para ela e mais dez).

 

Portanto, como mãe, a minha postura é um pouco a de ficar na retaguarda e quando decido intervir tento fazê-lo num papel de moderadora, na esperança que, cada um, veja o que está certo e o que está errado para que, no final, resolvam os problemas entre eles. Porque é preciso saber pedir desculpa ou explicar porque estamos aborrecidos ou porque queremos uma coisa de uma determinada maneira.

 

E se para os adultos isto é complicado, praticamente impossível, nas crianças este trabalho é mágico porque resulta e elas têm uma capacidade de perdoar e de esquecer incrível que acontece em segundos. E, nesta matéria, deveriam ser as crianças o exemplo para os adultos e, infelizmente, por vezes, o exemplo que lhes é passado é precisamente o oposto.

 

Entretanto, este processo de mudança tem sido uma aprendizagem grande para o Vicente e para a Laura que estão a amadurecer de uma maneira incrível, cada um individualmente e muito em conjunto. E se eu já sabia que não queria um filho único, hoje digo-vos que não hesitem no segundo filho. É uma dádiva o que lhe estamos a dar.

 

Nestes dias, estranhos para eles, com pessoas que lhes falam e eles pouco ou nada percebem (ainda), as saudades misturadas com as novidades, eles têm-se apoiado muito um no outro. E existe até uma linguagem muito própria entre eles e, no caso do Vicente, é como o tradutor da linguagem dos adultos (nossa, em particular) para a irmã. É com ele que ela se acalma e, muitas vezes, é o elemento crucial para se acabar com uma birra.

 

Talvez seja uma grande sorte, porque o Vicente tem o skill para ser irmão mais velho, se bem que nunca quis passar para ele aquela pressão de ter que cuidar da irmã, por ser o mais velho. É uma criança e cuidar de alguém é somente uma responsabilidade demasiado grande. Dizemos na brincadeira, mas na cabeça dele é tudo processado de uma outra forma.

 

Estamos em Bruxelas há três semanas. Eles estão em casa comigo, porque é demasiado cedo para inscrevê-los em actividades de férias. Se a língua é algo que, para a Laura, se mostra pouco importante, com o Vicente já é diferente e existe nele, de facto, a preocupação de não compreender o que lhe dizem.

 

Como tal, os dias são passados a três 24 horas, todos os dias, e eu tenho que me desdobrar em mil, entre as tarefas de casa, o meu trabalho e eles. Ao passo que o Vicente e a Laura só querem brincar e entreter-se. Normal, não é? Mas seria mais triste para o Vicente senão tivesse a irmã e, ao mesmo tempo, ainda mais exigente para mim. Pois se, por um lado, eles chamam por mim a toda a hora, por outro entretém-se a brincar apenas dois também muito tempo numa relação que tem evoluído bastante em termos de comportamento e de cumplicidade um com o outro.

Por exemplo, as brigas e as chatices acontecem, todavia, noto uma melhoria na forma como resolvem entre eles e a forma como se explicam. A Laura, especialmente, está muito mais amiga do irmão, cedendo mais e pedindo mais vezes desculpas. E o Vicente, por sua vez, está a aprender a não fazer as vontades todas à irmã e, quando se aborrece, já se controla muito mais fisicamente.

 

Isso não invalida a minha presença - tomara eu eheheh para conseguir ter um tempinho para mim - mas consigo estar um pouco mais liberta do peso de estar constantemente a brincar com eles, a pensar em actividades e etc…  Ou acabaria por ter que recorrer a bengalas tecnológicas para o conseguir.

 

Neste sentido, por cada vez que os vejo a brincar no parque e a Laura que já acompanha tão bem o irmão em brincadeiras “mais crescidas” agradeço por este par de filhos queridos. Por cada vez, como agora, em que tiro uns minutos para acabar de escrever este texto e, ao mesmo tempo, ouço os diálogos entre eles enquanto brincam, agradeço este par de filhos queridos.

 

O Vicente e a Laura têm sido o grande apoio um do outro nesta aventura e, a par com as saudades que apertam, sinto-os bem e sinal disso é que, desde que dormem nesta casa, não houve uma noite em que viessem para a nossa cama, como aconteciam sempre em Lisboa.

parque ten bosch bruxelas

 

Ninho: Tudo a postos para o fim-de-semana!

12.07.19 | Vera Dias Pinheiro

reutilizar na decoração da casa

 

Quase pronto a nossa casa por aqui. Sem caixas, sem coisas espalhadas à espera de vaga nas arrumações ou de lugar. Tudo no sítio e o melhor de tudo é que não ouve devaneios em compras para a casa nova. Com as nossas coisas e um pouco de imaginação conseguimos dar vida aos espaços, o que antes estava numa divisão passou agora a estar noutra, mudam-se cores de fronhas de almofadas e disposição e, a verdade, é que parece tudo (quase) novo.

 

Temos alguns espaços vazios e alguns cantos da casa meio vazios e sinto até alguma tranquilidade com isso. Como se a energia fluísse e o ar circulasse. Gosto disso e não tenho pressa em enchê-los até porque é só preciso dar uns minutos aos miúdos por conta deles para que cada canto da casa tenha uma coisa deles por lá esquecida ou espalhada.

 

Portanto, percebemos que mudamos o nosso mind-set quando não destralhamos coisas para ganhar espaço para novas ou quando passamos a reinventar a decoração com coisas que temos e que embora não seja igual às das lojas de decoração, fazem o mesmo efeito. E, aliás, transmitem ainda mais personalidade e individualidade à vossa casa.

 

Reutilizar as embalagens de vidro das embalagens de salsichas, de grão, de feijão, etc… guardar as embalagens mais bonitas e resistentes e até mesmo as caixas em madeira, por exemplo, as de vinho ou semelhantes são coisas que faço há já algum tempo e se, naquele momento, não têm uso, garanto-vos que é o tipo de coisas que vale a pena guardar.

 

Por exemplo, por aqui 99% das casas de banho são separadas entre a parte de duche e a sanita. Portanto, em vez de uma casa de banho, têm duas e por aí a fora. E foi uma das coisas que mais baralhou os miúdos no início, pois não tomam banham na mesma divisão onde fazem o xixi 😊 mas isto para dizer que precisava, na mais pequena, de um móvel para colocar as toalhas, mas em vez de ir comprar novo, optei por coloquei duas caixas, uma em cima da outra – caixas deste género – com um cesto em cima.

Antes, estas caixas serviam para guardar brinquedos e estavam no escritório, agora umas estão na casa de banho e outras na cozinha.

 

É verdade que precisamos de estantes, porque a arrumação vertical é o melhor quando se qur preservar o espaço - e de uma secretária. Todavia optei por passar estas primeiras semanas apenas a arrumar e a desarrumar para voltar a arrumar de outra maneira a seguir e por aí em diante, até chegar ao resultado final. E mesmo que dê os meus passeios pelas lojas de decoração por aqui perto, aproveito para ver e imaginar e, por vezes, lembro-me que tenho lá em casa algo parecido que pode servir para o efeito que eu procuro e assim se acaba com a tentação da compra.

 

Nestas coisas, como em muitas outras, é preciso paciência e tempo e esqueçam as compras por impulso. Se o objectivo é não acumular e ter um estilo de vida mais simples e minimalista, então, optar pela teoria da substituição não é o ideal para si. Sendo assim, o meu conselho é que vejam o Pinterest, revistas de decoração, contas de Instagram, porque o que eu percebi ao fim de algum tempo é que até é “moda” utilizar o antigo, por contrapartida, aos bibelôs, que estão complemente off.

A decoração cá em casa é feita maioritariamente com molduras, jarras, quadros e telas que trouxemos de viagens assim como outros (poucos) objectos.

 

De resto, estamos a viver a fase do ninho, em que contamos os minutos para regressar mal saímos de casa. Casa é ninho e ninho é segurança, para além disso, se vivem num país e numa cidade em que chove muito, faz frio e neva, então, a casa é muito importante, porque é onde acabam por passar a maior parte do vosso tempo.

 

E foi precisamente essa a conclusão a que chegamos na nossa longa e exaustiva procura de casa em Bruxelas. De nada valia a localização perfeita, se a casa não é a casa onde nos sentíamos bem e confortáveis.

 

Bom fim-de-semana.

... quando me perguntam o porquê de mudar em prol da família?

11.07.19 | Vera Dias Pinheiro

parque ten bosch bruxelas

 

Cresci numa família onde nunca me faltou nada! Porém, desde sempre, percebi, tanto eu como a minha irmã, que isso implicava muito trabalho. E não era preciso muito, bastava ver as horas que o meu pai e a minha mãe dedicavam ao seu negócio e eu própria, para quem desde sempre foi normal ajudá-los em algumas tarefas nos períodos de férias da escola.

Como tal, o não faltar nada era tão somente a consequência desse trabalho e dessa entrega e das horas a mais que faziam todos os dias, fosse semana ou fins-de-semana.

 

Juntamente com isto, vinha uma série de outros valores que cresceram comigo e que, hoje em dia, são importantes para mim e na minha família. Por exemplo, as refeições eram sempre feitas à mesa, todos juntos sem televisão; os passeios eram em família; havia cumplicidade com os meus pais sem que isso colocasse o respeito pela autoridade de ambos e também a responsabilidade que ficava presente em nós.

 

E tudo isto para vos dizer que tudo aquilo que eu fui conquistando foi com muito trabalho da minha parte, às vezes, com trabalhos que gostava menos, que nada tinham a ver com a minha área – mas que olhando para trás, todos foram importantes para mim. De certa forma, preparou-me para saber arregaçar mangas sempre que é preciso e, por vezes, saber fazer omeletes sem ovos!

 

Contudo, também fui adolescente e jovem adulta e tive momentos da minha vida em foi muito revoltada contra as injustiças da vida. Não as aceitava, não tinha a capacidade de ultrapassar isso e seguir em frente. O foco era apenas o “eu não merecia isto”.

Amadureci, creio eu, entretanto! E percebi que saber aceitar as coisas más que nos acontecem tão bem como as outras é meio caminho andado para as resolver também.

 

E quando, há pouco mais de um mês, a pouquíssimas semanas de me mudar para Bruxelas, dei por mim a entrar num bloco operatório, não houve revolta ou desespero – só queria ir à festa de finalista do Vicente. Aceitei! Digeri, da melhor forma que pude, e segui em frente com aquele elemento novo na minha vida.

 

No final, tudo se fez e agora estamos onde era suposto estarmos e seria, a partida, uma espécie de “final feliz”. Todavia, a vida esta constantemente a dar-nos provações, mesmo que eu não sabia muito bem o que mais há que provar ou onde é suposto chegar ou mudar.

 

Eu não tenho essa vida pacata, não tenho! Acho até que vida tem uma forma meio estranha de me mostrar os caminhos ou de me orientar ou de me dar avisos. E a prova disso é que, quando menos esperamos e quando menos deveria acontecer, estamos outra vez sem chão à procura do sítio certo para nos agarrarmos.

 

Quando achamos que a nossa vida vai ter estabilidade e tranquilidade, essa confiança é abalada. E mesmo que a raiva seja o primeiro sentimento, de que adianta? De que adianta quando aquilo que é preciso fazer é precisamente o oposto?

 

É preciso arregaçar as mangas e lutar, lutar sem parar porque acreditamos que vai dar certo. Acreditamos que, pelo meio das tempestades de vida, há um final feliz para nós.

 

Não existem vidas perfeitas e nem a vida se resume as fotografias do Instagram. Há pessoas reais com problemas reais e preocupações e é nesses momentos que percebemos que não número de likes suficientes que te reconfortem nos problemas que realmente abalam a tua estrutura. E repenso, neste momento, até que ponto valerá mesmo a pena andar por aqui.

 

A parte mesmo incrível, foi aprender que o corpo humano é uma máquina incrível de superação dele mesmo, e de alguma forma sei que vou encontrar a armadura para esta batalha com tudo aquilo que é preciso para ir à luta. Agora sinto apenas a imensidão de dor e de injustiça, sinto o medo do desconhecido. Amanhã visto a armadura e vou à luta. E, pelo caminho, sei que as respostas vão surgindo de forma natural.

 

Portanto, no final, quando me perguntam o porquê de mudar em prol da família? Porque é tudo o que me resta, é nela que eu posso chorar sem parar, é nela que eu posso desabafar e é nela que eu vou buscar muita da minha força. É no amor da minha família que encontro a cura para as minhas feridas e no amor que dou à minha família que curo as feridas de todos os outros.

 

Escolho a minha família mil vezes, mesmo quando tudo se resumo a um imenso desconhecido, ao medo e à incerteza. Escolho a minha família independentemente dos defeitos de cada um, das brigas e dos desentendimentos. Escolho a minha família, porque no meio da minha “loucura” e vontade de voar, é ela a minha âncora.

 

 

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