Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

O Baptizado: desde a ideia à marcação do dia e o planeamento da cerimónia

20.03.19 | Vera Dias Pinheiro

baptizado

 

Este post não é sobre tendências ou moda para ocasiões especiais como esta. Se esperavam para os looks da moda ou as melhores lojas para roupas de baptizado ou os melhores caterings e afins, aviso já que chegarão ao final sem ter conseguido obter qualquer informação útil nesse sentido.

Porém, gostava de vos falar da nossa decisão, mais do que a minha crença e fé para com a religião católica, pois sinto-me num processo de reaproximação íntima com essa parte mais espiritual e para a qual ainda estou a trabalhar para encontrar as palavras certas para descrever, é a forma como olhamos para o baptizado como essencial na formação e desenvolvimento mais espiritual dos nossos filhos.

 

Mas, em contrapartida, tenho uma certa resistência em sentir-me obrigada a dar mais importância às festas do que aos momentos, ao acessório em vez do essencial e, por isso, fui esperando até sentir que era o momento. E esse momento chegou agora por vários motivos.

 

Uma mudança de vida, uma idade (de ambos) em que já se conseguem expressar e eu consigo expressar-lhes coisas com mais significado, sentir o baptismo como essencial na nossa vida e, claro, por sentirmos ter encontrado as pessoas certas para desempenharem o papel de madrinha e padrinho. E quando tudo se alinha no sentido que desejamos, resta-nos aceitar e seguir esse caminho.

 

Sem grandes comemorações, sem grandes dress code, sem grandes aparatos, sem demasiados ornamentos, mas com sentimento, com simplicidade e comunhão com a importância que este momento tem para nós e terá na vida deles.

 

E, como em tudo na minha/ nossa vida, nós decidimos e acontece como se fosse para ontem. Portanto, entre decidir e ter a data marcada foi um instante. Não consegui fazê-lo na data de aniversário da Laura, que era a nossa vontade inicial, pelo que teremos mais ocasiões para festejar e reunir os amigos.

 

A igreja escolhida acabou por ser a mesma onde o meu marido foi baptizado. O almoço será no local onde, tendo havido um casamento com comemoração, teríamos feito o nosso almoço. Os convidados são realmente as pessoas que fazem parte do nosso dia-a-dia – A Família – e claro que se faria sentido termos muitos mais amigos juntos de nós, mas aí, a logística seria toda uma outra e talvez fosse complicado fazê-lo dentro dos timings que nós queríamos.

 

Quem nos conhece sabe que somos assim, afinal, casei no registo, grávida de 39 semanas e sem convidados alguns. A quem não tivemos tempo de avisar antes do Vicente nascer, teve ali um momento em que achou que tivesse ficado de fora da nossa festa. E não, foi apenas a vontade de assinalar o nosso momento e adoraria ter tido A festa, O vestido e tudo mais, mas não era o momento. E há fases na nossa vida em que simplesmente não conseguimos, se bem que, no fundo e antes de qualquer coisa, temos que aprender a respeitar-nos a nós e às nossas vontades.

 

Idealmente, todos estes momentos seriam grandes festas, mas neste caso, eu garanto-vos que contraria alguém para se ocupar de todos os preparativos. Contudo, ainda que isso fosse possível, acho que acabaria por fazer tudo desta forma, meio apressada, meio em cima do joelho, mas que no fundo, não é nada assim. Sou movida pela paixão, pela emoção e pelo momento. Para além disso, há algo que tenho muito presente em mim, o esforço para não me desvincular do sentimento e da razão essencial que nos leva a fazer algo. Esforço-me por manter-me na simplicidade de quem somente dar valor ao mais importante e que não precisa de muita coisa para que esses momentos tão importantes sejam perfeitos.

 

Ainda assim e porque eu sou uma privilegiada por ter pessoas especiais e atentas à minha volta, conto com uma equipa de amigas que pertencem ao clube do "fazer acontecer" e que, para além de atentas, colocam o melhor delas nos mais pequenos gestos. E isso, sem dúvida, é a razão para que tudo seja perfeito à nossa maneira.

Portanto, passo às apresentações, pois, com excepção das madrinhas, as restantes aceitam pedidos de fora e são experts em salvar situações de emergência:

  1. Velas e Toalhas com as madrinhas;
  2. Concepção das pagelas e do livro com as leituras da cerimónia com a Catarina Ruivo da Detalhes by Cat;
  3. Registo fotográfico no dia com a “the one and only” Sofia Baptista, da Lovetography;
  4. As roupas e sapatos vieram directamente do El Corte Inglês, da secção roupa de criança que não  a secção das “crianças vestidas com roupa formal típica de baptizado para baptizados";
  5. Marcação do almoço e escolha do menu foi entre os pais e os padrinhos;
  6. O bolo obviamente que está nas mãos da Sandra da Entrebolos;
  7. Por fim e não menos importante: o meu vestido. Este veio de Bruxelas, para parecer chique, já que eu não perco uma oportunidade de fazer uma visitinha à and other stories. É que eu faço sempre uma mini poupança para poder fazer uma vista a esta loja sempre que há oportunidade (sorry not sorry!).

 

E com esta pequena equipa de grandes amigos e ajudantes, tenho a certeza que será um baptizado lindo e, acima de tudo, que irá reflectir quem realmente somos, nós e eles… os protagonistas do dia!

Já falta muito pouco e, claro, a seguir, partilharei um pouco deste dia com vocês!

Por onde tenho andado e a fazer o quê, quando o tempo é pouco!

18.03.19 | Vera Dias Pinheiro

bruxelas

 

No sábado, comecei por tomar o pequeno-almoço ainda em Bruxelas num dos meus sítios favoritos de sempre, Le Pain Quotidien. O primeiro local onde o meu marido me levou na primeira vez que o visitei, um local que se tornou um hábito durante o tempo em que lá vive e que agora, passado tanto tempo, ainda está melhor! Cheio de variedades saudáveis, Bio e orgânicas, mantendo, claro, todas as outras gourmandise que adoramos que nos fazem salivar e às quais é difícil resistir.

 

Apanhamos o avião de regresso a casa, já com muita ansiedade, lá e cá. Eles já não percebiam porque é que os pais demoravam tanto tempo e nós, ou melhor eu, pois estou menos habituada a estas coisas, sentia-me verdadeiramente incompleta e uma parte de mim, não conseguiu aproveitar. Talvez porque também não íamos propriamente de férias.

Quando chegamos, aqueles primeiros minutos são intensos, os abraços são fortes, os beijos intermináveis e os mimos de uma doçura sem igual. Porra! Os filhos são mesmo parte de nós e nós deles… Mas com a ansiedade de não quererem mais separações e com o Dia do Pai à porta, prometido é devido e fomos preparar a surpresa para amanhã.

Quando cheguei à cama, aterrei. E o domingo foi um dia slow, longe do telefone, entre desfazer e arrumar as malas, organizar a casa e preparar mais uma semana, soube bem andar no anonimato… acho que hoje em dia já é quase assim. Passar um dia ou varias sem partilhar alguma coisa é quase como ter a sensação de sermos de novo apenas seres humanos com vida normais, anónimos.

Admito que soube bem!

 

Fiz tudo o que era preciso, ainda voltei a arrumar o escritório – passei horas a arrumar os brinquedos de uma semana inteira sozinhos com a avó - a mudar a disposição, no fundo, a tentar que a divisão da casa mais comum e usada por todos, mas, ao mesmo tempo, tão importante para mim, o escritório, se torne funcional e leve com a boa energia que se pretende. E o importante é que eu avanço sempre mais um pouco nessa direcção.

 

E, hoje, segunda-feira, uma semana de preparativos para o baptizado do Vicente e da Laura, não vai haver muito mais tempo para outras coisas. Viajar e trabalhar ao mesmo tempo foi duro, obrigou-me a ficar acordada até tarde todos os dias, a ter que estar sempre com o telefone da mão para não deixar nada para trás (valeu-me a hora de avanço em relação a Lisboa). Agora preciso realmente descansar, ou pelo menos, focar no que é realmente essencial.

 

No dia em que aceitei não fazer para alem do meu limite tornei-me uma pessoa muito mais feliz, acreditem. Minimizar aqueles dias em que andamos para alem da nossa capacidade de resistência, tem impactos grande em nos e na nossa saúde. Talvez por isso, aconteça que, por vezes, alguma coisa tenha que ficar para trás.

 

Esta semana que passou senti que isso aconteceu aqui com o blog. Escrevi pouco, mas teria sido humanamente impossível conciliar tudo nas 24h dos meus dias. Agora estou de volta, esta semana tudo será mais normal por aqui. Temos o grande acontecimento, é certo, mas estas cerimonias para mim são coisas intimas, pessoais, em que dou muito mais importância à forma como vivemos, ao momento que partilhamos uns com os outros, do que propriamente com a festa, os ornamentos e tudo isso.

Portanto, não esperem ver aqui posts com grandes dicas sobre o assunto, porque vai ser tudo muito mais simples e pessoal do que possam imaginar. 😊

Algumas dos itens da minha "to do list" por estes dias em Bruxelas

13.03.19 | Vera Dias Pinheiro

bruxelas

 

Percorrer ruas acima e ruas abaixo. Rever amigos, mais eu, já que o meu marido tem vindo cá com alguma regularidade. Perceber que temos aqui pessoas que realmente gostam de nós e sentirmo-nos em casa assim que viramos uma esquina ou entramos em algum lugar.

Mas a cidade está diferente, parece que evolui um pouco no sentido em que bruxelas não é a cidade mais modernizada no mundo em vários aspectos. É uma cidade plana que fazemos bem a pé sem termos, contudo, a noção real das distâncias que percorremos – só na hora do regresso. Sentar no Le Pain Quotidian para almoçar ou tomar um café no Exkit.

Falta-me ir à loja Hema, voltar à Avenue Louise e à Toison D’or onde passei tanto tempo, de um lado para o outro, com o Vicente sempre comigo, no carrinho, fizesse chuva ou fizesse sol. Não são férias, é voltar a casa e arrumar a casa, é materializar sonhos e deixar as portas abertas para recebermos aquilo que pedimos ao universo.

Não esperem fotografias turísticas porque estamos aqui com outros deveres e, nos entretantos, tentamos ao máximo desfrutar da cidade. No fundo, tentar revisitar aqueles dois anos que vivemos aqui, ver como está tudo, se mudou ou se, pelo contrário, está tudo igual.

Bruxelas não é uma cidade consensual para muitos, os belgas muito menos, mas a qualidade de vida é por volta de um 9,5 numa escala de 1 a 10 e os seus encantos, bom, é preciso tempo para se estar, para conhecer e para sair do obvio.

Embora o tempo não seja fenomenal, aliás, está imenso frio por estes dias, quando há sol tudo desperta e ganha uma outra vida que é absorvida a 200% e se a chuva aborrece, é graças a ela que a cidade é tão verde e florida nos outros meses.

O céu cinzento, ao fim de um tempo, deprime, mas se soubessem como o mau tempo não inibe estas pessoas, famílias e crianças de viveram a sua cidade… O transito é caótico, mas o hábito de andar de bicicleta está super difundido na cultura e nos hábitos de quem por aqui vive.

E, quanto à gastronomia, não me vou embora sem comer carbonnade e moules, estas no Chez Leon de preferência para que a experiência seja total. Contudo, asseguro-vos que, em poucos lugares, como tão boas saladas e comida bio como aqui, ainda que as baguetes, as tartines e os chocolates sejam uma tentação em cada esquina.

 

Lembrem-se que aqui é mais uma hora e hoje temos um jantar com amigos e, amanhã, espera-nos mais um dia.

Em Bruxelas | E vocês regressam aos lugares onde foram (muito) felizes?

12.03.19 | Vera Dias Pinheiro

parc du cinquantenaire

 

Sair da zona de conforto é difícil, ainda assim, a sensação com que fico a seguir é a de ter conseguido conquistar sempre mais qualquer coisa. Como se qualquer coisa fosse ganhando uma consistência diferente, como se eu ficasse mais forte. É na luta connosco próprias, os dilemas com os quais nos debatemos interiormente, com o debate e o duelo entre a “voz a favor e a voz contra”, que vamos progredindo mais um pouco e percebendo que, afinal, conseguimos controlar as situações de uma forma que até nem suspeitávamos.

 

Vai ser uma semana intensa. Não só porque deixei os meninos com a avó, porque arrisquei tudo e, em vez de terem ido para a escola no dia da partida, eu quis que ficassem em casa para poder passar um pouco mais de tempo com eles. Arrisquei porque o Vicente, emocional como é, não conteve as lágrimas várias vezes como ainda repetiu várias vezes que ia ter muitas saudades nossas. A Laura, à noite já ao telefone, perguntava-me “mãe tu não vens para casa? Já não está sol, mãe, tens de vir.”

 

Adapto-me facilmente às mudanças e até achava (e ainda acho) que sou uma mãe com alguma capacidade de relativizar, mas a minha fraqueza está aqui. A minha fraqueza está quando tenho que passar tantos dias sem eles, porque simplesmente eu preferia que não fosse assim. Mas, calma, eu sei que faz bem a todos, pais e filhos. Todavia, o facto de ser tão presente e de ser eu sempre a assegurar 99% das suas necessidades nos 365 dias do ano, faz com que eu prefira sempre o contrário: viajar com eles para todo o lado!

Talvez, nesta viagem em particular, o grau emocional não esteja a facilitar. Eu não voltei a Bruxelas a seguir à nossa saída – que fará cinco anos em agosto – e vivi aqui os dois anos da “viagem” mais importante da minha vida. Foi aqui que a minha nova vida, a vida que tenho actualmente, a vida tão mais feliz, realizada e tantas outras coisas que é difícil colocar em palavras foi passada.

E como esquecer todos aqueles dias vividos com o Vicente comigo, as descobertas, os choros, as frustrações…. Impossível esquecer ou deixar de sentir uma tensão na garganta a conter a emoção e todos os sentimentos arrebatadores.

 

Foi uma escolha minha a de não ter voltado, na minha cabeça ia ser difícil olhar para esta cidade como um mero destino de férias. É verdade que também não voltei a Trieste, a cidade italiana onde fiz Erasmus e da qual, na altura, também não queria ter ido embora. Adapto-me facilmente às mudanças e há qualquer coisa na vida de expatriado que me seduz, que me faz amar o meu país, mas, ao mesmo tempo, sem que isso me roube a vontade de viver num outro lugar.

 

É igualmente verdade que estas experiências são muito intensas, são vividas com grande entrega e as relações entre as pessoas ganham uma força que, em situação normais, levariam meses para acontecer. A disponibilidade, a entreajuda e o convívio são alguns dos adjectivos que encontro para as descrever.

 

Nestes dias, tenho uma lista mental de sítios aos quais quero ir, ruas pelas quais quero passar, mas quero também ver o que mudou nestes últimos anos, quero perceber se sinto – agora que estou aqui de novo – aquilo que eu sentia quando vivemos cá e que guardei neste período, tão forte que a nostalgia e a saudade estiveram sempre presentes.

 

Mas isto não são férias, porque voltar a casa nunca é ir de férias. A isto chama-se... voltar a casa!  

Fim-de-semana de sol e amigos! E o vosso?

10.03.19 | Vera Dias Pinheiro

fim-de-semana de sol

 

Podia descrever este fim-de-semana de uma forma muito simples: com a analogia ao lagarto que se estendeu ao sol para regular a temperatura do seu corpo. Com o final do inverno eminente e com as reservas de vitamina de D muito em baixo, a vontade é mesmo essa: estender-me ao sol à mínima oportunidade. E com os 20 graus deste fim-de-semana, acreditem que tudo aquilo que me apeteceu foi simplesmente sentir aquele calor e aquela luz na minha pele (devidamente protegida com factor de protecção 50 evidentemente, pois o sol é mau em qualquer altura do ano, seja inverno ou verão) e sentir a temperatura do meu corpo a aquecer.

 

Entre os jardins da cidade, onde passeamos a seguir ao almoço de sábado e antes da reunião entre pais e padrinhos para a preparação do baptizado do Vicente e da Laura. Ainda não vos tinha falado disto, pois não? Mas sim, finalmente demos marcha a essa vontade e querer da nossa parte, conseguimos perceber claramente a quem gostaríamos de “entregar essa responsabilidade” e, como tudo na nossa vida, já tem data marcada por muito breve!

Merecem um post com toda esta história e mais umas quantas que tenho para partilhar, mas à medida que tudo vai ganhando forma, torna-se mais fácil para mim partilhar com o resto do mundo. E a primeira coisa que ganhou forma foi precisamente o baptizado, portanto será por aí que irei começar.

Acabamos a jantar todos juntos sem filhos, uns a decidir a ementa do evento e outros, a mãe e as madrinhas ansiosas com a escolha das roupas e de outros detalhes.

 

E hoje, domingo, não foi muito diferente. Novo encontro marcado com amigos, churrascada, trampolins, balizas e bom vinho. Conversa para horas e mais um maravilhoso dia de sol.

O Vicente acabou por verbalizar, no regresso, o que ele e a irmã sentiam, que tinha sido um fim-de-semana em grande. Começou com um playdate com uma amiga da escola, logo na sexta-feira, sábado com os amigos em nossa casa e, no domingo, nós em casa de amigos. No regresso, ferraram-se a dormir em segundos, mas isso já era o esperado – e é sempre um bom sinal!

E se para vocês a semana vai continuar a ser de sol, a minha vai ter uma mudança abrupta para o oposto: frio e chuva. Vou estar a trabalho a partir de uma outra cidade num outro país, com o coração mais apertado dado que o Vicente e a Laura ficarão com a avó e será a primeira vez que eu estarei tantos dias seguidos longe deles. Mil recomendações a deixar, compras de supermercado providenciadas, aviso na escola e ser rija – porque vai correr tudo bem!

Os fins-de-semana assim, sem nada de especial, mas tão preenchidos ao nível dos afectos e das relações, são o suficiente, se der para ter os filhos à vontade e entretidos com outras crianças melhor ainda já que nos deixam (a nós) mais livres para sermos adultos!

 

tramplin

 

 

 A casa ficou um pouco ao abandono, todavia, digo-vos muito sinceramente que há alturas em que a casa – arrumações – desarrumações – e tudo o resto é tudo aquilo com que não me apetece preocupar. E este fim-de-semana foi assim, não me apetecia sequer passar muito tempo em casa para não ter que ver aquilo que está por fazer.

Entendem-me, não entendem? 😊

 

Espero que tenham passado um excelente fim-de-semana.

 

Dia Internacional da Mulher na vida normal de uma mulher!

08.03.19 | Vera Dias Pinheiro

dia internacional da mulher

 

Acordei, depois de uma noite de cama partilhada (uma das muitas) particularmente ruidosa face ao actual estado de ranhos, nariz entupido e dificuldade em respirar (consequência do próprio nariz entupido). Acordei com particular mau humor e pouca energia.

O dia começou como todos os outros: despachamo-nos sempre a correr para que eles, crianças que se distraem com tudo, se dispersem o menos possível. Deixei-os na escola e fui ao ginásio. E fui, não por ser Dia da Mulher, mas porque aprendi a pensar em mim e nas coisas que são importantes ao meu bem-estar todos os dias do ano – sobretudo nos dias em que acordo com a energia mais em baixo.

 

Regressei a casa e tomei o pequeno-almoço. Passei para o escritório e sentei-me ao computador. O dia, tal como o vosso certamente, foi passado a trabalhar. O trabalho pode ser convencional ou com um horário definido. Mas é um trabalho que foi conquistado a pulso, por mim, com as minhas capacidades e com a minha perseverança. E porquê? Porque um dia decidi dizer basta a uma carreira infeliz e pouco ou nada recompensadora. Foi arriscado, tive medo, ouvi de tudo, mas confiei e trabalhei muito e sem desistir. E com o tempo, com as coisas mais estáveis, a vida assume assustadoramente o seu ritmo normal. Há dias melhores e dias piores. Há chatices e coisas boas. Existem dias mais animados do que outros. A parte menos boa é, sem dúvida, passar imenso tempo sozinha. Nem sempre é o melhor remédio.

Pelo meio, aproveitei para adiantar uma – ou várias - máquinas de roupa para lavar, tirar a loiça da máquina a arrumar mais uns quantos brinquedos espalhados pela casa. Não me posso esquecer do jantar e ver se não há nada urgente que falte do supermercado.

 

A minha vida mudou, às vezes sinto-me mais dona de casa que outra coisa, noutros dias sinto que simplesmente não tenho tempo para ela. Todavia, olhar para trás e ver tudo o que já fiz e onde cheguei dá-me uma certa satisfação. Satisfação por não ter desistido de mim, por não me ter acomodado, ainda que as decisões que temos de tomar em família não sejam sempre fáceis. Mas sei que retirei de cada momento a oportunidade para fazer alguma coisa mais por mim, pela minha felicidade e pelo meu amor próprio.

 

Contudo, tudo o resto faz parte daquilo que é ser mulher. Fala-se tanto e, por vezes, nós próprias fazemos tão pouco. Esperamos sempre grandes gestos quando as mudanças estão ao alcance de cada uma de nós. Entre o caos de uma vida em família e de uma casa com duas crianças, há uma mulher que se esforça por não se deixar afundar - ou pelo menos para não se deixar ficar muito tempo no fundo. Há uma mulher que se esforça por ser mãe, que toma decisões pessoais a pensar na família com a condição de que eu consiga de alguma forma adaptar-me.


Acredito que é possível sermos tudo aquilo que sonhamos, ainda que seja bastante real que tenhamos que ser outras tantas coisas pelo meio. Aliás, passamos muito mais tempo a ser essas outras coisas todas…

 

Talvez não saia tantas vezes com as minhas amigas quanto desejaria, talvez seja difícil ceder o meu lugar ao final do dia e que essa seja a “minha missão”. Talvez sinta que me falte um pouquinho mais de tempo para crescer ainda mais no meu trabalho. Talvez… e talvez haja dias em que a ansiedade seja maior. Ainda assim, são as consequências das nossas escolhas num mundo e numa vida que não tem nada de perfeita.

Tenho ainda a certeza que dou muito de mim aos outros, tenho a certeza que deixo que esses outros levem parte daquilo que eu sou..., mas acordo de cabeça erguida e feliz porque, ao longo do meu caminho, tenho conseguido fazer escolhas importantes que me permitem ser a MULHER que sou hoje, que continua a sonhar e, acima de tudo, continua a conseguir realizar os seus sonhos. Sem glamour.... porque dois filhos e passar 24h em casa dá cabo de qualquer pessoa... eh eh eh!!!

 

Não se esqueçam: YOU MATTER!

É preciso dizer BASTA! Agressão não é amor.

07.03.19 | Vera Dias Pinheiro

violência doméstica

Hoje soubemos que mais uma mulher faleceu vítima de violência doméstica. Esta foi a primeira notícia que li esta manhã, a segunda foi a anunciar que hoje tinha sido decretado, pela primeira vez, Dia de Luto Nacional por todas as vítimas mortais de violência doméstica.

Posto isto, tudo o resto que tivesse para vos dizer fica completamente suprimido pelos factos que são notícias constantemente. Fica suprimido perante estes crimes de “amor” que acontecem repetidamente; pelos culpados que se entregam a seguir na polícia e pelos agressores que, pelo contrário, são absolvidos porque a fatalidade ainda não aconteceu. Atestam-se as faltas de provas…

Curioso que, nos dias de hoje, em que tanto se fala de empoderamento das mulheres, este assunto esteja mais vivo do que nunca. Curioso que, ao mesmo tempo em que lutamos cada vez mais pela igualdade e pelos direitos das mulheres, sentimos que, voluntaria ou involuntariamente, se compactua com os casos repetidos de violência doméstica, quer física quer psicológica. As agressões passam entre os pingos da chuva como se os factos nunca fossem suficientemente fortes por si só para salvar uma mulher da morte!

Podia aproveitar a oportunidade para voltar a frisar a importância do amor próprio. Podia reforçar que nutrir o nosso espírito nos dará a força para sermos capazes de dizer BASTA! Para sermos capazes de virar as costas ao primeiro sinal – ameaça - de agressão. O amor próprio de cada mulher devia ser superior ao medo, à perda, à solidão e a tudo o que demais a possa assustar, mantendo-a aprisionada a um amor que é tudo menos amor.

O meu maior desejo é que, neste processo de empoderamento e em que estamos tão preocupadas com o ódio mulher-mulher, cada uma se insurja contra o seu agressor a tempo de escapar do pior. E que assim, as notícias e os casos efectivos deste tipo de violência pudessem ser cada vez menos. Que cada mulher procure ajuda uma, duas, três, as vezes que forem precisas porque a sua vida é mais importante do que qualquer outra coisa.

O que é que acontece para que estas mulheres sejam brutalmente mortas? Agredidas? Como é que deixamos passar? Como é que se pode aceitar ou até tolerar? Eu não sei! Fico incrédula, angustiada, fico a pensar e a remoer em tudo isto. Perturba-me a indiferença e a facilidade com que não nos queremos meter e com que o nosso silêncio compactua com este tipo de situações.


Nunca sofri bullying, a nível das relações amorosas, nunca me levantaram a mão, nunca o contrário sucedeu e nem eu cresci perto de casos destes. Não sei o que é o amor cego, os ciúmes excessivos, ou qualquer outro tipo de perturbação que possa estar na sua origem. Mas o que eu sei é que não é o certo! Não é o justo e não é legítimo! Que não se aceite jamais o mínimo sinal de violência como merecido!

Quero acreditar que educo os meus filhos para nunca serem agressores ou agredidos. Quero acreditar que os educo com igualdade e respeito pelo outro, independentemente do género, da raça ou da religião. E, acima de tudo, que sejamos mais activos como pessoas e como membros da sociedade, pois a responsabilidade é de todos nós!

 

07.03.2019, Luto Nacional pelas vítimas de violência doméstica pela primeira vez em Portugal.