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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

A importância de apoiar os sonhos dos nossos filhos!

11.07.18 | Vera Dias Pinheiro

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Eu e o meu marido tivemos infâncias diferentes e não apenas porque eu sou a menina da “aldeia” e ele o rapaz da cidade – alfacinha de gema, portanto. Há algo que nos diferencia e que tem muito a ver com a forma como vivemos a nossa infância. Ele, um menino mais protegido, teve uma mãe mais zelosa e preocupada com a sua saúde e com a sua segurança, o que fez com a parte mais radical e aventureira da nossa família fosse espicaçada por mim.

Eu, a menina da aldeia, que só mais tarde veio morar para a cidade (Santarém), cresci com os amigos por perto, em casa uns dos outros, com a liberdade necessária para correr de um lado para o outro e para explorar caminhos de bicicleta. Nunca aprendi a técnica, mas foi me permitido experimentar tudo, os patins, os skates e com isso, tive as minhas quedas de rabo no chão que, com naturalidade se encaravam. Faziam parte do crescimento, digamos assim!

E, na verdade, fui uma criança que sempre gostou da parte do movimento, das coisas radicais, das experiências novas e que estava sempre envolvida no desporto escolar. Imaginava-me uma verdadeira desportista, daquelas de competição. Todavia, se tive tanta liberdade para crescer sem estar limitada ao estado do tempo ou a quatro paredes, não tive a confiança necessária para que os meus pais levassem mais a sério a minha queda para isto do desporto. Guardo com alguma tristeza, admito, o dia em que a minha professora de Educação Física chamou os meus pais à escola para os incentivar a deixar-me explorar mais o meu gosto pela ginástica, sem, todavia, qualquer sucesso.

Digo, com toda a sinceridade, que se adorava ver as provas dos Jogos Olímpicos, a partir daí, foi diferente. Afinal, podia (ou não) ser eu! Bom, mas isto tudo para vos dizer que, enquanto mãe, eu incentivo e apoio bastante o interesse pela actividade física. Actualmente, por todas os motivos e mais alguns, incluindo para que seja crianças saudáveis, para quem o exercício físico seja algo natural e não uma tortura. Mas também porque considero que o desporto envolve sempre valores e princípios, cada um a sua maneira e que isso, de certa forma, os irá manter num caminho mais saudável e com outros valores pela vida fora. Como se fosse algo que os mantivesse num lado mais “são” da vida.

Quando o Vicente nasceu, já vos disse o quanto ele nos habituou mal ao ser tão bem-comportado. Não arriscava, não me largava as pernas, não era afoito no parque nem em lado algum. À medida que foi crescendo - e muito por incentivo de ter uma irmã mais nova - está muito mais espevitado, destemido e confiante dele mesmo e, claramente, com um jeito natural para o desporto.

E não é que fique admirada, mas fico sempre feliz quando ouço, por exemplo, que, na natação tem uma pernada excelente para a sua idade. Ou, no Judo, que é dos mais atentos e aquele e já vai no seu segundo “campeonato”. De resto, adora jogar à bola, tem a sua bicicleta e uma trotinete. Todavia, há algum tempo que me pedia um skate. O quê? Como assim um skate?! Uma coisa tão radical e que eu não estava bem a ver de onde tinha saído essa ideia.

Claro que, por ser algo mais arriscado, fui deixando andar até que, numa grande superfície, o desafiei a experimentar e ele, que nunca se tinha colocando em cima de um skate, surpreendeu-me com um equilíbrio fora do normal para a idade. Parecia saber exactamente o que era suposto fazer, sem qualquer medo ou receio de cair. Guardei a informação, orgulhosa dele, pois claro! O meu Vicente, um miúdo radical e destemido!!!! Quem diria 😊

E quem eu, melhor do que ninguém, para saber o quanto é importante que os pais confiem nos seus dotes e nas coisas que eles nos dizem? Pelo menos, dar o benefício da dúvida e, se for caso disso, porque não estarmos lá a apoiar?

Assim, depois de mais de três caixas de brinquedos doadas, com uma casa mais vazia e eu mais leve, resolvi ir buscar novamente o assunto do skate.  Levei-o a um parque de desporto para que tivesse uma aula de iniciação. Estava feliz da vida, sabia perfeitamente o que tinha para fazer. Houve empatia com o instrutor, a paciência deste, e sai de lá com um rapaz ainda mais crescido. E, tal como as viagens, são estas experiências que eu lhes quero proporcionar. A liberdade para crescerem, explorando coisas novas, habilidades, dotes e diferentes formas de socialização, que façam deles pessoas equilibradas, pessoas que apreciem e deem valor a precisamente experiências e não coisas.

Mas atenção, eu não forço. Por mais que gostasse que os meus filhos fizessem um determinado desporto e que até o levassem a sério, o meu incentivo é, acima de tudo, para que descubram aquilo que realmente gostam e que eu os possa ajudar a explorar essas habilidades, seja em tipo de hobbies for. Contudo, sem dúvida, que quero valorizem uma vida que não se baseie apenas na pressão de um curso e de uma carreira (de sucesso). Quero que descubram como podem ser felizes, aprendendo a conjugar várias coisas que os realizem.

Snacks para o menino e para a menina | Dicas de conservação

10.07.18 | Vera Dias Pinheiro

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Ter cuidados com a alimentação é tomar consciência de que não podemos comer melhor comida do que aquela que é confecionada por nós. Só assim saberemos quais os ingredientes que estamos a usar e de que forma são confecionados. Portanto, as refeições fora são pensadas cada vez com mais cuidado e escolhemos os restaurantes onde sabemos poder manter mais ou menos o nosso estilo de alimentação – que, na verdade, não tem nada de particular, baseia-se essencialmente em comer comida de verdade, evitar a lactose e alimentos demasiado processados e/ou embalados. E isto, leva-nos ao tema deste post, o da conservação dos alimentos.

Neste sentido, sim, se já estão a pensar que sou daquelas pessoas que anda sempre com a marmita atrás, pensam bem. Não só me asseguro de que sei o que comemos, como, fazendo bem as contas, poupa-se imenso dinheiro. Portanto, se durante todo o ano, ando sempre com um lanchinho atrás, seja para eles, seja para mim. Imaginem nesta altura do verão, com as idas à praia e com a maior parte do tempo passado na rua. Mas, clama! Eu sou muito prática e, se a minha mãe passava a noite anterior, a um passeio, na cozinha, eu limito-me a juntar ingredientes, de forma simples e eficaz, tendo naturalmente o cuidado com a forma a sua forma de conservação e a praticidade para simplificar as refeições feitas fora de casa.

No ano passado, durante as nossas férias de verão, lembrei-me de partilhar com vocês os snacks e lanches que levávamos para a praia, contudo, não menos importante é falar na forma como conservamos esses alimentos. Especialmente, se, tal como nós, derem privilegio a alimentos frescos, como as frutas e alguns legumes. É importante estarem protegidos do calor, assim como, que não percam o seu sabor. Deste modo, se uma boa lancheira de transporte é importante, os recipientes propriamente ditos, também o são.

E se até algum tempo atrás, eu comprava os tradicionais sacos de plásticos, nos quais habitualmente levava todo o tipo de coisas e que achava darem um jeitão. Hoje em dia, estamos em processo de mudança de pequenos hábitos e de mindset - aos poucos para parecer fácil 😊

Algumas dicas que posso partilhar com vocês, para facilitar este processo, é, por exemplo, comprarem a granel sempre que possível e se optarem por fazer as compras dos frescos nas mercearias, como eu, levem os vossos sacos (de pano) para trazerem tudo o que preciso. Pode parecer confuso no início, contudo, garanto-vos que rapidamente ficam a achar estranho verem alguém a usar os sacos de plástico. Outra dica é terem aquilo que realmente vos faz falta e que precisam para as vossas necessidades do dia-a-dia.

Assim, aos poucos, com os frascos das leguminosas, aumentei o meu stock de recipientes de vidro, privilegiando os de plásticos para andar comigo para todo o lado e para conservar algumas coisas. Antigamente, lembro-me da dispensa da minha mãe com toneladas de caixas de plástico. Havia sempre uma perfeita para cada coisa. No início, quando estava em minha casa, reclamava que havia de menos. Agora, já se habituou a rentabilizar o que há.

Outras coisas que fazemos cá em casa, por exemplo, lavar todas as frutas e guardar para estarem prontas a comer ou a colocar na marmita. Muito importante, para nós, é a conservação do pão que comemos e das tostas que, fechadosv numa caixa hermética, garantem que a sua durabilidade é maior e a sua frescura.

 

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Com dois filhos, também já aprendia a regra de base que é: aquilo que um tem o outro tem que ter igual, portanto, e para evitar as discussões e os gritos, cada um leva a sua caixinha com as bolachinhas. Todavia, se há lanche que nunca está a salvo de invasores é o da mãe, pois claro. As caixas com divisórias são as minhas preferidas, porque dá para levar tudo junto.

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Tenho particular atenção para que estes recipientes sejam leves, versáteis, nomeadamente que possam ir ao congelador e serem lavados na máquina de lavar louça - sem falar da segurança na conservação dos alimentos. Não menos importante, é certificar-me de que são livres de BPAs. 😊

E, para finalizar, uma casa organizada, mesmo que não desarrumada e nem sempre a brilhar, é já meio caminho andado para nós próprias estarmos mais tranquilas e os nossos dias correrem melhor. Concordam?

  


Este texto é um conteúdo exclusivo para o grupo Auchan.

É fácil ceder quando entramos no ciclo do consumo

09.07.18 | Vera Dias Pinheiro

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Digo que é fácil ceder, quando entramos num ciclo que nos vicia e nos torna no produto de uma sociedade de consumo e demasiado material, porque eu sou a prova disso. Vivemos numa sociedade em que o verbo ter assume uma importância colossal, em que disputamos um vestido, se for o caso; em que viramos do avesso tudo o que conseguimos para encontrar aquele brinquedo que os nossos filhos desejam muito; em que o modelo do telefone que usamos importa, para além do seu carácter funcional e da nossa necessidade; em que, por exemplo, comprar um fato de banho que custa mais do que cem euros se torna banal, mesmo que, na vida real, não tenhamos possibilidades para... porém, isso não é relevante na hora em que partilhamos uma fotografia com algo que tantas pessoas desejam. A lista de exemplos é extensa e eu, que para todos os efeitos, sou considerada blogger e que, como qualquer outra blogger, recebo várias coisas de várias marcas para experimentar. É, regra geral, a forma mais imediata de “pagamento” ou de “agradecimento”. Mas esse produto, objecto vem, não raras vezes, acompanhado de uma Pen, de papel, de um saco e de outros elementos de merchadise. E, portanto, também eu acumulo, contra a minha própria vontade, muita coisa.

Debato-me entre o sentimento de "há não vou deitar isto fora" e o de querer focar-me no que é realmente essencial. Naturalmente que sou agradecida pelas coisas que recebo, mas, se valorizo mais algo que é 100% funcional, desde a embalagem ao produto? Sim, sem dúvida alguma, especialmente se não envolver plástico. No fundo, é este o exemplo que quero dar aos meus filhos e isso está acima de qualquer outra coisa.Para além disso, sei que facilmente perdemos a noção dos limites, sobretudo quando se tratam das crianças. Cedemos aqui e ali e cedemos muito no imediato, pois, se pararmos para pensar na utilidade real de determinadas coisas, não serão precisos muitos segundos para perceber se valerá ou não a pena comprar. É o consumo a toda a hora. E, nesta dinâmica quase inconsciente do nosso dia-a-dia, há muita coisa envolvida. Existe não só a compreensão da necessidade que temos em ter alguma coisa; existe a capacidade de percebermos a motivação para tal e o valor do dinheiro.

E, de há algum tempo para cá, tenho observado muito os meus filhos. Tenho "ganhado" tempo em ver com o que brincam, o que gostam e até de que forma valorizam o que têm. E não gosto, por exemplo, de ouvir o meu filho dizer à irmã que “não há problema, depois compra-se outro", quando estragam alguma coisa. Isso faz-me pensar seriamente no exemplo que lhes estou a dar, mesmo que inconscientemente e fruto das circunstâncias. Já tinha negociado com o meu marido a troca dos presentes de Natal pela viagem em família, mas estava a parecer-me ter sido pouco.Durante este tempo, percebi que os meus filhos não brincavam com metade das coisas que tinham, que se interessavam realmente por quatro ou cinco brincadeiras e o resto eram coisas tão banais que ganhavam pó por ninguém lhes mexer. E daí até encher três caixas com brinquedos, dos quais eles nem sentiram falta, foi um instante, ao mesmo tempo que havia em mim, um certo sentimento de liberdade e de saber que estava a fazer o certo. Sentir a casa a esvaziar, descobrir mais espaço, sentir a energia a fluir, não me fizeram arrepender e nem pensar duas vezes. Não quero ser emocional com objectos. Não posso ser!

Para além disso, eu cresci com as brincadeiras fora de casa, os meus pais sempre passearam imenso connosco, tive bicicleta, patins e toda uma série de coisas que faziam de nós crianças aventureiras. Contudo, quando brincava em casa, lembro-me que me bastava a minha caixa da costura, pedaços de tecido e as minhas Barbies. Não tive a casa, não tive o Carro, nem uma série de outras coisas, mas reinventei mil e uma histórias, incluindo carros diferentes e casas variadas, desde a de praia à da montanha. Foi assim que eu cresci e, se na altura, ficava triste porque os meus pais não me oferecerem os bonecos que eu pedia, hoje estou profundamente grata por me terem ensinado o valor das coisas.

Ora, por tudo isto, imaginam os dilemas com que vivo em certas alturas da minha vida, especialmente sendo mãe e percebendo que as crianças de hoje se desenvolvem e crescem num mundo muito mais apelativo e muito mais exigente nesta perspetiva. Depois, em conversa com o Pedro, a pessoa a quem entrego tudo para levar para a Escolinha de Rugby de São João da Talha, fundada por ele e uns amigos para ajudar na integração de crianças carenciadas, perguntava se mochilas e lancheiras eram coisas que pudessem fazer falta. Ao qual ele me responde que sim, pois deixariam de usar sacos de plástico. E o meu cérebro parou naquela informação, naquele fracção de segundos, senti-me fútil, senti que também tinha cedido a uma sociedade de consumo, que também era a mãe que cedia aos caprichos dos filhos, não importa se são maiores ou menores, cedia! E a prova estava diante de mim.

Sai do escritório e corri outras divisões da casa. Abri caixas, armários, tirei tudo e juntei coisas que para mim/nós são tão banais e que acabamos por nem sequer lhes dar o devido valor – por serem de tão fácil acesso, por termos aos “montes” e haver alguém, ao nosso lado, que ainda leva o lanche para a escola num saco de plástico.

O sentimento de desprendimento é revigorante (por oposição ao do consumo). Sou muito mais feliz quando me consigo encontrar comigo, recentrar e não perder de vista quem sou. É normal acumular, é normal achar que precisamos de coisas e tê-las. Tão normal como termos a capacidade de praticar o desapego, de dar a oportunidade ao outro de conhecer um pouco o "luxo", de ter coisas que os outros têm, de receberem presentes em dias banais do ano ou receber encomendas com novidades para experimentarem.

É tudo normal e aceitável quando contribuímos igualmente para que o ciclo se faça, sem nos fecharmos num estatuto que é efémero, de consumo, e sem nos esquecermos que é preciso saber continuar a viver se um dia não for possível termos tantas coisas.

No papel da madrasta... | Testemunhos reais #3

08.07.18 | Vera Dias Pinheiro

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Hoje sou mãe, mas também sou madrasta. Para a minha filha - entenda-se enteada - hoje sou a outra mãe. Já fui a “boadrasta”, segundo ela, a palavra madrasta é feia e que lhe remete automaticamente a uma conotação malvada - acho que podemos culpar Hollywood e a Disney por isto.

Acho que muitas de vós vão entender quando digo: “Eu tenho dois filhos e não faço qualquer distinção entre eles”. Mas porquê fazer para além da óbvia? Um é menino e bebé, enquanto que a outra é uma menina e pré-adolescente.

Lembro-me de um dia estar com a I e com o N e um conhecido me perguntar: "São os dois teus?", ao qual, sem pestanejar, eu respondi que sim. Na fracção de segundo seguint,e o meu olhar e o da I cruzaram-se e eu pude ver o verdadeiro amor. Sim, são os dois meus. Acho que o sangue, em matérias de coração, não interessa para nada. 
Eu sou a outra mãe. Vou à reunião de pais, estudo com ela, educo, mimo muito e também ralho quando acho necessário. Serei assim tão diferente das mães biológicas?Quando começamos uma relação, onde já existe uma criança e com guarda partilhada, adoptamos essa criança como nossa. Acho que é algo tão óbvio que não carece de explicação.
Então qual é o problema? Muitas vezes, gostamos de culpar o outro lado. A mãe biológica por assim dizer.No início, claro que não foi fácil. Mas quem pode julgar a mãe biológica da I? Uma aparente desconhecida a tratar o nosso rebento? Aqui o tempo foi o meu melhor amigo. Isso e a franqueza de uma boa conversa. Expliquei que em momento algum estaria a ocupar o lugar dela, que ela é que era a mãe e que eu era apenas mais uma cuidadora da I. Que a amava como se fosse minha filha, mas que sabia o meu lugar.
Pouco a pouco, as coisas tomaram o rumo certo. Este ano que passou, a I teve o primeiro aniversário em que os pais biológicos estiveram juntos no mesmo espaço. Há reunião entre nós quando o assunto é a I. Também há convívio do bom, há lanches conjuntos, há boas conversas e até recordações.
Hoje em dia, as duas mães são amigas e gosto de pensar que fui uma ponte para um melhor entendimento entre os pais biológicos dela.
A I agora tem uma família linda composta por duas mães, não importa se uma é a madrasta, dois pais e dois irmãos, que convivem em harmonia em prol da sua felicidade e bem-estar.

 


Quero agradecer à Joana por ter partilhar esta história com final feliz, numa situação, por vezes, tão frágil e tão difícil de gerir por todos os que dela fazem parte.

A entrevista na creche e o turbilhão de sentimentos

06.07.18 | Vera Dias Pinheiro

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No meu caso, a entrada na creche acaba por ser uma consequência natural e não uma necessidade, por assim dizer. Aliás, o momento surge até mais por uma necessidade minha, caso contrário em vez de entrarem agora na creche, esperaria que completassem os três anos e, assim, iniciariam o Jardim de Infância directamente. E mesmo que, com o segundo filho, esse “prazo” seja idêntico, confesso que os motivos, ainda assim, são um pouco diferentes.

Quando o Vicente iniciou a creche foi, acima de tudo, um motivo pessoal meu, pela minha necessidade em voltar a ter o meu espaço, a minha liberdade. No fundo, poder voltar a dedicar-me a coisas de adultos e não apenas ao universo de uma criança. Nunca achei, todavia, que o Vicente tivesse problemas de socialização, felizmente isso sempre foi uma prioridade minha e do meu marido. Desde bebé que lhe proporcionamos muitas coisas diferentes, que privou com crianças e que teve rotinas - hei!!!! Eu sou a mãe das rotinas, deixei de ser general com o segundo filho, mas só isso. Era eu que tinha atingido o limite da minha capacidade de entrega total e absoluta, precisava de oxigénio para continuar a desempenhar este papel (o de mãe) tão bem como até ali.

Com o segundo filho, toda a conjuntura é diferente. O ambiente de casa, as rotinas e a própria presença de um irmão mais velho vêm acelerar por completo a forma como aquela criança se desenvolve. Desde cedo percebi que a Laura nunca iria brincar com os brinquedos por fases de idade, tal como fui fazendo com o Vicente. Ela atirou-se logo aos brinquedos do irmão e, à medida que foi crescendo, as brincadeiras são a dois e não apenas sozinhos. A vontade do mais pequeno de se igualar ao mais velho é gigante, portanto a sensação com que fico é que a Laura deixou de ser bebé e passou imediatamente passou a ser uma criança crescida. E isso aconteceu logo após o primeiro aniversário.

Tanto assim é que, neste momento, sinto que vou deixar na creche uma menina muito mais crescida do que era o irmão. Muito mais consciente de tudo, muito mais capaz de perceber esta mudança e, sem dúvida, muito mais ávida por esta mudança. Atenção, que nada disto invalida que, chegada a hora de ficar na creche, ela chore, não queira ficar, etc... Mas, tal como o irmão, vai passar e tenho a certeza que vai passar assim que eu virar costas. E eu sei que me vai saber bem voltar para casa e ter o meu silêncio de volta, não dividir as minhas horas de trabalho com mais nada e conseguir despachar todas as minhas tarefas extra mãe até ao momento de os ir buscar à escola.

Sei igualmente que irei voltar a ter mais energia para as idas ao parque ao final do dia, para as brincadeiras e para eles nessa altura. Neste momento, e com prejuízo para o Vicente muitas vezes, já chego cansada ao fim do dia, muito dispersa por ter que estar constantemente a conciliar coisas em paralelo. Às vezes, isso faz-me perder o foco e a motivação em geral.

Porém, sei de antemão, que, a partir do primeiro dia em que lá ficar, a minha pequenina irá crescer ainda mais rapidamente. Irá, tal como o irmão, iniciar o seu percurso na escola, na socialização com os pares, na criação de laços fortes extra família e, ao mesmo tempo, lidar com mais frustrações e ser obrigada a sentir-se contrariada. Mas consciente dessa "separação" e do seu impacto, sinto-me mais ligada a ela por estes dias, como se estivesse a aproveitar todos os segundos em que é apenas minha.

Não sinto que vá ficar com um vazio e não me questiono de como serão os meus dias a partir de setembro. Os meus dias já têm rotinas e responsabilidades, tenho uma ocupação e compromissos a cumprir. Contudo, a oportunidade de ser uma mãe que vive diariamente para os seus filhos e que organiza toda a sua vida, para além da maternidade, em função deles, sente uma nostalgia. Foram dois anos com cada um deles, fui uma presença constante na vida deles, de dia e de noite, foi não faltar um único momento das suas vidas, desde o dia em que nasceram. Mais tarde, foi repartir essa experiência com mais um filho, foi saber que a minha escolha exigia que, independentemente de qualquer coisa, eles seriam a prioridade e que, alguém a ter que ceder, esse alguém seria eu.

Não me tornei dependente dos meus filhos, senti sempre a necessidade de tentar manter o equilíbrio com a minha pessoa para além deles. Fiz um esforço por conciliar tudo e fazer deles a melhor companhia para tudo. Mas irei olhar para trás e pensar sempre que fiz a escolha certa, por eles e por mim. Tudo o que vier a partir daqui virá no momento certo para todos. A aceitação será natural e compreendida, ao mesmo tempo que sentimos essa vontade de passar à etapa seguinte.

Nunca me irei esquecer do meu primeiro dia em Bruxelas. Eu, o Vicente, o meu marido a trabalhar e um mundo totalmente desconhecido para nós lá fora. As primeiras idas ao médico, sentindo que não estava capaz de me expressar e de ser a mãe, as dificuldades em encontrar-me e fazê-lo (a ele) sentir-se confortável e seguro naquela mudança. Desbravámos o desconhecido em conjunto, aos poucos criamos rotinas, conhecemos pessoas e tínhamos os nossos sítios preferidos. O Vicente mostrou-me o que de mais profundo existe dentro de mim, ensinou-me a ser mais paciente, mais abnegada, mais desprendida daquilo que é acessório e sem grande tempo para perder com coisas que não acrescentam nada de importante à minha/nossa vida. Voltei a ser mãe e a voltei a sentir que tinha tudo para reaprender novamente. Voltei a ter medos, chorei, mas tive sempre mais certezas do que dúvidas. Tinha a certeza de que tinha feito a escolha certa, mesmo que o futuro continue a ser sempre uma incógnita.

  


A mochila da Laura veio do site do Sítio do Bebé e pedi para personalizar com o nome dela.

Quase discuti com o meu filho por causa de roupa!

04.07.18 | Vera Dias Pinheiro

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Quando não temos filhos e, quando estamos perante famílias com filhos e presenciamos as situações normais, é mais do que natural pensarmos de que forma iríamos reagir, se fosse connosco. É também muito natural que digamos, para nós, que quando chegar a nossa vez, há coisas que jamais iremos fazer ou dizer. Que há comportamentos que reprovamos à partida e que para nós não têm qualquer justificação.

Bom, eu nunca fui muito de tecer ideologias, porque a verdade é que todos temos telhados de vidro e uma coisa é assistir, outra coisa é viver e sentir pessoalmente as situações. Certo? Acho que a maioria de nós já chegou a essa conclusão. E no que toca a filhos rapidamente nos apercebemos que nós pouco mandamos, que o que funciona com um pode não funcionar com o outro, que há mil e uma interferências no nosso raciocínio lógico e que deturpam a nossa capacidade de reacção, nomeadamente a privação do sono e o cansaço extremo.

E para quem não tem filhos, poder ter uma ideia: viver com crianças é viver em constante estado de alerta, ligados 24h por dia, que vivemos situações que nos colocam constantemente à prova, que exigem de nós uma decisão para tomar, que nos colocam perante uma urgência para resolver ou então, o tão comum, factor imprevisto que passa a ser bastante recorrente nas nossas vidas. Uma febre repentina, uma queda, algo que acontece na escola… passamos a não controlar muito bem o dia de amanhã.

Porém, se havia coisa que eu dizia era que discutir por causa de roupa com os meus filhos era simplesmente uma não guerra para travar. Sobretudo porque eu encaro isso como sendo uma forma de afirmação de uma personalidade, dos próprios gostos e estilos pessoais. Sempre disse que os meus filhos poderiam sair de casa da forma como bem entendesse, fosse de galochas no verão ou de chinelos no inverno ou mesmo mascarados. E especialmente, iria deixar fluir e que fossem eles próprios a construir o seu processo de escolha, a forma uma opinião e até conquistarem o seu espaço para manifestarem a sua vontade. Enfim, no meio de tudo o que envolve a maternidade, este parecia-me ser o menor dos problemas com que teria que lidar.

Contudo, há pouco tempo, eu estive bastante próxima de ter um desentendimento com o Vicente por causa de.... roupa! Imaginem uma mãe a engolir o que ela própria disse? Típico, não é verdade?

De forma maioritariamente egoísta, estava a impôr o meu raciocínio e a ditar-lhe a sua própria escolha. Uma escolha que é dele, onde ele sente que pode exercer a sua opinião e a ver reflectida a sua personalidade – uma espécie de causa-consequência. Era o almoço de aniversário do pai e mesmo que fosse algo reservado apenas à família mais próxima, era um dia especial e, por isso, mesmo sem grandes aprumos, todos nós tínhamos escolhido uma roupa mais arranjadinha para a ocasião.

Nesse dia, precisamente nesse dia, o Vicente quis vestir os calções de algodão que leva para a escola com bastante regularidade, diga-se, uma T-shirt nada a ver e ténis nada a ver com nada naquele conjunto. Na cabeça dele havia um motivo: aqueles são os calções com o cumprimento ideal - ligeiramente acima do joelho - a T-shirt era azul, tal como os calções, e os ténis não tinham atacadores, portanto ele não iria precisar de pedir ajuda a ninguém para se despachar. Estava feliz com a sua escolha até que eu chego e estrago tudo. Por instantes, deixei-me levar e deixo-o nervoso e de lágrimas nos olhos.... por causa de roupa!

Quando, por uns breves instantes, tive um momento de lucidez, apercebi-me do efeito que a minha atitude estava a ter nele e parei de imediato. Voltei atrás e disse-lhe que, para mim, o mais importante era que ele se sentisse confortável e feliz com a roupa, fosse ela qual fosse. Se ele tinha escolhido assim, eu iria respeitar. Não foi fácil, porque ele teimava que eu não gostava da roupa que ele tinha escolhido, mas continuei a repetir o mesmo até ele acreditar em mim.

Pensei em como estava a ser egoísta e, ao mesmo tempo, algo tão básica para mim, como ele perceber que deveria vestir o que lhe estava a dizer, teria um impacto tão grande nele. E é pegando neste exemplo, que pode parecer um pouco estúpido, que eu vos digo que ser mãe (e pai) é muito isto. É ter a capacidade de fazer um momento pausa a meio das situações, aquelas em que nos deixamos empolgar pelos nervos ou pelo calor do momento, e, em poucos segundos, analisar tudo aquilo que está a acontecer e quais os impactos das nossas atitudes.

Convivo diariamente com uma criança de cinco anos, que está a evoluir interiormente de forma muito profunda, que está a construir a sua personalidade e que precisa de espaço e compreensão para tal. Como mãe (e pai), é preciso saber escolher muito bem quais a batalhas que valem realmente a pena travar.

Este fim-de-semana prontamente se disponibilizou para vestir a irmã, estava feliz por isso e sentindo realmente que nos iria ajudar a todos. "Mãe, eu posso escolher a roupa se tu quiseres!" e antes que o nervoso miudinho subisse por mim, sorri e disse-lhe que isso seria uma grande ajuda. Escolheu uma saia às bolinhas, uma blusa às riscas e não se esqueceu do tapa fraldas. Estavam ambos extasiados com aquele momento, porquê estragar, não é verdade? :) 

Mulheres Reais é o não assunto do momento!

03.07.18 | Vera Dias Pinheiro

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Para mim, mulheres reais é um não assunto a não ser que alguém me consiga definir exactamente o conceito de mulher real e o que quer isso dizer no nosso dia-a-dia. É que pelo que tenho visto nas redes sociais, as vozes levantam-se para dizer que as mulheres reais são as mulheres que mostram as suas formas mais generosas, que mostram a beleza de um corpo pós-parto – sim, é beleza, mesmo que o tentemos esconder e fazer com que passe o mais rápido possível (eu incluída) – que não encolhem a barriga e por aí a fora. Está tudo certo, mas já acompanhei de perto o drama de pessoas que eram magras demais, que sofrem de bullying e críticas por serem demasiado magras, acusadas de serem anoréticas ou bulímicas, quando na verdade, se pode tratar apenas de um biótipo de corpo.

Não sei se perceberam, mas todas nós temos corpos, hábitos e genéticas diferentes e por muito que se queiram comparar, que comam o mesmo que outras mulheres comam e que façam os mesmos exercícios no ginásio que elas, isso não vos transformará de forma idêntica a ninguém.

Eu sei que ninguém me perguntou nada, mas acreditem que o Instagram, em particular, causa uma pressão danada em todos nós, em quem “influência” e em que segue esses influenciadores. Mulheres reais para mim não é um dia assumir que estão contentes com a sua barriga e no outro partilharem que estão a fazer um detox a pensar no biquíni. Mulheres reais, para mim, não é fingir que são uma barbie e usar todos os filtros para afinar ou esconder aquilo que não gostam.

Após o parto do Vicente, estava empenhada em recuperar a forma física, no Instagram (lá está) seguia todas as pessoas do fitness, com corpos com os quais eu sonhava, seguia perfis dedicados à nutrição e à alimentação, na maioria eram pessoas como eu, sem qualquer formação específica na área e sabem que mais? Ao fim de um certo tempo, eu vivia frustrada. Frustrada se havia um dia que não conseguia ir ao ginásio, frustrada se ia mas os resultados não apareciam – afinal, eu via transformações brutais em 3 meses, mas que só aconteciam aos outros – frustrada se tinha comido um fatia de pão, ao mesmo tempo que percorria o meu feed e só via fotografias de comidas saudável e proteicas. Ao fim de um certo tempo senti necessidade de fazer um detox digital e afastar-me daquela pressão que, no fundo, era tão ou mais irreal do que eu.

O objectivo estava lá - encontrar o equilíbrio em que cuidar de mim, conseguindo ter a mente e o corpo em sintonia. Mas era preciso libertar-me das amarras do que outros querem mostrar e das histórias (irreais) que criam. Era preciso fazer as coisas por mim, sem a minha censura e a minha autocrítica.

Mulheres reais, para mim, são aquelas que dão voltas e mais voltas para conseguirem cuidar de si ao mesmo tempo que lidam com todas as outras tarefas e obrigações. São aqueles para quem a sua imagem é importante. Actualmente, vou ao ginásio sempre que posso – se posso todos os dias, são todos os dias, se são apenas dois ou três, são essas as vezes que eu treino – e admiro quando vejo um grupinho de senhoras que encontro nas aulas de Pilates, todos os dias a treinar. Acho que devem ter perto dos 50 anos, porque a idade está lá, mas percebe-se que são pessoas que se cuidam e com uma boa auto estima. Estão ali porque procuram o melhor de si, independentemente da idade, olhar-se no espelho e gostar daquilo que vêm.

E, afinal, que mal tem isso? Porque é que as magras são anoréticas e aquelas que vão ao ginásio, só o fazem porque não têm mais nada para fazer? Ou porque é que a mulher que acabou de ser mãe tem que justificar a sua “falta de forma física”? Vivemos em democracia e só não vale desleixarmo-nos e culparmos os outros que conseguiram aquilo que nós não temos a coragem de sequer tentar.

Mulheres reais é um não assunto, tal como as mães reais e mais ainda toda esta necessidade de justificar a normalidade. É normal! Somos todas normais e todas nós, mulheres normais, encontramos sempre defeitos, vamos sempre querer mais, vamos sempre sentirmo-nos insatisfeitas. É a natureza do ser humano! Mas o pior, o pior, para mim, é a crítica vem de dentro de nós, acabando por se espelhar na mulher que está ao nosso lado. A questão é só uma: se ela consegue nós também conseguimos!

Se é mais confortável não fazer, comer aquilo que nos apetece - porque é só daquela vez - tudo isso é valido! É uma escolha pessoal, com consequências para nós mesmas. O que ele não percebe é esta constante necessidade de justificação e de modas. Ainda há pouco tempo, era moda de parir e ir a correr para o ginásio e fotografia a barriga quase negativa em poucos meses. Depois, seguiu-se a moda assumir essa mesma barriguinha, sem pressões. E agora queremos ser todas reais, quando isso é uma verdade válida apenas para as redes sociais. Porque lá bem no fundo, continuamos (e continuaremos) a querer ser melhor.

Já viram a pressão, que apenas por nossa culpa, somos obrigadas a viver? Vivam a vossa melhor vida! Façam o melhor por vocês, porque merecem isso. Comam bem porque sabem que isso é a melhor forma de cuidarem do vosso corpo e de serem pessoas saudáveis; ensinem os vossos filhos a fazer o mesmo e não será preciso pensar em dietas ou lidar com problemas de auto estima no futuro; façam o exercício que gostam, porque isso transforma o vosso corpo, mas liberta endorfinas e o vosso humor transforma-se e, no final, ficam com aquela sensação boa de que fizerem algo por vocês.

Não se acomodem aquilo que não gostam, não adiem, porque quanto mais tarde pior, mas também não se escondam, aprendam a valorizar-se, a moda somos nós que a fazemos. Ninguém nos obriga a andar vestidas de igual, escolham a roupa que melhor vos favorece e sejam mulheres confiantes! Partilhem as fotografias em que mais gostem de ser ver, usem os filtros que quiserem para, por exemplo, dar mais luz ou acentuar as cores, mas não se transformem em barbies irreais, porque, no fundo, só vocês sofrem com isso. Sofrem por não conseguir atingir um ideal que não existem.

Vamos parar com este assunto e por na cabeça que está nas nossas mãos fazer o melhor por nós, não esquecendo que somos todas diferentes, mas que, na nossa medida, procuramos o melhor.Vejo muita autocrítica nas redes sociais, pessoas que se culpam por terem engordado, por não conseguirem fazer exercício. Pessoas que sentem necessidade de aprovação dos outros. Sabem?

O difícil é encontrar a paz interior e era precisamente disso que deveríamos andar todas à procura. E não, ela não se encontra nas Redes Sociais. Eu levei cinco anos a encontrar a minha, a estar de pazes feitas com o meu corpo e sentir-me bem na minha pele. O meu corpo é o meu templo e, por isso, cabe-me a mim cuidar dele. Quando o comecei a tratar bem, ele respondeu. Estou em paz e vivo a vida de bem com aquilo que sou, sabendo, todavia, que este trabalho (de autocuidado e de amor próprio) é diário e é feito longe dos holofotes.