Sinto que nos aprisionamos no que tem que ser. Sinto que, à nossa volta, as pessoas se sentem demasiados pressionadas para aquilo que esperam delas. Orientam-nos (e orientamos as gerações seguintes) para termos sucesso (e se possível, sendo melhor que alguém). Mas, calma, um sucesso que se mede pelos parâmetros socialmente aceites. Um sucesso que se prende com uma carreira profissional de topo, com a necessidade de sermos os melhores numa profissão e, muito importante, termos tirado o curso certo para estarmos ali. Não importa se nem sequer pensamos muito bem se é isso que nos traz a verdadeira realização pessoal – que eu penso andarmos todos à procura.

Houve dois momentos na minha vida que me provaram que as pessoas à nossa volta estão mais preocupadas com uma carreira profissional do que propriamente do facto de sermos felizes.

Já viram que mais facilmente perguntamos a alguém se foi promovido ou se mudou de emprego e, tão raras vezes, nos preocupamos em perguntar se estão felizes?

O primeiro momento, foi quando tive que tomar a decisão de tirar uma licença sem vencimento, abandonar tudo e ir para Bruxelas. Para desgosto de muitos, dedicar-me à maternidade a tempo inteiro era preocupante e o que seria da minha independência financeira, por oposição à minha dependência e fragilidade perante uma outra pessoa. E, depois, o que seria de mim, passando os meus dias “apenas” a cuidar de uma criança?

Ninguém me perguntou como me sentia ou como estava a ser acabar de ser mãe (pela primeira vez) e ter uma relação à distância. Ninguém me perguntou se era assim que tinha imaginado viver aquela fase da minha vida, da mesma forma que ninguém me tranquilizou dizendo que, se tivesse que apostar na minha família, aquele seria o momento. Estávamos no início de tudo e, se uma relação à distancia, por si, já é difícil, com um filho – que transforma a vida a dois e a vida de cada um individualmente – seria ainda mais complicado.

Aquilo que mais ouvi foi  o “jamais tomaria uma decisão dessas” ou “quem me tira a minha independência, tira-me tudo” ou o clássio “e se o casamento falhar?”

E eu sei que a maioria dessas pessoas gostava (e gosta) de mim. Sei que não expressaram a sua opinião por maldade, mas condicionaram e, sobretudo, fizeram-me sentir culpada por querer “partir”. As pessoas tendem a desejar o bem que supostamente deve servir para todos, sem que isso não seja de todo linear. É o fruto da sociedade e não pensado para a pessoa em si. É o produto que temos que ser para sermos aceites e válidos nessa sociedade.

O segundo momento foi quando me despedi. E mesmo antes disso, a pressão que sempre senti para regressar ao trabalho, à minha carreira. Teria sido mesmo necessário passar uma semana a chorar, tendo a certeza de que aquela era a decisão certa, mas com medo de a partilhar ao mundo?

Foi mesmo isso que aconteceu. Eu tinha medo de dizer que queria ser feliz porque as pessoas à minha volta só sabem ser felizes com uma carreira de sucesso, um trabalho com um horário definido, com um posto (de trabalho) à sua espera e, muitas vezes, passando os dias sem serem capaz de pensar se serão realmente felizes. Chegarem a casa e, na maioria dos dias, trazer um peso tão grande, não sendo capaz de o largar para dar atenção ao que tem de melhor, para começarem um “novo dia” com a sua família.

A responsabilidade e a identidade de um sujeito não se medem pela sua carreira, assim como outros valores que definam o quanto é profissional, independente e até empreendedor. Talvez isto para mim não seja estranho, os meus amigos de Erasmus – os estrangeiros, não os portugueses – estavam ali a viver uma experiência, a seguir, procuravam correr o mundo, em diversas experiências profissionais antes de regressarem às suas casas. Nós – os portugueses – estávamos ali a fazer carreira, a garantir o lugar na grande empresa que estaria à nossa espera no regresso. Talvez, isso seja exagerado, mas sabemos que ter um fundo de verdade.

Sabemos que avaliamos o sucesso das pessoas que conhecemos pelos empregos que têm e por tudo o que de material têm alcançado. Eu talvez seja um bocadinho de outro mundo, talvez o meu lado aquariano esteja demasiado apurado, talvez seja ingénua e um bocadinho utópica na forma como encaro a vida e o mundo. Contudo, se é graças a isso que a minha vida tem dado tantas voltas e que agora sou feliz, estou grata por sê-lo. Há todo um mundo à nossa espera, há tanta coisa que faz de nós profissionais, tantas formas de descobrirmos talentos e até de sermos bem-sucedidos.

E, no final, esta reaprendizagem de uma nova forma de viver, fez-me compreender que eu preciso de muito pouco para viver e que não tenho medo se a vida der mais umas quantas voltas radicais. Se tiver que recomeçar do zero e reaprender tantas vezes, quantas as que forem precisas, para continuara a ser privilegiada por poder olhar o mundo “do lado fora”, assim farei!

O Vicente tem aulas de skate, para aprender o básico e sentir confiança, são aulas individuais e o houve bastante empatia com o instruto. E, hoje, no final de mais uma aula em que ele conseguiu cativar o Vicente da forma exacta, eu perguntava-lhe se ele era da área de desporto. E a sua resposta, trouxe-me a esta reflexão. Ele dizia-me que, no final do 12º ano, os pais não tinham muitas possibilidades de lhe proporcionar um curso superior. Ele, jogador de futebol a receber “uns trocos” não se importou. Foi trabalhando, quer no futebol, quer com crianças, juntou o seu dinheiro e hoje sim, está a tirar um curso superior.

Não existe uma única formula de sucesso. Não temos que ter todos “berços” de ouro. Nem temos todos que seguir o mesmo caminho. Aquilo que faz de nós bons está aqui… na matéria de que somos feitos e no quanto de nós somos capazes de pôr nas coisas que nos apaixonam.

Bom Fim-de-semana.

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