Digo que é fácil ceder, quando entramos num ciclo que nos vicia e nos torna no produto de uma sociedade de consumo e demasiado material, porque eu sou a prova disso. Vivemos numa sociedade em que o verbo ter assume uma importância colossal, em que disputamos um vestido, se for o caso; em que viramos do avesso tudo o que conseguimos para encontrar aquele brinquedo que os nossos filhos desejam muito; em que o modelo do telefone que usamos importa, para além do seu carácter funcional e da nossa necessidade; em que, por exemplo, comprar um fato de banho que custa mais do que cem euros se torna banal, mesmo que, na vida real, não tenhamos possibilidades para… porém, isso não é relevante na hora em que partilhamos uma fotografia com algo que tantas pessoas desejam. A lista de exemplos é extensa e eu, que para todos os efeitos, sou considerada blogger e que, como qualquer outra blogger, recebo várias coisas de várias marcas para experimentar. É, regra geral, a forma mais imediata de “pagamento” ou de “agradecimento”. Mas esse produto, objecto vem, não raras vezes, acompanhado de uma Pen, de papel, de um saco e de outros elementos de merchadise. E, portanto, também eu acumulo, contra a minha própria vontade, muita coisa.

Debato-me entre o sentimento de “há não vou deitar isto fora” e o de querer focar-me no que é realmente essencial. Naturalmente que sou agradecida pelas coisas que recebo, mas, se valorizo mais algo que é 100% funcional, desde a embalagem ao produto? Sim, sem dúvida alguma, especialmente se não envolver plástico. No fundo, é este o exemplo que quero dar aos meus filhos e isso está acima de qualquer outra coisa.

Para além disso, sei que facilmente perdemos a noção dos limites, sobretudo quando se tratam das crianças. Cedemos aqui e ali e cedemos muito no imediato, pois, se pararmos para pensar na utilidade real de determinadas coisas, não serão precisos muitos segundos para perceber se valerá ou não a pena comprar. É o consumo a toda a hora. E, nesta dinâmica quase inconsciente do nosso dia-a-dia, há muita coisa envolvida. Existe não só a compreensão da necessidade que temos em ter alguma coisa; existe a capacidade de percebermos a motivação para tal e o valor do dinheiro.

E, de há algum tempo para cá, tenho observado muito os meus filhos. Tenho “ganhado” tempo em ver com o que brincam, o que gostam e até de que forma valorizam o que têm. E não gosto, por exemplo, de ouvir o meu filho dizer à irmã que “não há problema, depois compra-se outro”, quando estragam alguma coisa. Isso faz-me pensar seriamente no exemplo que lhes estou a dar, mesmo que inconscientemente e fruto das circunstâncias. Já tinha negociado com o meu marido a troca dos presentes de Natal pela viagem em família, mas estava a parecer-me ter sido pouco.

Durante este tempo, percebi que os meus filhos não brincavam com metade das coisas que tinham, que se interessavam realmente por quatro ou cinco brincadeiras e o resto eram coisas tão banais que ganhavam pó por ninguém lhes mexer. E daí até encher três caixas com brinquedos, dos quais eles nem sentiram falta, foi um instante, ao mesmo tempo que havia em mim, um certo sentimento de liberdade e de saber que estava a fazer o certo. Sentir a casa a esvaziar, descobrir mais espaço, sentir a energia a fluir, não me fizeram arrepender e nem pensar duas vezes. Não quero ser emocional com objectos. Não posso ser!

Para além disso, eu cresci com as brincadeiras fora de casa, os meus pais sempre passearam imenso connosco, tive bicicleta, patins e toda uma série de coisas que faziam de nós crianças aventureiras. Contudo, quando brincava em casa, lembro-me que me bastava a minha caixa da costura, pedaços de tecido e as minhas Barbies. Não tive a casa, não tive o Carro, nem uma série de outras coisas, mas reinventei mil e uma histórias, incluindo carros diferentes e casas variadas, desde a de praia à da montanha. Foi assim que eu cresci e, se na altura, ficava triste porque os meus pais não me oferecerem os bonecos que eu pedia, hoje estou profundamente grata por me terem ensinado o valor das coisas.

Ora, por tudo isto, imaginam os dilemas com que vivo em certas alturas da minha vida, especialmente sendo mãe e percebendo que as crianças de hoje se desenvolvem e crescem num mundo muito mais apelativo e muito mais exigente nesta perspetiva. Depois, em conversa com o Pedro, a pessoa a quem entrego tudo para levar para a Escolinha de Rugby de São João da Talha, fundada por ele e uns amigos para ajudar na integração de crianças carenciadas, perguntava se mochilas e lancheiras eram coisas que pudessem fazer falta. Ao qual ele me responde que sim, pois deixariam de usar sacos de plástico. E o meu cérebro parou naquela informação, naquele fracção de segundos, senti-me fútil, senti que também tinha cedido a uma sociedade de consumo, que também era a mãe que cedia aos caprichos dos filhos, não importa se são maiores ou menores, cedia! E a prova estava diante de mim.

Sai do escritório e corri outras divisões da casa. Abri caixas, armários, tirei tudo e juntei coisas que para mim/nós são tão banais e que acabamos por nem sequer lhes dar o devido valor – por serem de tão fácil acesso, por termos aos “montes” e haver alguém, ao nosso lado, que ainda leva o lanche para a escola num saco de plástico.

O sentimento de desprendimento é revigorante (por oposição ao do consumo). Sou muito mais feliz quando me consigo encontrar comigo, recentrar e não perder de vista quem sou. É normal acumular, é normal achar que precisamos de coisas e tê-las. Tão normal como termos a capacidade de praticar o desapego, de dar a oportunidade ao outro de conhecer um pouco o “luxo”, de ter coisas que os outros têm, de receberem presentes em dias banais do ano ou receber encomendas com novidades para experimentarem.

É tudo normal e aceitável quando contribuímos igualmente para que o ciclo se faça, sem nos fecharmos num estatuto que é efémero, de consumo, e sem nos esquecermos que é preciso saber continuar a viver se um dia não for possível termos tantas coisas.

Comentários

comentários