Hoje sou mãe, mas também sou madrasta. Para a minha filha – entenda-se enteada – hoje sou a outra mãe. Já fui a “boadrasta”, segundo ela, a palavra madrasta é feia e que lhe remete automaticamente a uma conotação malvada – acho que podemos culpar Hollywood e a Disney por isto.

Acho que muitas de vós vão entender quando digo: “Eu tenho dois filhos e não faço qualquer distinção entre eles”. Mas porquê fazer para além da óbvia? Um é menino e bebé, enquanto que a outra é uma menina e pré-adolescente.

Lembro-me de um dia estar com a I e com o N e um conhecido me perguntar: “São os dois teus?”, ao qual, sem pestanejar, eu respondi que sim. Na fracção de segundo seguint,e o meu olhar e o da I cruzaram-se e eu pude ver o verdadeiro amor. Sim, são os dois meus. Acho que o sangue, em matérias de coração, não interessa para nada. 

Eu sou a outra mãe. Vou à reunião de pais, estudo com ela, educo, mimo muito e também ralho quando acho necessário. Serei assim tão diferente das mães biológicas?

Quando começamos uma relação, onde já existe uma criança e com guarda partilhada, adoptamos essa criança como nossa. Acho que é algo tão óbvio que não carece de explicação.

Então qual é o problema? 

Muitas vezes, gostamos de culpar o outro lado. A mãe biológica por assim dizer.

No início, claro que não foi fácil. Mas quem pode julgar a mãe biológica da I? Uma aparente desconhecida a tratar o nosso rebento? Aqui o tempo foi o meu melhor amigo. Isso e a franqueza de uma boa conversa. Expliquei que em momento algum estaria a ocupar o lugar dela, que ela é que era a mãe e que eu era apenas mais uma cuidadora da I. Que a amava como se fosse minha filha, mas que sabia o meu lugar.

Pouco a pouco, as coisas tomaram o rumo certo. Este ano que passou, a I teve o primeiro aniversário em que os pais biológicos estiveram juntos no mesmo espaço. Há reunião entre nós quando o assunto é a I. Também há convívio do bom, há lanches conjuntos, há boas conversas e até recordações.

Hoje em dia, as duas mães são amigas e gosto de pensar que fui uma ponte para um melhor entendimento entre os pais biológicos dela.

A I agora tem uma família linda composta por duas mães, não importa se uma é a madrasta, dois pais e dois irmãos, que convivem em harmonia em prol da sua felicidade e bem-estar.

 


Quero agradecer à Joana por ter partilhar esta história com final feliz, numa situação, por vezes, tão frágil e tão difícil de gerir por todos os que dela fazem parte.

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