Quando não temos filhos e, quando estamos perante famílias com filhos e presenciamos as situações normais, é mais do que natural pensarmos de que forma iríamos reagir, se fosse connosco. É também muito natural que digamos, para nós, que quando chegar a nossa vez, há coisas que jamais iremos fazer ou dizer. Que há comportamentos que reprovamos à partida e que para nós não têm qualquer justificação.

Bom, eu nunca fui muito de tecer ideologias, porque a verdade é que todos temos telhados de vidro e uma coisa é assistir, outra coisa é viver e sentir pessoalmente as situações. Certo? Acho que a maioria de nós já chegou a essa conclusão. E no que toca a filhos rapidamente nos apercebemos que nós pouco mandamos, que o que funciona com um pode não funcionar com o outro, que há mil e uma interferências no nosso raciocínio lógico e que deturpam a nossa capacidade de reacção, nomeadamente a privação do sono e o cansaço extremo.

E para quem não tem filhos, poder ter uma ideia: viver com crianças é viver em constante estado de alerta, ligados 24h por dia, que vivemos situações que nos colocam constantemente à prova, que exigem de nós uma decisão para tomar, que nos colocam perante uma urgência para resolver ou então, o tão comum, factor imprevisto que passa a ser bastante recorrente nas nossas vidas. Uma febre repentina, uma queda, algo que acontece na escola… passamos a não controlar muito bem o dia de amanhã.

Porém, se havia coisa que eu dizia era que discutir por causa de roupa com os meus filhos era simplesmente uma não guerra para travar. Sobretudo porque eu encaro isso como sendo uma forma de afirmação de uma personalidade, dos próprios gostos e estilos pessoais. Sempre disse que os meus filhos poderiam sair de casa da forma como bem entendesse, fosse de galochas no verão ou de chinelos no inverno ou mesmo mascarados. E especialmente, iria deixar fluir e que fossem eles próprios a construir o seu processo de escolha, a forma uma opinião e até conquistarem o seu espaço para manifestarem a sua vontade. Enfim, no meio de tudo o que envolve a maternidade, este parecia-me ser o menor dos problemas com que teria que lidar.

Contudo, há pouco tempo, eu estive bastante próxima de ter um desentendimento com o Vicente por causa de…. roupa! Imaginem uma mãe a engolir o que ela própria disse? Típico, não é verdade?

De forma maioritariamente egoísta, estava a impôr o meu raciocínio e a ditar-lhe a sua própria escolha. Uma escolha que é dele, onde ele sente que pode exercer a sua opinião e a ver reflectida a sua personalidade – uma espécie de causa-consequência. Era o almoço de aniversário do pai e mesmo que fosse algo reservado apenas à família mais próxima, era um dia especial e, por isso, mesmo sem grandes aprumos, todos nós tínhamos escolhido uma roupa mais arranjadinha para a ocasião.

Nesse dia, precisamente nesse dia, o Vicente quis vestir os calções de algodão que leva para a escola com bastante regularidade, diga-se, uma T-shirt nada a ver e ténis nada a ver com nada naquele conjunto. Na cabeça dele havia um motivo: aqueles são os calções com o cumprimento ideal – ligeiramente acima do joelho – a T-shirt era azul, tal como os calções, e os ténis não tinham atacadores, portanto ele não iria precisar de pedir ajuda a ninguém para se despachar. Estava feliz com a sua escolha até que eu chego e estrago tudo. Por instantes, deixei-me levar e deixo-o nervoso e de lágrimas nos olhos…. por causa de roupa!

Quando, por uns breves instantes, tive um momento de lucidez, apercebi-me do efeito que a minha atitude estava a ter nele e parei de imediato. Voltei atrás e disse-lhe que, para mim, o mais importante era que ele se sentisse confortável e feliz com a roupa, fosse ela qual fosse. Se ele tinha escolhido assim, eu iria respeitar. Não foi fácil, porque ele teimava que eu não gostava da roupa que ele tinha escolhido, mas continuei a repetir o mesmo até ele acreditar em mim.

Pensei em como estava a ser egoísta e, ao mesmo tempo, algo tão básica para mim, como ele perceber que deveria vestir o que lhe estava a dizer, teria um impacto tão grande nele. E é pegando neste exemplo, que pode parecer um pouco estúpido, que eu vos digo que ser mãe (e pai) é muito isto. É ter a capacidade de fazer um momento pausa a meio das situações, aquelas em que nos deixamos empolgar pelos nervos ou pelo calor do momento, e, em poucos segundos, analisar tudo aquilo que está a acontecer e quais os impactos das nossas atitudes.

Convivo diariamente com uma criança de cinco anos, que está a evoluir interiormente de forma muito profunda, que está a construir a sua personalidade e que precisa de espaço e compreensão para tal. Como mãe (e pai), é preciso saber escolher muito bem quais a batalhas que valem realmente a pena travar.

Este fim-de-semana prontamente se disponibilizou para vestir a irmã, estava feliz por isso e sentindo realmente que nos iria ajudar a todos. “Mãe, eu posso escolher a roupa se tu quiseres!” e antes que o nervoso miudinho subisse por mim, sorri e disse-lhe que isso seria uma grande ajuda. Escolheu uma saia às bolinhas, uma blusa às riscas e não se esqueceu do tapa fraldas. Estavam ambos extasiados com aquele momento, porquê estragar, não é verdade? 🙂

 

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