Ontem dei por mim a reflectir sobre aquele que é o grande luxo dos dias de hoje. Talvez, porque, na terça-feira, tive mais uma consulta e porque ando determinada em colocar-me na ordem. Ou seja, acho que nunca estive tão preocupada com a minha saúde, ou melhor, nunca andei tão preocupada em ter saúde. E depois de tanto tempo a atribuir uma série de coisas à “fase do pós-parto”, essa é uma desculpa que já não serve. É preciso encontrar as respostas e perceber o que realmente se passa.

Sei que já progredi imenso. Disso não existem dúvidas e o espelho não me deixa mentir. Porém, acima de tudo, eu sinto-me bem por dentro. Já não me sinto em conflito com o meu corpo, não no sentido estético, mas no sentido de não me sentir fisicamente bem. E algumas das coisas que já aconteceram foi ter “sarado” verdadeiramente a minha cicatriz de cesariana – graças à Soraia Coelho – ter deixado de andar inchada e sentir que aquilo que eu como não me causa nenhuma reacção adversa e, também, sentir-me muito mais equilibrada.

Mas… como chegar até aqui? Chegar até aqui quando nem tudo aquilo que nos afecta é detectado através de um exame ou de uma especialidade médica?

O caminho foi longo e não foi linear. Contudo, cheguei até aqui e descobri que o maior luxo dos dias de hoje é poder dormir as horas que precisamos, é deixar que o nosso corpo desligue e se restabeleça, é renovar a nossa energia com uma boa noite de sono. No fundo, dormir! Só isso!

Luxo não é ter muito dinheiro, um bom carro ou coisas caras. Luxo é termos saúde e podermos cuidar dela. Cheguei até aqui e percebi que bati no fundo de tudo com a privação de sono que vivi durante mais de um ano. Até hoje não houve um único medico ou especialista que, após conhecer um pouco do meu historial, não olhasse para mim e me dissesse: “Mas a Vera sabe os efeitos que o facto de não dormir tem, não sabe?”, “Sabe que dormir é fundamental para o equilíbrio físico e mental do ser humano, não sabe?”

Saber, eu até sabia. Porém, não dormir não foi uma opção minha, embora tenha sido bastante doloroso, não vou mentir. Mas fazia parte, era (um mal) necessário, não é verdade? Tinha acabado de ser mãe pela segunda vez, tinha um filho que precisava de mim e outro que dependia de mim, que chamava por mim e que se alimentava muito durante a noite. E a verdade é que, como mães que nos tornamos, isso torna-se a nossa prioridade e encontramos forças onde nem sequer sabíamos que elas existiam. Não o fazemos porque sim, fazemos porque está no nosso instinto. fazemos porque é a nossa cria e todos os nossos sentidos se alteram. Estamos em constante estado de alerta e não voltamos a dormir como antes, isso é certo!

E por muito que fosse, para mim, mais confortável ter uma resposta objectiva – até para, de certa forma, me poder justificar perante os outros – o que de objectivo existe, é apenas porque algo emocional e sentimental não estava bem. E isso não se detecta numa análise, não vem num rastreio. Sente-se cá dentro, manifesta-se nas mais pequenas coisas, deixa-nos confusas e ansiosas por não conseguirmos definir ou adjectivar aquilo que temos.

Dormir é o luxo dos dias de hoje e sermos privados desse luxo, seja pela maternidade ou por qualquer outro motivo, é estar a assumir um risco demasiado elevado para a nossa saúde. É, por exemplo, querer emagrecer e não conseguir, é querer lembrar-se das coisas e sentir a cabeça vazia ou, então, demasiado pesada, é estar descompensada e procurar compensações no exterior, é gritar e sorrir ao mesmo tempo, é deixar de sentir paz e tranquilidade. Entre tantas outras coisas possíveis.

Por algum motivo, a privação do sono era usada como meio de tortura… e as mães, em particular, continuam em tortura, numa tortura que parece ser consentida por todos e desvalorizada, ao mesmo tempo. As mães assumem um papel na sua vida que não lhe deixa cinco minutos para si, porque a cabeça está sempre a organizar e a providenciar alguma coisa, mesmo se fisicamente está longe dos filhos. As mães são forçadas a ser super heroínas, quando, na verdade, são elas que deviam, tal como os seus bebés, ser pegadas ao colo, ser-lhes dado de comer, serem embaladas e deixadas descansar.

O grande luxo dos dias de hoje, é eu poder adormecer com os meus filhos, seja as 21 ou seja às 22 horas da noite e não me preocupar com o que ficou por fazer. Se a mesa não foi levantada, se ficou loiça por lavar ou se, no chão da cozinha, ficaram os bocadinhos de comida atirados para o chão pelos miúdos. O meu luxo é deixar o telemóvel de lado, não pensar nos e-mails que ficaram por responder ou no trabalho que ficou pendente e dormir! Esse é o grande luxo dos dias de hoje.

E como é que cheguei até aqui? Foi a minha necessidade de encontrar paz comigo mesma, de sentir que a forma como eu me sentia, estava a colocar em causa a mãe, a mulher, a amiga, o ser humano que eu sou. Fui eu, que não me resignei às faltas de respostas e às soluções da “moda”. Fui eu que, lá no fundo, nunca deixei de gostar de mim e, por isso, não desisti de trazer o melhor de mim e aquilo que eu sou verdadeiramente cá para fora. E pode mostrá-lo aqueles que me rodeiam. Foi ter a certeza de que “eu não sou assim” e, por isso, não vou desistir.

A gravidez é importante e todos os cuidados devem ser tomados. Certo! Contudo, esta mãe de dois filhos, diz a todos vocês, que estão desse lado, que é no pós-parto que mais atenção e cuidados devem ter com a mulher. O bebé está e estará sempre óptimo. Terá sempre uns braços extra prontos para o receber ao colo, um (ou mais) voluntários para dar banho ou para tomar conta. Enquanto isso, a mãe fica ali perdida entre o cuidar do bebé e o perceber o que acabou de acontecer. E é no dia-a-dia, que em pequenas coisas, se vai apercebendo do verdadeiro impacto daquele momento na sua vida a todos os níveis.

Tenho dito! 😊

Comentários

comentários