Disclamer: já sei que os três e os quatro anos são bem mais desafiantes em termos de birras que os próprios dois anos e que, aos cinco, temos um período de alguma calma, se bem que começamos a lidar com a afirmação da personalidade do nosso filho.

Lembrava-me da crise dos dois anos. Como esquecer, não é verdade? Já vos disse, aliás, que é nessa idade que eu sinto que já não consigo fazer mais sozinha. Assim, é por volta dos dois anos que os meus filhos ingressam na escola. Contudo, o segundo filho vem mais refinado, é mais espevitado, vem com mais confiança que o primeiro, arrisca mais e, é verdade que, sabe que nós cedemos igualmente mais.

No caso da Laura, bom, acho que já conhecem a sua personalidade e o seu temperamento. Algumas de vós inclusivamente escrevem-me dizendo que têm uma “Laurinha” em suas casas. E não seria preciso uma bola de cristal para adivinhar que quando chegasse a sua vez tudo viesse numa escala muito maior. E é mesmo assim. A Laura é a miúda que não obedece a regras – mas sabe que elas existem – e que tem a subtileza para levar as coisas para onde ela quer, que faz “chantagem” ao ponto do meu marido me pedir para ceder – porque o lado dramático de rapariga e um certo jeito teatral, estão lá.

A Laura é a miúda que ainda não sabe contar, mas que já sabe quais os números dos canais de televisão onde dá os desenhos animados. É a miúda determinada em fazer tudo sozinha e, se assim não for, há um drama instalado cá em casa. É aquele tipo de criança que não se deixa ficar, portanto, é aquele género de criança que é muito bem capaz de me envergonhar por aí com algumas das suas reacções. É a miúda que é mais egoísta que o próprio irmão – e que eu achava ter mais motivos para o ser. Mas não, cá em casa, quem briga porque quer tudo para ela, especialmente se forem as coisas do irmão, é ela. É a miúda que, na hora de dormir, exige que a mão que lhe faz as festinhas seja a mão que está com o irmão. É aquela que só pára quando bem entende.

Às vezes sinto não conseguir ser tão rígida com o segundo quanto fui com o primeiro. Sinto que não lhe digo tantas vezes que não e que cedemos mais vezes do que as necessárias.

O meu marido diz que dar-lhe a volta vai ser o grande desafio da sua vida. Mas vá, eu sei que partimos com um filho que era o oposto de tudo o que estou a descrever. A Laura é aquela que faz por ela e pelo irmão. É que entra em casa e deixa um sapato para cada lado, que pinta e cola autocolantes nas paredes e que até com esta história do desfralde, se torna tão teimosa que a coisa só se irá dar quando ela assim o entender. É a miúda que não se penteia e nem deixa secar o cabelo, que anda suja e cheia de nódoas negras. É a miúda que não podemos perder de vista, pois a cabeça dela só está orientada para o perigo.

Depois, obviamente que juntamos todas estas características às da fase dos terríveis dois anos e o panorama é, por vezes, de simplesmente querer sair de cena! Colocar uma pausa no momento e ir fazer outra coisa qualquer. Por esta idade, as crianças são particularmente egocêntricas e não aceitam um não como resposta. Vivem cheias de desejos e de vontades e tentam naturalmente “sacar” tudo o podem dos pais. Contudo, com dois anos ainda não se conseguem expressar devidamente, por isso, as birras se tornam tão comuns. É a forma que encontram para extravasar a sua frustração e, ao mesmo tempo, para chamar a atenção dos pais.

No entanto, deixem-me que vos diga que, nas últimas semanas, noto uma evolução muito grande na fala da Laura e na forma como ela se expressa. Por exemplo, até há poucos dias, chamava o irmão de “tente” e agora já consegue dizer o nome sem dificuldade. Também aprendeu ali umas palavras que lhe dão muito jeito e que usa até à (nossa) exaustão. Imaginem agora uma criança de dois anos a repetir aos gritos “vá lá, mãe” ou, então, “porquê, mãe?” ou ainda “maiiiiis!”. Sem esquecer que há sempre um “não” pronto como resposta. Existem tentativas de boicotar a saída do pai e do irmão todas as manhãs de casa e das idas à casa de banho – momento em que é impossível descontrair. O choro é tão profundo e intenso que não dá para ficar indiferente.

Compensa com a sua boa disposição e o seu carisma. Tem uma personalidade forte e determinada e eu gosto (muito) disso – só espero que use esses trunfos no bom sentido e a seu favor. O Vicente cresce e naturalmente que eu já olho para a Laura e imagino como será a sua evolução e os desafios com que me irei deparar. Por vezes, fico com dúvidas sobre este importante papel que temos que desempenhar: o de educar. E com isso, cresce ainda mais o respeito pelos meus pais, da mesma forma, que conseguimos olhar para as situações da nossa juventude com outros olhos. Conseguimos perceber que nem sempre temos a razão que achamos ter. Mas acho que isso faz parte e que é assim com todos nós, filhos e pais.

Importam-me os meus filhos. Importa-me saber educá-los da forma que nós achamos ser a mais correcta, mas sempre com algo muito presente na minha cabeça: “nunca digas nunca”. Pois, nisto de educar os filhos, a percentagem que nós “controlamos” é muito pequena face aquilo que eles representam no seu todo. Não posso dizer que o meu filho nunca irá fumar, ou que nunca irá apanhar uma bebedeira e o mesmo se aplica a todas as coisas que nos possam passar pela cabeça. Espero somente conseguir orienta-los no caminho certe e deixar as bases certas para que nas encruzilhadas da vida, eles acabem sempre por encontrar o caminho certo, não importa as voltas que tenham que dar. 

Caraças! Que isto de ser mãe (e pai) só agora está a começar!

 

 


A foto de capa é do nosso fim-de-semana (com cheirinho a verão) passado no Aquashow Park Hotel.

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