Só conheço a realidade do abuso de poder e do bullying no trabalho, mas acredito que, para todos aqueles que sofrem situações de abuso, seja difícil ultrapassar, esquecer ou até olhar para nós sem nos atribuir alguma culpa.

Levei dois anos até conseguir “classificar” as situações que vivia com a minha chefia. Na minha cabeça, o problema era eu, que personificava a velha máxima de “passar de bestial a besta num ápice”. Mas a verdade é que, após a faculdade e quando tive que me fazer à vida, segui por caminhos que não dominava, mas que para mim eram sempre oportunidades de crescimento pessoal e profissional. Tenho esta facilidade em ver sempre o lado bom em tudo. Afinal, a alternativa era viver frustrada por não ter seguido a área que realmente me apaixona – mal sabia eu que a recompensa viria mais tarde. Nunca disse que não sabia, nunca me recusei e tentei sempre dar mais do que o esperado. Esforçara-me, procurara informação, porque eu tenho brio profissional e quero ser reconhecida pela qualidade do meu trabalho em qualquer que seja a área.

Porém, não era esperado que no “auge da minha promissora carreira profissional” – como muitos me tentavam convencer na altura – eu desistisse de tudo sem ter um plano B. Esse foi o preço da minha liberdade, despedir-me e, o dia em que entreguei a carta, foi dos únicos dias em que não senti medo, em que não estava a tremer, em que não me senti numa posição de inferioridade. Senti-me tão leve que era capaz de voar, as lágrimas caíram-me dos olhos de felicidade… pela primeira vez dentro daquela instituição.

Para quem sofre bullying é difícil não se culpar a si mesmo. E com o tempo entramos numa espiral que se vira contra nós. A tristeza muda-nos o humor, o desalento tira-nos a motivação para trabalhar e uma certa vergonha coloca o nosso olhar no chão, como se tentássemos ser invisíveis para todos.

Até hoje é -me difícil encontrar as causas para tudo isto. Perceber de onde veio. E foram precisos dois anos, o tempo que vivi em Bruxelas, para conseguir alguma clarividência e olhar com alguma distância sobre tudo. Revivi as situações mais marcantes na minha cabeça tantas vezes até perceber que a culpa não era minha. E que, mesmo longe e numa licença sem vencimento, eu continuava a ser um problema para aquela chefia e para aquela instituição.

Eu, a rapariga que estava há menos tempo na instituição, sem perspetivas de evoluir, sem oportunidades para mudar, com um ordenado inferior aos de todos, a viver num T0 alugado, com um carro herdado da minha mãe, o que eu tinha que pudesse representar um problema para aquelas pessoas? Não sei dar respostas, mas sei que a culpa não estava em mim. Sei agora, porque todos os dias vivi com o medo dentro de mim. Medo quando, ao fim do dia, regressava a casa, e no dia seguinte fosse chamada a atenção. Medo que à mínima falha eu fosse jogada às feras, sem apoio de ninguém.

Ouvi muitas atrocidades, desde que teria que lidar com “casco (de cavalo)”, até receber conselhos para mudar a cor do meu cabelo – afinal, uma loira chama muito a atenção – ou ainda um inofensivo “tu não tens culpa da forma como andas e sorris”. Dias, semanas, anos, até que engravidei do Vicente e acharam por bem que seria eu a pessoa indicada para mudar caixas nos arquivos. Eu não prestava, não tinha qualquer valor e senti verdadeiramente que não era suficiente. Não houve auto-estima que resistisse, nem capacidade para encarar as pessoas nos olhos. Era jovem, tinha vinte e cinco anos, “cresci ali” até aos 30. Tentando ser o mais transparente (para os outros) possível, o mais institucional possível, na tentativa que as pessoas não gostassem de mim, para que não tivesse que ouvir mais comentários sobre o meu suposto efeito nos outros.

Despedir-me foi de coragem, é verdade, mas era a minha única alternativa. Chorei dias seguidos até pedir a compreensão do meu marido para a única decisão possível, pois eu não queria voltar a ser uma pessoa triste e deprimida. Não tinha sido essa a mãe que os meus filhos tinham conhecido, eu própria tinha-me descoberto, tinha voltado a gostar de mim e acreditar no meu valor.

Ainda assim, hoje em dia, as marcas do bullying que sofri estão cá. As fragilidades ficaram e a talvez por isso, eu sinta que tenha que dar sempre 200% em tudo o que faço. Talvez por isso sinta que tenha que provar mais do que os outros. Os efeitos vivo-os no dia-a-dia, quando nas várias relações profissionais que estabeleço, o medo continua lá. O medo de ser chamada a atenção, o medo de não fazer um bom trabalho, o medo de falhar. O medo! Não consigo evitar ficar nervosa com as mensagens e os telefonemas, pois o meu instinto é achar vou ser chamada à atenção por ter feito algo de errado. Há uma vozinha irritante cá dentro que tenta pôr-me para baixo, que me diz que o que tenho já suficiente, para não esperar mais ou que não irei mais longe nem terei mais do que tenho actualmente.

Há um trabalho diário de acreditar em mim, de força interior e de motivação porque eu não sei se os efeitos de situações de abuso ou de bullying algum dia serão esquecidos. Mas sei que a cada oportunidade profissional que tenho, ficou uma fraqueza que nem sempre está a meu favor.

E não, a chefia não eram homens, mas sim mulheres! Eram as mulheres a mostrar o que pior têm dentro delas e o mal que podem fazem umas às outras. Bullying puro! Contudo, todo o mal que tentaram fazer, foi a força que eu usei para remar num outro sentido. É a força que tenho hoje para fazer o que faço, para conseguir ser independentemente financeiramente e para não desistir dos meus sonhos. A minha carreira profissional não acabou ali, como muitos pensaram, ela estava apenas a começar.

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