Existem fins-de-semana em que eu verdadeiramente mal dou por eles passarem. Nem sempre é possível ir simplesmente para a rua, nem sempre temos a mesma energia e, às vezes, temos outros compromissos… normalmente relacionados com as responsabilidades da vida adulta. Entenderão aquilo que quero dizer, certamente.

E é por esse mesmo motivo, que sinto que vivo num dilema com os fins-de-semana, dominada por sentimentos e vontades contraditórias. Por um lado, o querer aproveitar esses dois dias preenchendo-os com programas e saídas em família, passando o maior tempo possível na rua, apanhar os programas mais porreiros, ir aos jardins mais cool da cidade, ir ao brunch e tudo o resto que nos passar pela cabeça. E, por outro, tenho em mim, não raras vezes, a simples vontade de querer somente abrandar o ritmo nesses dois dias e viver devagar. E isso é algo que implica necessariamente o não sobrecarregar o sábado e o domingo com programas e compromissos, implica conseguir fazer aquilo que realmente queremos e não aquilo que achamos que devemos fazer.

E eu considero-me uma pessoa enérgica por natureza. Eu sou aquela pessoa que acha que o cansaço do fim-de-semana, resultante dos passeios e das saídas, compensa quando se chega ao domingo à noite. Eu sou aquela pessoa que tem sempre uma ideia ou um programa para sugerir e que leva a família toda a atrás. Contudo, sou apenas uma pessoa a quem essa energia também falta, a pessoa que gosta de ter a sua casa em controlo e que também não gosta de iniciar a semana com a casa em estado caótico porque isso, de certa forma, parece bloquear as boas energias para a nova semana. Sou igualmente aquela pessoa que também entra em saturação, que também se aborrece, porque desde que acorda – logo pelas sete da manhã – não pára um minuto à conta da energia inesgotável das crianças e para quem o programa ideal seria apenas o sofá, a televisão e nada mais.

E a verdade é que não quero viver constantemente pressionada com o que é suposto fazer, com o onde é suposto ir e com o que é suposto partilhar. Quero conseguir encontrar o equilíbrio que me permite ficar em casa – e talvez seja da idade, mas sinto necessidade de descansar e de parar realmente. Quero conseguir viver dois dias em que me deixe dominar pela vontade de ficar no sofá, aceitando-o sem peso na consciência, porque quando chegar à segunda-feira logo entraremos novamente no ritmo de todos os dias e de todas as semanas. Quero legitimar que, não havendo vontade para cozinhar, encomenda-se uma pizza e todos ficam contentes ou, então, que se nos apetecer passar parte do nosso fim-de-semana indo ao ginásio, não ficamos com peso na consciência, pois deveríamos estar com os miúdos num programa qualquer… E por aí fora.

Mas a verdade é que acabamos por andar sempre a correr de um lado para o outro, seja durante a semana, seja ao fim-de-semana. A verdade é que sinto o tempo a passar demasiado rápido – ou isso, ou começo a sentir verdadeiramente o peso da idade – e que quero levar as coisas com menos pressão em tudo. Menos pressão com os meus filhos, menos pressão comigo, menos imposição com a minha perfeição, mais valorização do tempo de qualidade e do tempo que temos para nós.

Durante muito tempo, vivi para trabalhar e vivia a minha vida nos tempos livres. Muito poucos, diga-se, pois, a pressão dos horários de trabalho – mesmo não sendo esse um sinónimo de produtividade – é gigante. Durante muito tempo, nem sequer pensava em gastar dinheiro com a roupa para o fim-de-semana, dado que a maior parte do meu tempo era passado no trabalho… a trabalhar. Todos os dias, entrava muito cedo e saía muito tarde. Durante o fim-de-semana queria descansar e ao domingo à tarde já estava com depressão com a iminência da segunda-feira.

E hoje falava com uma amiga, que anda a procura de casa precisamente para ganhar qualidade de vida. Porém, em virtude da crise imobiliária – ou melhor, do ridiculamente caro que se tornou o custo de vida em Lisboa – terá que fazer um considerável downgrade no espaço e na comodidade. E, no final, chegávamos à conclusão que isso seria algo que viria a recuperar em qualidade de vida que agora não tinha. Nomeadamente, iria deixar de passar diariamente duas horas no trânsito e iria deixar de precisar constantemente de uma rede vasta de apoio para os filhos.

Estive dois anos a reflectir sobre tudo isto. Eu sei que, de certa forma, fui uma privilegiada, mas simplesmente o fui ao ter ganho tempo para pensar na minha vida! Algo a que somos forçados a deixar para segundo plano, porque outras responsabilidades e falta de tempo se sobrepõem a tudo o resto. E sei que temos muitas responsabilidades, demasiadas até, das quais não nos podemos alienar. Contudo, eu sei igualmente que não somos apenas trabalho, aprendi que o dinheiro é um bem/recurso utilitário na nossa vida, um veículo para… mas que a minha realização e a minha felicidade não advêm necessariamente daí. Abdiquei de um vencimento certo ao final do mês e reorganizei a minha vida (pessoal) toda. E acreditem que o pouco dinheiro que tinha, adquiriu todo um outro valor e eu era feliz com coisas que dinheiro algum compraria.

Muitos vão pensar que estou a filosofar, podem até pensar que digo isto porque a outra parte do agregado familiar tinha possibilidade de “alinhar”. Verdade! Porém, nada foi isento de esforço, de reposicionamento na vida, de aprendizagem e de encontro com uma nova forma de estar, sim, e muito mais desprendida do material e concentrada no valor das coisas e das pessoas.

Nunca poderei jamais esquecer que uma das coisas que me fez chegar até aqui foi o lutar por conseguir ter o meu tempo, foi ter escolhido acompanhar os meus filhos, foi ter arriscado em mudar de vida e foi ter-me adaptado a essa mudança, fazendo dela um projecto de vida com valor e substância.

E o porquê de tudo isto logo agora? Porque hoje é segunda-feira e porque cada semana que se inicia pode simbolizar uma nova oportunidade para as mudanças que queremos e para nos aproximarmos dos sonhos que temos. E que o tempo de qualidade não se resuma apenas aos fins-de-semana… Concordam?

Boa semana!

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