No dia da mãe publiquei, no meu perfil de Instagram, uma fotografia minha com o Vicente e a Laura, com a seguinte legenda: Isto é o AMOR (e a entrar numa fase de cruzeiro na maternidade, mais tranquila e mais serena).

E alguns dos comentários à fotografia foram, por um lado:

Parabéns! Também espero alcançar essa fase… mais ou menos com que idades?

E, por outro, alguém escrevia:

“Que engraçado também sinto de forma tão clara as fases da maternidade! Importante é tomar consciência de cada uma dessas fases porque há algumas bem difíceis…”

E, na verdade, não podia estar mais de acordo. É um pouco aquela mesma (minha) conversa acerta das fases da vida: aceitá-las, aprender com elas, sem esquecer que “não há mal que para sempre dure”. E que isso nos ensine a dar o devido valor, quando depois, estamos a experienciar uma fase boa. Na maternidade é igualmente assim, andamos sempre numa montanha russa, sempre a aprender com cada fase, com cada filho e parece que as lições aprendidas expiram sucessivamente à medida que os nossos filhos vão crescendo.

Foi assim na passagem do meu primeiro para o segundo filho, em que andei praticamente dois anos a sentir-me perdida e a ter que (re)aprender tudo praticamente como se fosse a primeira vez. Incluir mais um filho na rotina é exigente e desafiante, mais ainda se o filho seguinte desafiar tudo aquilo que somos e tudo aquilo que temos à nossa volta e que parecia já tão estável.  Foram dois anos de constante reposicionamento, de avanços e de recuos, de medos e de ansiedade e praticamente sem dormir. Mas atenção, pois ser mãe é saber que nada do pior que nos possa acontecer coloca em causa o lado bom. Esse é sempre soberano.

Porém, neste momento, sinto que as coisas estão, aos poucos, a mudar. Por um lado, sinto-me a sair da bolha de quem tem bebés, de quem vive com as limitações normais de quem tem filhos pequenos, da exigência e do trabalho que dá. Por outro lado, tenho um filho mais velho, com cinco anos, que está numa fase completamente diferente, que deixou de ser uma criança pequenina para ser uma criança-rapazinho. As conversas, as ajudas, a maneira como podemos contar com ele e a forma como nos faz companhia e preenche os nossos dias onde quer que estejamos, é entrar num mundo novo e igualmente apaixonante. Tenho vontade de descobrir mais e mais deste “novo” Vicente, vontade de conversar com ele e de fazer coisas com ele. E, por fim, enquanto irmãos acontece um novo desabrochar, com os momentos de tensão normais à mesma, mas aquilo que me deixa completamente derretida e com a certeza de que me iria arrepender profundamente de não ter um segundo filho, é uma cumplicidade diária entre eles em crescimento.

São notáveis o amor e o carinho que sentem um pelo outro, as conversas que têm, a forma como se protegem e como se entreajudam. A meiguice do Vicente e a adoração da Laura, há momentos em que se cuidam tão bem que até parece que nem precisam mais de mim. É amor que adoça o meu coração todos os dias e que tem contribuindo muito para o meu bem-estar.

Esta é a parte tranquila a que me referia. A velocidade de cruzeiro, prende-se com o facto de ser tudo mais fácil e menos exigente fisicamente. É mais fácil fazer um pedido e ser compreendida por ambos, é mais fácil que eles façam coisas sozinhos, é mais fácil na hora da refeição, é mais fácil na hora de sair de casa, é mais fácil no banho. Tudo se está a tornar mais fácil, mais colaborativo, mais harmonioso, mesmo que outras fases e outros dilemas se avizinhem.

Ainda assim, agora, o que mais quero é curtir esta fase mais calma da maternidade. Quero “descansar” e ganhar forças e energias para as seguintes. Quero namorar os meus filhos e, ao mesmo tempo, gozar de alguma liberdade que esta fase igualmente nos traz e quero usar tudo isso a favor da nossa vida em família e da nossa união. O próximo ano é o último do Vicente na pré-escola e será o primeiro da Laura na pré-escola, serão novas fases para ambos. Sei, pela experiência das minha amigas, que, a partir do momento em que entram na escola primária, o tempo e o crescimento deles consegue ser ainda mais veloz. Por isso, sei que me vai dar nostalgia e que, nessa altura, até posso vir a pensar num terceiro filho. O tal número mágico que idealmente e antes de saber o quão difícil e trabalhoso tudo isto é, eu tinha na minha cabeça. Sim, retraio-me talvez egoisticamente – e também financeiramente, claro – porque quero outros desafios, quero gozar desta maior liberdade de movimentos para todos nós, quero que a parte física abrande, a fase do “pega aqui”, “dá ali”, “apanha acolá”, etc, etc, etc…

É bom que as mães aprendem a olhar para a maternidade de uma perspetiva mais global, que aproveitem todos os lados e de todos os ângulos, que aprendam com as coisas menos boas, mas que saibam igualmente aproveitar as que são realmente boas, sem peso na consciência e sem remorsos. A maternidade é algo muito mais ampla do que apenas o universo dos filhos, é também muito sobre a nova versão que as mulheres descobrem de si próprias e como aprendem a dar volta e a se reinventar a partir dali.

Os primeiros anos, mais exactamente os primeiros dois anos, são duros e muito exigentes fisicamente para os pais. Entramos em desgaste pessoal, a relação com o nosso parceiro sofre com isso, é tudo tão bom, mas parece também tão difícil encaixar a nossa vida mais um filho e seguir em frente, sem que antes não pareça o caos. Contudo, é importante não perder isso de vista e não deixar de encarar a maternidade como uma sequência de muitas fases e com a certeza que todas elas passam demasiado rápido.

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