Uma pessoa é operada a um joelho e a seguir é-lhe indicado que deve fazer fisioterapia. Uma mulher faz uma cesariana e, se a cicatriz não tem sinais de infecção, é-lhe dito para seguir a sua vida e aproveitar ao máximo o seu bebé. Isto não pode estar certo quando a cesariana é uma cirurgia e não pode estar certo quando também exige cuidados específicos a seguir.

No entanto, nada disto me incomodava ou seria assunto se, desde há cinco anos atrás, não andasse a descobrir uma série de efeitos secundários devido à minha cesariana. A minha obstetra tirou-me os pontos e disse-me que estava tudo óptimo e que a cicatriz estava linda. Mas a verdade é que durante três anos, ela nunca desapareceu, nunca deixou de estar grossa, nunca deixou de ficar arrepanhada de um dos lados e a minha barriga nunca mais foi a mesma. E não, não era apenas uma coisa estética e não eram apenas coisas da minha cabeça.

E, se hoje em dia, a minha cicatriz está praticamente impercetível, é porque há dois anos atrás alguém olhou para mim com olhos de ver e alguém se importou com as coisas que eu dizia. E esse alguém foi a fisioterapeuta Soraia Coelho. Foi ela a primeira pessoa a quem as minhas queixas faziam todas parte de um mesmo problema, problema esse que tinha ficado por resolver há três anos atrás quando tive o meu primeiro filho de cesariana.

Felizmente, nem todos os casos são iguais. Felizmente nem para todas as mulheres a cesariana é motivo de trauma, é algo doloroso e algo que deixa marcas. Ainda assim, há mulheres que devem estar atentas e devem ser informadas da eventual necessidade de uma recuperação específica para que implicações a nível de saúde sejam evitadas.

Três anos após a minha cesariana, era este o cenário: 

Cicatriz com aderência à parede da musculatura abdominal, fáscia uterina e intestinal, provocando uma obstipação crónica. Barriga com sinais de desprogramação abdominal, diminuição do tónus abdominal, sinais de diminuição de colagéneo (pele seca) e ptsore umbilical (queda do umbigo). Escrevia a fisioterapeuta Soraia Coelho no meu relatório.

Esta semana tinha marcada uma consulta com um fisioterapeuta especialista para me ajudar com a minha subluxação da mandíbula. E esse fisioterapeuta, antes de qualquer coisa, quis saber toda a minha história para conseguir aferir se o que me tinha acontecido tinha sido apenas devido a extracção do dente do siso ou se haveria já algum problema para trás que, com o trauma daquela cirurgia, tivesse sido despoletado. A seguir fiz uma série de exercícios. Estive lá cerca de uma hora, tempo em que estive a descobrir o que se passava com o meu corpo e a perceber de onde vinham os meus problemas.

E se vos disser que a subluxação da mandíbula também é culpa da cesariana? Rir-se-ão, talvez, vão dizer que não estou bem. Eu talvez tivesse a mesma reacção se tudo isto não se passasse efectivamente comigo. Mas sabem? Com o facto de deixar de conseguir fazer força com o abdominal, porque estava – digamos assim – desprogramado, o meu corpo arranjou forma de ir buscar força a outro lado e assim continuar a funcionar. O meu corpo foi buscar força ao meu maxilar que começou a andar sempre em tensão e a minha própria resistência muscular estava assim camuflada.

Descobri igualmente que há uma coisa tão simples quanto respirar para a cicatriz e dessa forma estamos a soltar as fáscias e a permitir a nossa boa recuperação. Não imaginam o que tenho descoberto sobre o meu corpo nos últimos dois anos. Não imaginam as voltas que tenho dado para encontrar as respostas certas e para que eu consiga encontrar-me e conectar-me com o meu corpo a sério.

Volto a trocar neste assunto, pois ninguém nos avisa de nada disto. Ninguém diz a uma mulher para, a seguir ao parto, procurar ajuda para a recuperação do pavimento pélvico ou mesmo de uma cesariana. A mulher que acaba de parir é lançada às feras e quase que obrigada a deixar o seu corpo para segundo plano, ao mesmo tempo que se tenta convencer de que é tudo normal. Que depois de ter um filho não pode exigir que o seu corpo volte ao que era antes.

Contudo, a verdade é que todas as nossas queixas são válidas e tudo aquilo que nos incomoda é relevante. A verdade é que ainda há muito por fazer no que toca à saúde da mulher e a humanização que pedimos para o momento do parto, deve-se aplicar também à mulher, cujo corpo acabou de ser exposto a um esforço muito grande, seja em parto natural, seja em cesariana.

Porque é que quando partimos um pé somos encaminhados para a fisioterapia e porque é que passamos por uma cesariana continuamos a nossa vida como se nada fosse? Este procedimento médico continua a ter os riscos de qualquer outra cirurgia, continua a exigir cuidados de especialistas, continua a ser importante informar a mulher de tudo aquilo pelo qual o seu corpo passou.

Volto a deixar aqui o alerta! Se sentem que algo não está bem com o vosso corpo, não importam há quanto tempo foram mães, se sentem que alguma coisa não ficou como antes, peçam ajuda, procurem especialistas. O nosso corpo é uma máquina que arranja sempre formas de compensação. No entanto, nem sempre são as mais benéficas para nós.

O meu corpo encontrou as suas formas de compensação, continuou a sua vidinha e a funcionar aparentemente de forma normal. Mas só aparentemente, uma vez que no dia em que foi exposto a uma situação de risco, o ponto fraco estava lá e as consequências estão agora a vista.

Felizmente, sou teimosa o suficiente para não desistir e, acima de tudo, tenho que agradecer pelos profissionais de saúde que tenho conhecido e que me têm ajudado a ultrapassar tudo isto. E o meu desejo é que, num futuro muito próximo, estas especialidades possam andar de mãos dadas com a obstetrícia e que a recuperação pós-parto seja encarada com a importância e seriedade que lhe é devida.

 

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