Hoje, Dia da Mulher, escrevo para a minha filha, para que ela saiba que pode ser quem ela quiser. Escrevo-lhe para lhe dizer que não espere nada dos outros, sem antes acreditar nela própria, porque as mulheres são as primeiras a atraiçoarem-se e dos homens não se esperam certezas. Escrevo-lhe para lhe dizer que não existem barreiras nem entraves aos seus sonhos e que não tem que ir para o lado da maioria. E que ser mulher é incrível, sim, mas para isso é preciso trabalhar muito, é preciso conhecer-se até ao mais ínfimo detalhe e que a beleza é uma coisa que vem de dentro e não de fora. Que não desista até encontrar a sua luz, até chegar onde é feliz, mesmo que ser feliz seja um conjunto de momentos e não um estado pleno e absoluto.

Quero muito que ela saiba que a mãe que lhe escreve, no dia em que decidiu procurar ser feliz, a sua vida mudou por completo. Que no dia em se libertou das amarras e que se deu uma oportunidade de… tentar, tudo se transformou para melhor. E que esse foi um caminho que fez sozinha para que a sua perseverança não fosse afectada pelos comentários dos outros.

E hoje, o Dia Internacional da Mulher, e que fazemos bandeira de que as mulheres suportam as outras mulheres, deixem-me que vos conte uma pequena história. Quando fiz a minha entrevista para ficar efectiva, perante três pessoas, dois homens e uma mulher, tive que ouvir literalmente que “deveria lidar com casco (dos cavalos)” e que “era uma pessoa habituada a andar nas palminhas”. A mulher que estava presente ficou calada do início ao fim. Do elevador até à porta de casa, chorei o tempo todo, irritada comigo porque não tinha conseguido responder à única pergunta de trabalho que tinha sido feita e deixada para o final.

Nessa mesma altura, também me lembro da minha chefe aconselhar-me a mudar a minha cor cabelo – afinal, ser loira chama muito a atenção. Ela era casada, sabia como eram os homens. Mas, para além disso, eu também não tinha a culpa da forma como andava ou sorria.

Ninguém entendeu o porquê da minha decisão em rescindir o meu contrato. Acharam até que eu era uma fraca, tão nova e a largar uma carreira. Ninguém entende até chegar a sua vez, até ao ponto de se odiar a si mesma e de não aguentar ver-se ao espelho. Nesse dia e no dia em que pára para pensar, porque na sua vida surgue um motivo maior para viver, um filho, nesse dia essa rapariga jovem e com uma vida pela frente, percebe que a vida não se resume a um estado depressivo e a um conformismo.

Quando fui entregar a minha carta de demissão ainda ouvi que “pessoas como eu incomodam, porque tem demasiado mundo dentro delas”. Com efeito, por mais que eu me esforçasse nunca iria ter oportunidade de crescer ou de evoluir na minha carreira.

Durante o tempo em gozei da minha licença sem vencimento – e que tinha acabado se ser mãe – eram as mulheres que me perguntavam constantemente quando voltava ao trabalho. Durante muito tempo sei que pensavam que eu poderia virar sopeira ou que ficaria em casa de braços cruzados, porque, afinal, não se faz nada em casa e com filhos menos ainda. Também achavam que o meu marido era rico, afinal, só assim é que uma pessoa pensa em fazer o que fiz.

Quando me despedi, tinha já eu este projecto em crescimento, perguntavam constantemente o que iria fazer a seguir. Mulheres/amigas chegavam inclusivamente a perguntar se recebia dinheiro – quem é que pergunta a outra pessoa quanto é que recebe? – e ainda franzem o sobrolho quando digo que estou cheia de trabalho. Sabem, às vezes sinto que estamos todos à espera de ver o insucesso do outro.

Portanto, quando acham que tive sorte, desenganem-se. Por muito que vos custe a acreditar, eu trabalho muito, mas essencialmente fiz um trabalho interior para aprender a desligar-me dos comentários tóxicos, do preconceito e da mesquinhez. Tive que aprender a encontrar a minha “tribo”, pessoas que são como eu. Hoje em dia, eu trabalho muito mais, reinvento-me todos os dias, vou à luta, porque não há segurança e nem certezas quanto ao dia de amanhã. Contudo, isso fez-me dar mais valor às coisas e a mim. Descubro talentos que desconhecia, cruzo-me com pessoas incríveis e sou praticamente dona e senhora do meu tempo – mesmo que isso, por vezes, se vira contra nós.

Para mim, aquilo que caracteriza a mulher nos dias de hoje é que ela anda sempre para a frente. Sozinha ou acompanhada. Com mais ou menos dificuldades. A mulher anda sempre para a frente e não se prende a estereótipos. Se querem uma mensagem para o Dia da Mulher, será esta.

Por isso escrevo à minha filha, para que ela se envolva por causas e não por coisas materiais, para que ela perceba que não precisa de ajuda de ninguém e que sim, vai ter medo, porém a balança vai pender sempre mais para o outro lado, o da força. Mas atenção… não precisar de ajuda não significa estar sozinha. Ela vai precisa de atenção e de carinho e se alguém se oferecer para lhe abrir a porta, que ela aceite.

Feliz Dia da Mulher!

Espero muito que estejemos a construir um lugar melhor para as nossas filhas e que, nessa altura, já nem seja preciso usar o hastag #womensupportwomen, porque vai ser, de facto, uma realidade.

 

Há um ano atrás escrevia assim: Mulher, tenho alguns recados para ti

 

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