Depois de uma noite complicada com o Vicente – que, de vez em quando, tem uns episódios de febre durante a noite e, desta vez, com fortes dores de barriga – optei por deixá-lo ficar em casa. Mesmo que estivesse aparentemente bem, não tinha dormido o suficiente, estava cansado e, felizmente, o Vicente tem essa possibilidade. Seja com febre, seja por má disposição, seja por dormir pouco, seja com tosse, seja qual for o motivo que não o faça estar 100% bem ou que nos obrigue a dar medicação sem real necessidade, o Vicente tem a possibilidade de ficar em casa. Acho que é um bem que fazemos simultaneamente a ele e à escola. Afinal, é menos uma criança com vírus que lá está a contaminar os restantes coleguinhas.

No entanto, sempre que isso acontece, eu acabo por ter que dar uma volta de 360º graus ao meu dia. Perante o imprevisto, tenho que me adaptar para que tudo o resto se mantenha inalterado. Aparentemente, algo simples e fácil, porque se todos sabem que eu trabalho em casa, esse, ao contrário dos outros trabalhos, parece ser maleável, ajustável, podendo esperar! Muitas vezes, acho que ninguém sequer se dá ao trabalho de compreender sobre o que realmente está a falar, para dar a entender (a pessoas como eu), que é nos trabalhos convencionais, em que a pessoa sai de casa para ir trabalhar, que existem compromissos inadiáveis, problemas para resolver, reuniões urgentes e muita coisa que não pode esperar.

Para além disso, como foi esta a minha decisão, parece que estou proibida de expressar qualquer sentimento menos efusivo, se tenho trabalho, não me posso queixar! Não concordo, mas no limite, se eu não me posso queixar, porque é que tenho que ouvir constantemente o queixume de comuns mortais? Afinal, se é de ter (ou não) trabalho que se trata, não entendo porque o vosso lamento seja mais legítimo do que o meu?

Não gostam de ser interrompidos a meio de uma coisa urgente, pois não? Pois, eu também não!

Não gostam que estejam a falar com vocês enquanto estão a receber uma chamada de trabalho, pois não? Pois, eu também não!

Muitas vezes, ficam até mais tarde para resolver coisas inadiáveis, não é? Pois, eu também!

Eu que, durante um dia, não me abstraio de todos os outros papéis que desempenho, que não deixo de providenciar o jantar, de ir buscar o filho à escola, resolvo todas as outras urgências. Inevitavelmente, cai sobre mim a responsabilidade de acudir os recados, como tenho flexibilidade de horários. É verdade sim, mas é uma flexibilidade enganadora, é uma condição que faz com que durma três horas por noite, que ande sempre agarrada ao telemóvel e que não tenha fronteira.

E, em dias como o de hoje, em que vejo tudo virado do avesso e em que não encontro alternativa senão aceitar e encaixar, que penso que ainda temos um longo caminho a fazer na aceitação e no respeito pela liberdade individual de cada um. Claro que sou muito mais feliz hoje em dia, claro que me sinto uma pessoa mais realizada e até útil na sociedade. No entanto, em contrapartida, sinto que perdi muito o respeito por essa individualidade, sinto que expressar um tão comum “estou cansada”, “tenho muito trabalho”, “preciso de silêncio”, “preciso de estar sozinha”, é quase olhado de lado, é mal interpretado e quase julgado.

Existe um mundo de oportunidades à nossa volta e existem tantas pessoas que vivem frustradas, presas, deprimidas, em trabalhos com os quais não se identificam, com os quais se sentem diminuídas e sem qualquer horizonte de realização. Pessoas que trazem esses sentimentos ao fim do dia para junto das famílias, que vão buscar os filhos fora de horas à escola. Pessoas que vivem esmagadas contra o tempo, sem a correr de um lado para o outro.

Acredito que estamos a caminhar para uma mudança, vejo cada vez mais mulheres empreendedoras à minha volta, cheias de garra e de sucesso, mas é preciso mudar mentalidades. É preciso respeitar quem muda, sem lhe retirar os direitos que continuam a ter, sem lhes retirar as condições que precisam para se realizarem pessoalmente.

São 21h45 e o meu dia de trabalho vai a meio! O Vicente quis que fosse eu a deitá-lo, a Laura também quis que fosse eu a mudar a fralda. Durante o dia, os dois quiserem estar comigo e eu não lhes podia fechar a porta, porque eles simplesmente não entendem. Mas agora, vou terminar aquilo que ficou por fazer ainda do dia de hoje.

Fica o desabafo! E não, não entendam como uma queixa, mas antes como um pedido para que se mudem as mentalidades!

trabalhar em casa

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