O balanço deste fim-de-semana é perceber uma das grandes alterações que a maternidade traz à nossa vida é que quando a mãe fica doente isso se torna completamente relativo. E é por isso que, quando tenho algo a impedir-me de estar bem, eu fico tão irritada. E a alternativa é só uma: aguentar e tentar estar o melhor possível para que isso não interfira com o nosso dia-a-dia. Os outros vão estar bem e, assim, também eu vou estar bem. Não sei se me faço entender neste raciocínio, mas digam-me vocês!

Na sexta-feira passada fui tirar o dente do siso, como já vos disse. E na minha ingenuidade, subestimei os efeitos do pós desta mini-cirurgia. Logo no hospital, depois de achar que estava tudo bem e de me ter despachado em meia hora, começo a ver tudo a andar a roda e sentir-me muito mal disposta. As dores a sério começaram um pouco mais tarde e bem piores do que imaginava. Em casa, à minha espera, tinha a Laurinda que embora dissesse aos bonecos que a mãe tinha dói-dói, isso valia de pouco para toda a atenção que ela exigia. Sem falar que eu própria tinha medo de fechar os olhos não fosse levar com um boneco ou com ela própria na cara. Mais tarde fui buscar o Vicente e os dois queriam brincam e queriam a mãe. É sempre assim, não é?

Essa noite passei com muitas dores, não dormi nada, embora tenha adormecido logo com o Vicente – quando achava que ia conseguir trabalhar. Claro está que, no dia seguinte, acordaram muito cedo. A pessoa que está connosco tenta tomar as rédeas e fazer as coisas sozinha, mas continua a haver uma pergunta, um suspiro, porque também está cansada e com isso uma certa insatisfação. E eu começo a sentir-me na obrigação de acompanhar e de fazer mais.

Na verdade, este tinha sido aquele fim‑de‑semana em que eu dava um dedo mindinho para ter ficado no sofá, para não ter que falar 1/3 do que falei, para ter chorado de dor quando esta era bem forte (nem isso, porque não quis assustar o Vicente já que estamos em processo de inverter a sua primeira má experiência com o dentista), beber batidos de maçã cozida, leite e aveia para não passar muita fome e ver televisão. Só isto!

Contudo, não só há a exigência normal à nossa volta, como há ainda o sentimento de responsabilidade e o facto das tarefas dos outros dividirem-se entre todos, mas as da mães não se dividem com ninguém.

Já quis ser a super-mulher, aliás, já o fui, mas agora só quero ser como sou. Faz sentido?

O balanço deste fim-de-semana é perceber a responsabilidade que assumimos quando temos filhos, quando há outras pessoas que dependem de nós e quando há outras que não fazem nada sem nós. O balanço deste fim-de-semana é perceber ainda como a nossa mente tem um enorme poder de controlo, como a dor se torna relativa e como é verdade que nos tornamos um ser humano orientado para o outro, temos a capacidade de nos adaptar-nos como podemos (porque sabemos que não vai ser diferente, mesmo quando a mãe fica doente!).

Andei com alarmes para não me esquecer dos antibióticos e apurei o que consigo fazer só com uma mão quando preciso da outra para qualquer coisa, neste caso para o gelo. Contudo, no meio disto tudo, tive um braço direito e um braço esquerdo, a minha mãe, mais uma vez pronta a salvar-me a vida! E esta é só a prova de que as mulheres têm tudo para se dar bem e apoiar, pois, só outra mulher entende como nos sentimos em determinadas alturas sem, muitas vezes, ser preciso falarmos.

Mas, no fundo, pior do que as dores e o facto de não me sentir 100% capaz e como isso afecta o meu dia-a-dia (e o de todos nós), é sentir que não tenho certas coisas que só quando estamos mais em baixo sentimos a falta. E mais uma vez, não sei se isto faz sentido, mas digam-me vocês!

Quando a mãe fica doente é que são elas!

P.s: As boas notícias é que entretanto, já me sinto melhor e com menos dores. O inchaço é que ainda presiste. O balanço da minha primeira experiência com sisos é que as primeiras 48h são do c*?)(/&!. De resto, tudo bem! 🙂

Boa noite.

 

Foto tirada hoje na exposição Escher no Museu de Arte Popular, em Lisboa. Deviam ir! 🙂

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