Quando falo de medo refiro-me à segurança interior que tenho vindo a conquistar ao longo da vida e que a certa altura, ao colocar tudo em perspetiva, percebo que deixei de ter medo de muita coisa.  Medo, eu tenho dos problemas saúde graves, mas fora isso, pouco haverá que eu, por mim, não consiga dar a volta.

Posto isto, este deve ser um daqueles momentos da nossa vida em que conseguimos parar por uns instantes, pensar em tudo o que se passa à nossa volta e conseguir sentir uma enorme gratidão. Tudo o que de menos bom passamos e todas as situações limite, foi o que me trouxe até aqui. E assim, conseguimos trazer de novo a paz e o amor ao nosso coração que antes tinha sido tomado de assalto por outros sentimentos.

Ao longo da nossa vida, crescemos rodeados de medo, um medo que é inconsciente, mas que não nos permite arriscar para zonas desconhecidas. Porquê? Porque temos medo de nos arrepender mais tarde. Poucos são as pessoas que, à nossa volta, nos encorajam a mudar, a ousar e a lutar por algo alguma coisa que fuja ao esperado, ao convencional.

Se temos um emprego estável, uma boa casa, carro, um casamento seguro e uma família construída, então, dá-te por muito feliz. Atingiste o teu auge e deves segurar isso com todas as tuas forças. Certamente que não encontrarás melhor do que já tens e afinal, porquê mudar se tens tudo!

Foi com este discurso que quase me senti obrigada a ficar no meu antigo emprego. Afinal, uma tão rapariga jovem como eu a correr o risco de ficar a depender do marido e a ficar em casa. No fundo, porque haveria eu de jogar pela janela aquele emprego estável e com tantas regalias? Estaria maluca? Tens dois filhos e, agora, como será a tua vida? E o seguro de saúde? E a casa que compraste?

E a minha pergunta é: porque colocamos nós a tónica sempre neste lado da balança e nunca no oposto? E o medo de não arriscar e ser feliz?! O medo de nunca alcançarmos os nossos sonhos ou de recebermos aquilo que realmente achamos que merecemos? E o medo de viver sabendo que nunca vou saber se vou encontrar aquilo que realmente me preenche? Se vivemos com a dúvida é porque parte de nós já não está ali.

Prestes a entrar nos 35 anos, sinto que preciso de coisas muito concretas na minha vida. Sinto que não dei tantas voltas, que não fiz tantas mudanças na minha vida para me sentir pela metade, conformada, resignada num estado de alma que não me traz o preenchimento interior que eu acho que devemos ter na vida, pelo menos em parte dela.

Senão vejamos: já aprendi a viver sozinha, tive um amor na faculdade que foi daqueles que nos marcam para a vida toda, pelo bom e pelo mau; tive que lidar com a morte do meu pai (estava ele no Brasil); tive que lidar com uma série de problemas que daí advieram; tive que deixar de ser filha e ser mais mãe (da minha mãe); tive que abdicar do meu sonho de carreira e apostar num emprego seguro; durante muito tempo, tive sempre dois trabalhos; cedo fiquei a contar apenas comigo; sofri de bullying no trabalho; conheço o meu marido; engravidei e mudei de país; voltei; despedi-me…. E o resto vocês já conhecem mais ou menos.

No meio de tudo isto, não foi tudo mau, mas tanto tive momentos de grande felicidade, como fases muito duras. Aprendi a lidar com a injustiça, com traições (nas suas várias dimensões) e tive que crescer a força e, muitas vezes, antes do tempo. Contudo, no final, descobri que criando uma espécie de casulo à minha volta minimizava os efeitos negativos das coisas. Tinha um mundo meu, o meu mundo feliz. Sou daquelas que acredita que o positivo atrai o positivo.

E daqui em diante, mesmo que a vida me coloque perante profundas mudanças, daquelas que nos podem paralisar pelo medo de perder, eu já dei provas a mim mesma que consigo dar a volta. O segredo é aceitar e não procrastinar. O segredo é não reclamar com o destino e com o mundo. O segredo é confiar que tudo tem um motivo e que algo de maior e melhor virá a seguir.

Chegar até aqui é ter igualmente a maturidade para saber que também erramos, tivemos comportamentos que não queríamos ter, dissemos coisas que não queríamos dizer, não tivemos tempo quando devíamos ter, que fomos infantis quando devíamos ter sido mais maturos. Contudo, chego à conclusão que sem nada disso, eu não tinha chegado a este nível interior no qual me encontro. Acho que é assim que crescemos, vivendo a vida como ela é, sem lições estudadas e sem truques na manga.

Hoje tenho cada vez menos medo, porque eu sei quem sou, aos 35 anos sei quem sou, o que quero e o que não quero. E sabem o mais curioso? Há uns dois anos atrás, eu só sabia o que não queria.

E, em jeito de conclusão, claro que gostava de ter um amor para a vida toda, uma carreira feliz na área que eu gosto, uma casa confortável, viajar e tantas outras coisas. Porém, ao mesmo tempo, não tenho medo se o amor terminar, se tiver que arregaçar as mangas e fazer qualquer coisa noutra área qualquer, se a casa tiver que ser mais pequena e se viajar tiver que ser mais espaçadamente. Eu só consigo estar por inteiro nas coisas se tiver bem e feliz. E não estando, não gosto de ser um agregado de muito pedaços/fragmentos que não ligam entre si.

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