Tinha tudo controlado para que o segundo filho fosse (mais) um menino. Como? Tinha sido o melhor e mais experiente ecografista do hospital a dizer-nos. Segundo ele, com o que via, dava-nos 99% de certezas de que era um menino e quando assim era, era muito difícil ter surpresas. (O que ele queria dizer é que quando há sinais de que é um menino, dificilmente aparece a a menina, já o contrário é mais provável. Uma teoria que se revelou muito pouco credível, como se vi, pois mãe de menina eu seria.)

Para mim, aquele cenário, era o melhor dos dois mundos. Podia aproveitar alguma roupa do irmão, já sabia como funcionavam os meninos e tinha a desculpa perfeita para fugir à roupa pipi e deixá-lo andar confortável (e com estilo) como o irmão. Para além disso, não tinha que pensar em alterações no quarto, não previa ter que alargar a zona dos brinquedos a carrinhos, bebés, malas e outras coisas do universo feminino. E, acima de tudo, o facto de ser um menino dava-me alguma “tranquilidade”, porque no mundo deles tudo é mais fácil, mais prático e descomplicado.

Porém, quis o destino que, daí a semanas, quando ia tranquilamente (e sozinha) fazer a ecografia morfológica, que o tal improvável acontecesse. No dia em que as minhas preocupações se prendiam apenas com o facto de saber se o bebé estava bem, se tudo estava dentro dos parâmetros normais, etc… saí de com a certeza que esta segunda vez iria ser ainda mais desafiante e de maior descoberta. Estava grávida de uma menina. Eu ia ser mãe de menina.

Estava longe de perceber o que o ecografista queria dizer quando me pergunta se o primeiro filho era um menino ou uma menina, mas já estava de olhos muito abertos a tentar decifrar a imagem no ecrã à procura daquilo… que não estava lá. Eu e o meu marido tínhamos “feito a coisa bem feita”, dizia ele. Pedi para confirmar uma segunda vez, mas contra factos não há argumentos e quando as lágrimas que começam a cair pelos olhos, foi todo um misto de emoções, mas que refletiam também o meu receio em achar que não estaria preparada para ser mãe de uma menina… a minha menina.

Levei tempo a recompor-me, dias até conseguir partilhar com os amigos. Cá dentro debatia-me com tantas inseguranças. Lidar com um ser humano exactamente como eu, cheio de hormonas, querer que sejamos amigas e com medo que ela me queira mais distante, lidar com as suas inseguranças sem que veja como uma rival, e tantas outras. No fundo, tinha muito medo que a nossa ligação fosse muito mais distante do que é com o Vicente, que ela fosse mais independente, mais senhora do seu nariz. Tudo isso tocava nos meus pontos fracos.

Depois e em termos práticas, sabia que nunca ia ter uma filha que andasse sempre de vestido, toda a condizer, arrumadinha, penteada. As minhas amigas gozavam comigo quando diziam que não sabia vestir uma menina. E a verdade é não sei mesmo, ainda me baralho me toda, falta-me sempre roupa, enfim. Depois, não tenho tendência para as saias e vestidos; para os folhos e laços. Gosto que andem bem, mas que andem descontraídos e confortáveis acima de tudo. Não compro roupa em lojas caras, de tendências ou de marcas xpto para eles. E sou demasiado racional para me perder em de decoração feitas ao detalhe.

Naturalmente que me fui igualmente apaixonado por aquela barriga e pela minha menina. E ela deixou-me ser uma grávida igualmente bonita e luminosa (ao contrário do que dizem). E claro que quando a tive nos meus braços pela primeira vez que voltei a apaixonar-me ainda mais. Logo naquele momento deixou transparecer a sua força e determinação. Foi a cúmplice perfeita para o momento do parto. Ajudou-me a fazer as pazes comigo e, de certa, forma a nascer de novo (juntas).

E em apenas quase dois anos de vida, o seu jeito delicado deu lugar a uma personalidade muito forte e vincada (que não deixa ninguém indiferente), a alguma teimosia e muito desenrascanço. E isso revela-se em coisas tão simples como o andar despenteada, as brincadeiras com as bolas e os carros, o subir o escorrega em pé sozinha, às asneiras que faz e à quantidade de nódoas negras e galos que vem tendo.

A Laura é daqueles filhos que nos deixam constantemente com o coração nas mãos, mas que ao mesmo tempo nos surpreendem constantemente com as coisas que fazem e a forma desenrascada com que aprendem tudo aquilo que é essencial ao seu dia-a-dia. E, como tal, é muito mais independente que o irmão.  É uma menina que tem o seu estilo próprio e o qual eu me recuso a “mascarar” com roupas que nada tem a ver com ela ou com a sua personalidade.

O momento que marcou a sua emancipação foi quando deixou por iniciativa própria a mama, depois de meses e meses sôfrega de noite e dia. Quando estava prestes a fazer um ano, não quis mais. E largou para nunca mais voltar sequer a pensar no assunto.  Talvez por isso, me derreta sempre quando é a minha companhia que ela procura. Quando corre para a porta quando eu chego. Quando me dá beijinhos e abraços sem eu estar à espera.

Mesmo que quisesse, não dá sequer para comparar o Vicente e a Laura em nada. São tão diferentes um do outro e talvez por isso, se completem tanto, preenchendo-me ao ponto de eu dizer que não há espaço (nem vontade) para ter outro filho.

Ainda assim, continuo a achar que os desafios vão ser maiores, que vou sentir sempre alguma fragilidade porque sermos ambas mulheres e por termos as duas o mesmo tipo de hormonas. Mas espero conseguir fazê-la entender que tem aqui uma mãe com vontade de estar próxima, que é compreensiva e que pela sua história de vida, vai tentar julgar menos e acompanhar mais, proibir menos e ser mais atenta.

Não estava preparada para ser mãe de uma menina, sim, é verdade! No entanto, a Laura era a peça que faltava na minha vida, ajudou-me a fechar um ciclo e sei que tal como o irmão, vai ter muito para me ensinar enquanto mulher e ser humano. E, cá entre nós, fico cheia de orgulho por ver como tem personalidade e sentido de humor ao mesmo tempo, mesmo com todas as dores de cabeça que isso me possa vir a dar para tentar moldar e trabalhar.

Querida Laura… como é possível que dois anos já quase se passaram?

mãe de menina

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