Cada vez mais sinto a necessidade de deixar de ser difusa, de tentar chegar a todo o lado, pois com o tempo, sinto-me a não conseguir dar resposta a tudo. As mães multitasking (a quem eu chamo também as mães-polvo) que assumem todas as frentes chegam a uma altura em que sentem que precisam de ser mais produtivas e que isso passa por conseguir serem capazes de iniciar uma coisa e terminá-la, em vez de socorrer a vários fogos ao mesmo tempo e assim sentir que acabam por ter sempre pontas soltas.

Para quem pede ajuda, torna-se fácil, já sabe que tem ali aquele suporte. Mas para quem está constantemente a interromper o que está fazer e, ao mesmo tempo, a juntar à sua lista só” mais uma coisinha, torna-se demasiado stressante e até desgastante.

Somos educadas para sermos super-mulheres. Somos educadoras a interiorizar que somos capazes de tudo e exímias no multitasking. E reconheço-nos essa capacidade única. Durante muito tempo eu própria fui essa mulher. No entanto, vamos deixando ir juntando sempre mais uma coisa ali, mais uma aqui, outra acolá, alguém que nos pede atenção apenas para uma pergunta rápida… e aquilo que pode ter graça no início, com o tempo, deixou-me ansiosa, a sentir-me responsável por tudo e a sentir que a minha presença era fundamental em todos os momentos.

E talvez até seja um pouco assim, talvez tenha-me colocado nessa posição mesmo sem querer. Talvez por isso, se estou em casa e se dividimos as tarefas, a verdade é que eu acabo a fazer as minhas e as dos outros. A verdade é que eu acabo por me sentir sempre desconfortável quando, por ventura, me deixo ficar no sofá e há alguém a tratar das coisas por mim.

Mas, afinal, quando é que ficou estabelecido esta divisão de tarefas em função do género? E, se num outro planeta qualquer, se vive ao contrário e são os homens a tratar de tudo e é a mulher que chega a casa depois do “furacão” já ter passado? E, se nesse planeta, é a mulher a dizer mais vezes que lhe dói a cabeça ou que está muito cansada?

E isto tudo para vos dizer que em vez de ter que viajar para outro planeta, eu decidi que aos poucos vou fazer o exercício inverso. Quero sentir-me mais concentrada nas coisas que tenho em mãos, sentir que termino em vez de arrastar e isso não passa só pelos outros, mas essencialmente por mim. Por me tornar mais organizada, focada e concentrada…. e também por dizer mais vezes não. Passa, por exemplo, por em casa responsabilizar cada um pelas suas próprias coisas; passa por no trabalho, aceitar os desafios que realmente me dão prazer e cujo retorno será objectivamente vantajoso para mim (algo que pode acontecer de várias maneiras).

Tomei uma opção de vida para ter mais tempo para mim e para a minha família e evitar ceder a pressões. Porém, se não tiver cuidado, esta minha condição torna-me ainda mais vulnerável do que a anterior. Ora, encontrar o meio termo e fazer com que as pessoas entendam que sou tão humana quanto o resto das pessoas não é fácil. Mas é preciso!

Por isso é que nestes dias em que estamos apenas os três por nossa conta, acabo por tentar acalmar o meu coração para não ir além do que consigo efectivamente fazer do início ao fim. Se adormecer com eles e a cozinha ficar por arrumar, paciência. Se tiver que adiar um compromisso meia hora para não andar a correr, paciência. Se tiver que esperar mais um dia para dar resposta a alguns e-mails atrasados, paciência.

Tenho uma amiga que me lembra sempre que não somos médicos cardiologistas e que, por isso, a vida de ninguém depende inteiramente de nós. Portanto… paciência, mesmo quando não é do nosso feitio deixar coisas por fazer ou atrasar alguma coisa.

Ter filhos é um trabalho. Ter uma casa é um trabalho. Ter uma profissão é um trabalho. Vivemos rodeadas de trabalho, de obrigações e de responsabilidades. E, ao mesmo tempo, vivemos em buscar de algum equilíbrio, mas não sabemos como ter tempo para nós e quando temos esse tempo não sabemos como usufruir dele.

E embora eu sinta uma pressão enorme para não deixar nada por fazer. A verdade é que me estou a educar para deixar ir, para ser capaz de seleccionar prioridades e concentrar-me no essencial. Sem esquecer que não vem mal ao mundo e que ninguém vai fazer nada por mim, portanto se não for agora, farei depois.

Boa sexta-feira!

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