Os pais vivem por fases (as fases da maternidade). É a fase das cólicas, a fase das birras, a fase do não querer comer, a fase dos terrores nocturnos…enfim, ficaria aqui um dia inteiro a descrever todas as fases pelas quais já passei e o meu filho mais velho ainda só tem cinco anos. Os pais vivem por fases: é isso que nos permite ver sempre o lado positivo das coisas: “Não te preocupes, é só uma fase. Vai passar e vais ver que daqui a um tempo já nem te lembras”. Quantas e quantas vezes não ouvimos isto? E têm ou não têm razão?

Os pais suspiram de alívio quando uma fase é ultrapassada. Respiram fundo porque sabem que “aquilo” vai acabar por passar e relativizam com o tempo, afinal, basta um mero sorriso para que tudo se transforme e fique bem. A Laura ainda não fez dois anos e não é por ser o segundo que vou esquecer tudo isto ou, então, que já tenho resposta para tudo. Não. As fases que, entretanto, se voltam a repetir, têm um novo protagonista, com uma outra personalidade e, como tal, é todo um novo desafio com o qual nos defrontamos. Sim, continuo muitas vezes a dar por mim sem saber o que fazer.

Com efeito, não tinha esquecido esta fase “marota” dos bebés que ainda não são crescidos, mas já acham que são. A fase em que fazem tudo, mas que ainda não compreendem muito bem o significado de palavras, tais como “esperar”, ter calma” ou, então, a expressão do “já vai”. É aquela fase chatinha que ainda não é a das birras, mas já sendo, em que passam muito tempo a chorar ou arreliados com a frustração de ouvir um “não”, de não entenderem bem a relação causa-consequência, de não terem a noção de que esperar um minuto não é o fim do mundo. E, claro, no meio de tudo isto, é aquela fase em que andam literalmente atrelados a nós, em que exigem colo e sofrem com o medo da separação. O mundo desaba se alguém calça os sapatos ou se veste um casaco e ela não.

Onde é que pensam que vão sem mim? Será que voltam?

Lembro-me bem dessa fase no Vicente, pois embora fosse um santo para dormir e um daqueles bebés em que a rotina lhes assenta que nem uma luva, tudo o resto houve. Tivemos as viagens de carros inteira com ele a chorar; as birras por não querer o cinto de segurança, ao ponto de inventar formas de tirar os braços do cinto (muitas vezes nem sei como, porque ficava o mais justo possível); o final do dia em que se agarrava às minhas pernas a chorar e em que fazer um simples xixi parecia uma corrida de obstáculos. E não, não valia a pena explicar que vinha com a mãe ou que a casa de banho era mesmo ao lado, pois o choro ainda se intensificava mais.

Não esqueci o sofrimento que era deixá-lo com a babysitter quando estávamos sem o pai e eu tinha as minhas aulas de francês. Não vale a pena dizer as vezes que saí de casa a sentir-me mal comigo mesma por deixá-lo assim ou as vezes em que pensei em simplesmente faltar. Porém, ao mesmo tempo, eu sabia que era do momento e que passava mal eu virasse costas. E a certa altura, adoptei uma postura rígida, sem deslizes e sem demoras na hora de me despedir. Explicava tudo muito bem, com quem iria ficar, dava um beijinho e dizia voltar logo. E lá ia eu a correr até à escola, para depois, voltar a voar para casa (já com ele a dormir).

Ultrapassar esta barreira em que temos de assumir uma posição não é fácil. Não é fácil não ceder, não é fácil ter que deixar chorar porque simplesmente não dá para estar no fogão a preparar o jantar e ter um bebé ao colo, porque, no fundo, isso é só irresponsável da minha parte. E eu aprendi isso a pulso, porque era o Vicente e eu, portanto para conseguir ter uma vida minimamente normal, mesmo sendo mãe a tempo inteiro, foi preciso soltar o meu “grito do Ipiranga” e deixar de me sentir culpada.

Não sei precisar quanto tempo levou, mas lembro-me da dificuldade que foi para mim gerir tudo aquilo. E agora, há já algum tempo que revivo tudo isso com a Laura, uma bebé diferente, mas igualmente exigente que lhe junta o drama das meninas e qualquer coisa é o fim do mundo. Juntar a isso o Vicente e as chamadas de atenção, é elevar a fasquia da exigência para mim. Por isso, há dias em que a vontade é a de dizer que “hoje não há banho para ninguém”, em que o jantar vem directo da churrasqueira e em que a fruta é um daqueles purés 100% de fruta. É isso em prol da minha sanidade mental e da minha consciência de que não posso perder a calma e que sobretudo eles não podem sentir isso.

 

Boa noite.

 

 

Laura: casaco C&A | Calções Kiabi

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