Escrevem-me muitas vezes o quão corajosa sou por viajar com filhos tão pequenos. E sou – aliás, todos os pais que o fazem, o são! Mas os verdadeiros “heróis” desta história são os meus filhos, o Vicente e a Laura. É a eles que vocês têm dar os parabéns, porque são uns valentes que se adaptam aos pais e vencem todas as barreiras.

Sempre que viajamos neste registo de turistas, eles são completamente retirados das suas rotinas, comem pior e mais fora de horas, têm que lidar com um cansaço superior ao que eles estão habituados e têm que andar connosco para todo o lado. E ainda que, nestas férias em particular, tenhamos pensado muito no lado deles – por exemplo, com a visita a museus que eles iriam gostar; com passeios nos jardins – havia momentos que tudo o que o Vicente mais queria era estar em casa a brincar e ver desenhos animados se possível. A Laura, por sua vez, mesmo que tenha feito sestas todos os dias no carrinho, nunca descansa bem, anda mais irritada e descontrolada. Se bem que, ao contrário do irmão, ela gosta muito mais de andar na rua e de aventura.

E hoje, em que o nosso dia foi particularmente mais difícil para eles (e para nós), sinto um orgulho imenso no espírito que ambos têm e na forma como se adaptaram. Hoje voltamos a andar de comboio – não queríamos perder a oportunidade de conhecer o Lago do Como – com todo o stress que é para chegar a horas, perceber se estamos no correcto, mais os mil avisos para terem cuidado, etc… esteve muito frio, inclusivamente nevou.

A Laura anda toda protegida, só não anda mais porque tira o gorro e não deixar tapar as mãos. E o Vicente, mesmo todo vestido e equipado, queixou-se muito que lhe doíam os pés e as mãos. Porém, mesmo no meio de tanto queixume, conseguiram partilhar a nossa excitação quando chegamos ao Lago do Como. Uma beleza da natureza diante dos nossos olhos que até nos emocionou. Vibraram igualmente quando sentimos os primeiros flocos de neve a cair sobre nós e comeram uma pizza inteira os dois.

Às vezes penso que posso estar a puxar muito por eles, aliás, às vezes penso que puxo muito por todos nós, sem lhes dar descanso. No entanto, tenho a certeza absoluta que proporcionar-lhes estas experiências é também uma forma de os educar e de os preparar para a vida. O Vicente está numa fase em que absorve tudo e pergunta tudo. Nos museus, na rua e até a pedir para lhe ensinar algumas palavras em italiano e em inglês – e destemido, lá ia ele dizendo umas palavras quando se metiam com ele – que miúdo mais curioso.

Claro que tinha sido muito mais fácil para nós ter feito esta viagem sem filhos. Não vos vou mentir que estou completamente de rastos, não só pelo próprio ritmo das férias em si, mas também devido à exigência que é lidar com as crianças. E também não vou mentir que isso teria sido bom tanto para mim, como para mim e para o meu marido enquanto casal. E claro que tenho saudades “da outra vida”, mais descontraída, sem horários, sem birras, sem mil paragens pelo caminho e sem tantas pedidos, queixas ou exigências. Contudo, não havendo opção, neste caso opção de viajarmos mais vezes ao longo do ano, estes momentos só fazem sentido quando partilhados com eles. Não há cansaço que resista àqueles olhos tão abertos e tão brilhantes ou àquela curiosidade tão genuína ou ainda à excitação e felicidade com tanta coisa nova ao mesmo tempo.

Também não há nada que pague todas as conversas que tivemos, as coisas que o Vicente nos contou, as brincadeiras que a Laura nos proporcionou., as gargalhadas que tivemos a quatro e o tempo que pudemos passar todos juntos. Não foi um mar de rosas, nunca é, tivemos os nossos momentos de tensão, também se disseram umas palavras mais exaltadas, pediu-se inúmeras vezes que estivessem sossegados, que não implicassem e que não pedissem tantas vezes comida fora das refeições.

No entanto, por outro lado, tivemos a capacidade para lhe dar espaço para serem crianças e não sentirem que estas viagens são uma “seca” dos pais. Correram no jardim, saltaram em cima das folhas secas, tiveram o tempo que quiseram nos museus, andaram pela rua e também comeram o que lhes apeteceu e ainda fizemos cedências como enfrentar uma fila de quilómetros de gente só porque o Vicente queria chegar perto para ver a montra da loja da Lego.

Nem sempre temos a capacidade de perceber que viajar com crianças só resulta precisamente se as crianças puderem continuar a ser crianças. Não vão obedecer mais só porque estamos de viagem ou deixar de fazer birras porque estamos de férias. É preciso respirar fundo muitas vezes. Mas se há alguém aqui que está de parabéns são eles. Afinal, são apenas duas crianças que não têm a mesma capacidade do que nós para perceber tudo, para saber gerir o cansaço, para saber esperar… nada!

Hoje tiveram um dia mais difícil, também já estão mais cansados, mas mesmo assim, quando saímos do metro e vimos o nevão que tinha caído, ainda tiveram forças para correr até ao parque e lançar bolas de neve. O Vicente gritava que era a primeira vez que via neve e a Laura só queria andar no baloiço – imaginem a maravilha que era! Estávamos todos cansados, com frio e a vontade era de ir directamente para casa. Mas o que custou parar aqueles dez minutos no parque e deixá-los brincar? Não nos custou nada.

Tenho muita sorte e não tenho medo em dizê-lo. Tenho dois filhos, cada um com o seu feitio, mas os dois são as melhores companhias que eu podia ter para estas loucuras. Que dias tão bons em família e que bravos que estes dois são.

Obrigada (meus) filhos, sem vocês estas férias não tinham metade da piada que têm tido. Só por isso ficam perdoados de todas as birras e cenas que fizeram 🙂

 

Para quem está a pensar viajar com filhos, deixo aqui o meu guia básico: Guia Básico para viajar com crianças e ainda as minhas dicas na hora de fazer as malas.

 

Boa noite.

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