Têm-me perguntado o que aconteceu ao tal casal que começou a enfrentar alguns problemas na relação após a maternidade. Lembram-se? Afinal, o que lhes aconteceu?  Legitimamente, querem saber como se tem desenrolado a sua história, se conseguirem descobrir-se um ao outro, se reencontraram o amor que o unia ou, pelo contrário, não.

Tenho adiado escrever sobre isso, admito, pois, embora tenha vários rascunhos sobre o desenrolar desta história, cada um deles espelha uma possível saída para ambos. No entanto, não sei com qual deles se irá dar o desfecho.

Há quem se deixe ficar num casamento mesmo quando existem motivos muito fortes para se separarem e há que se separe por tão pouco. E em ambas as situações, as consequências são profundas na personalidade de cada um. No mundo ideal, duas pessoas sentavam-se, conversavam e, havendo um consenso, os dias a seguir seriam mais harmoniosos. Fosse qual fosse o caminho escolhido, havia um sentido, uma luz ao fundo do túnel que iria orientar os dias seguintes. Pois o pior que pode acontecer é ficar preso no mais fundo a que chegou numa relação. É fica preso na zona de conflito, na qual perdemos o discernimento para tomar qualquer tipo de decisão. Tanto nos parece óbvio que tudo chegou ao fim, como, no momento seguinte, achamos que tudo é superável.

No fundo, a decisão está na nossa capacidade para perceber se ainda existe o amor, o princípio – o meio e o fim de todas as histórias… de amor. Mas só se descobre o amor se o nosso coração estiver limpo.

No fundo, a decisão (também) está na nossa capacidade de perdoar aquilo que nos magoou e na capacidade de sarar todas as feridas, deixando para trás toda a infelicidade que aquela relação já lhes trouxe. Se decidimos continuar, temos que ser capazes de deixar cair uma pedra em cima de tudo aquilo que magoa, temos que ser capazes de engolir grandes sapos, temos que, no fundo, pôr literalmente o contador a zeros – mas se isto é fácil? Não, não é! Como é que se faz? Não faço a mínima ideia.

No fundo, nenhum dos dois sequer imaginou ver-se numa situação assim, nenhum dos dois sequer imaginou que a sua história de amor pudesse estar perante o tudo ou o nada. Nenhum dos dois imaginava sentir tudo aquilo que sente e a força com que esses sentimentos os impede de se terem um ao outro. Amar deveria ser tão mais simples… Então, e se o problema for mesmo esse? Então e se, esse amor que eles dizem sentir, afinal, já não existir e se for por isso que nem um nem o outro estão a conseguir encontrar-se?

E é no meio desta loucura toda que ela dá por si em situações limite.

E se, de um momento para o outro, eu ou tu descobrissemos que ter uma doença grave e que os nossos dias estavam contados. O que faríamos?

E se, de um momento para o outro, nos vissemos realmente privados de tudo aquilo que já construímos juntos? Será que daríamos graças a deus ou sentiriamos a dor tremenda de uma grande perda?

E se, de um momento para o outro, perdessemos o chão do nosso caminho e o nossos horizontes se separassem?

Será preciso este confronto duro com a vida para que deixemos cair por terra todas as armaduras e vermos simplesmente aquilo que eu e tu somos? Sem merdas, sem rancor, sem ódio, sem culpas, sem mentiras e sem traições?

Eu sei que ela remexe muitas vezes na caixa que guarda no fundo do seu armário. É lá que ela procura a força para aguentar mais um dia, é ao ver tudo aquilo que já foram que ela acha que ainda vale a pena lutar. É nas fotografias, nos bilhetes, no velho caderno onde anotavam todas as cidades que visitavam juntos que ela se deixa ficar.

E, neste momento, ela é simplesmente alguém que procura conforto e algum apoio. É só alguém que, depois de tudo o que já passou e quando, finalmente, se vê renascer, achando que tinha à sua espera o porto de abrigo que pensava ter encontrado, alguém que a iria protegar de tudo e de todos. E esse alguém, afinal, já não estava lá, talvez cansado de esperar (ou não) e, agora, ela não sabe o fazer com essa desilusão.

Na vossa opinião, ainda vamos conseguir dar a volta a este relacionamento? O que fariam se fosse com vocês?

Boa tarde.

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