Mesmo quando achamos que temos tudo controlado e que sabemos exactamente o que se está a passar à nossa volta, não podemos subestimar os detalhes. O Vicente foi uma criança que sempre reagiu bem à chegada da irmã, nunca o vi com reacções do género de dizer que era melhor quando ela não estava connosco, que não gosta dela, também nunca o vi ser agressivo ou algo parecido. Tudo aquilo que se passa acaba por ser o normal entre irmãos e os ciúmes nunca foram motivo para preocupações de maior.

No entanto, e como é compreensível, à medida que o tempo vai passando e a Laura vai crescendo, a sua personalidade (forte) faz-se cada vez mais sentir para todos. Logicamente que com isso, é o seu espaço (do Vicente) que começa a ficar mais pequeno, menos evidente e cada vez mais ameaçado pela presença da irmã.

No dia-a-dia, a minha postura tem sido a de não massacrar o Vicente com a responsabilidade de ser o irmão mais velho e com isso, fazê-lo sentir-se em desvantagem em relação à irmã. Tento ser justa na avaliação das situações e não me concentrar apenas no Vicente por ser o único a ter, por assim dizer, uma capacidade de resposta. A Laura, embora mais nova, entende tudo, tem um feitio especial, é teimosa e sabe tirar partido de ser segunda filha.

Contudo, é uma bebé e como todos da idade dela, está na fase de nos surpreender com mil e uma coisa, o que faz com que muito facilmente estejamos a rir-nos de algo que tenha feito ou dito. Está na idade engraçada e sabe disso. Todos nós nos rimos com ela, incluindo o irmão.

E não é nem a primeira e nem a segunda vez, que, quando por algum motivo, estamos mais direccionados para a Laura, que o Vicente fica sem jeito, quer rir, mas ao mesmo tempo sente ciúmes naturalmente – sente algo que ele próprio nem sabe exactamente o que é. Rapidamente tentamos dispersar a atenção e a coisa fica por ali.

Porém, também é verdade que ultimamente, quando menos esperamos, o Vicente surpreende-nos com atitudes que nada têm a ver com ele. Podiam ter, mas pintar paredes, abrir janelas quando ninguém está por perto e outras coisas deste género, não fazem o perfil dele. Sempre foi uma criança calma nesse tipo de comportamento mais perigosos e desafiantes.

Este fim-de-semana foi a cadeira de refeições da irmã a virar um quadro de Monet, enquanto a avó adormecia a irmã e os pais tinham saído, durante a semana foi abrir a janela para ver se o pai estava a chegar, enquanto dava banho à irmã e ele pediu para ser o último e a estas, juntam-se outras coisa que, talvez no momento, tenha reagido como sendo um “mau comportamento”, e não como sendo a forma que ele encontrou para exteriorizar tudo aquilo que a sua idade ainda não lhe permite verbalizar.

Da nossa parte, acho que, como supostamente tem corrido tudo bem face aquilo que pudéssemos imaginar, talvez tenhamos subvalorizado um pouco a história dos ciúmes e os próprios sentimentos do Vicente. Os pais andam sempre em terreno incerto, sem margem para grandes distracções, sobretudo quando temos um filho que não verbaliza muito o que sente, porque fica aborrecido, o que quer e o que não quer. Este é o meu grande desafio com o meu filho mais velho, contribuir para que seja mais expansivo e senhor das suas opiniões. Fora isso, é mesmo um facto que tenho que estar mais atenta aos pormenores e a coisas que posso pensar que são inocentes ou que estou a fazer bem em dizê-las de uma forma e cujo efeito possa estar a ser o oposto.

E, por aí, como gerem do vosso lado – da relação pais – filhos – todas estas subtilezas e delicadezas no dia-a-dia de quem tem mais do que um filho?

Boa tarde.

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