Há profissões que funcionam como um verdadeiro escape ao nosso estado de espírito e existem outras que, pelo contrário, nos expõem. Sobretudo, expõem um lado emocional que pertence à nossa vida privada. Mas não só, a forma como eu quero que vocês me vejam é bem, mesmo nos dias menos bons. Não quero partilhar sorrisos falsos nem tão pouco consigo escrever no vazio. E, na verdade, nestes momentos, quem é que pensa em tirar fotografias de si mesmo (que não aquelas estritamente necessárias)? Eu não, por isso, nos últimos dias, optei por me afastar.

No entanto, ao mesmo tempo, depois de ter partilhado com vocês sentimentos que vos deixaram um pouco preocupadas, quero (e sinto-me no dever) de vos tranquilizar, pois vai ficar tudo bem. Existem momentos na nossa vida em que levamos um banho de realidade e em que nos apercebemos o que significa realmente sermos uma pessoa adulta. Especialmente, o que implica a tomada de decisões enquanto pessoa adulta que somos e da forma como isso implica uma profunda reestruturação interior.

Os efeitos colaterais dos trintas e alguns anos (e não só) não são apenas as rugas, os cabelos brancos e outras coisas que me fazem dizer, algumas vezes e um pouco de forma exagerada, que envelheci. O efeito colateral da idade é o amadurecimento e a capacidade que ganhamos para colocar as coisas em perspectiva e tomar decisões ponderando vários cenários que não apenas o nosso. E isto é muito difícil, porque é fácil entrarmos num dilema interior ao sentirmos que estamos a deixar de ser nós próprios ou a ir contra aqueles que os nossos valores. 

O efeito colateral da idade foi o abrandamento da minha impulsividade e a calma na minha procura pela justiça. Sinto-me capaz de fragmentar os problemas para que a minha energia se foque no que realmente importa, tornando-me mais resistente às supresas da vida. Sei que, pela vida fora, continuarão a existir momentos de desilusão com as pessoas, em que me sinto magoada e até enganada. A confiança essa é, para mim, o mais difícil de recuperar, mas ainda assim, o efeito colateral da idade é aprender a tomar decisões tendo por base um ponto de partida diferente.

Mas para conseguir todo este equilíbrio é preciso tempo para não agir de cabeça quente. E isso só é possível com algum distanciamento, porque são decisões da vida real e não as de um mundo ideal – pois, se vivessemos neste mundo ideal, as pessoas não se magoavam umas às outras, não tínhamos desilusões e não tínhamos que recomeçar tantas vezes.

Tomar decisões de adulto envolve uma capacidade do caraças para sermos racionais, controlar as emoções e os sentimentos. Algo que, há algum tempo atrás, jamais seria possível. Coisas que eu disse jamais fazer, jamais perdoar, etc… hoje tornam-se relativas e obrigam-me a contrariar muitas dessas verdades (outrora) absolutas. Ser adulto é um caminho sem retorno, é um pacto que fazemos com o nosso lado mais racional e cada decisão que tomamos exige muita ponderação. 

Faço um trabalho interno diário para ser esse ser humano mais maduro e equilibrado, que ouve tudo antes de falar, que não julga o outro sem antes olhar para si mesmo – mesmo quando está ferido e tem razão – e que se mostra tal como é. Sei que tenho os meus defeitos, contudo estou igualmente cada vez mais segura das minhas qualidades e isso, para mim, é um motivo de orgulho. 

E agora estou de volta, talvez numa versão um pouco diferente de mim. Nem vos sei explicar muito bem ainda. Esta foi uma pausa necessária para resguardar uma parte da minha vida que é privada e, como escrever envolve muito da minha emoção do momento, estes dias deitei a baixo todas as reservas de energia que tinha, não sendo capaz de vos dizer o que quer que fosse. 

A pessoa adulta em que nos tornamos, transforma a nossa forma de estar na vida e isso não tem que ser necessariamente mau.

Espero que compreendam e, mais uma vez, obrigada por todo o vosso apoio e por estarem sempre desse lado.

 

Um beijinho.

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