Hoje recebi uma mensagem especial de uma leitora. Escrevia-me depois de ter visto a minha entrevista no programa da Fátima Lopes, A Tarde é Sua, da TVI. De alguma forma, sentiu em mim a força que ela própria desejaria ter para fazer uma mudança na sua vida. Agradecia-me, por isso, o meu testemunho e hoje, precisamente hoje, essa leitora nem imagina como conseguiu ser ela a fazer a diferença no meu dia.

Obrigada por ter perdido uns minutos do seu tempo a escrever-me e obrigada por sentir a confiança em mim para partilhar a sua história (a qual irei responder com a calma que necessita).

Às vezes, muitas vezes, aliás, sinto uma responsabilidade do caraças. Um dever de ser bem-sucedida e adorava ser um caso de “sucesso” para realmente vos motivar e inspirar a nunca desistirem de vocês próprias, acima de qualquer coisa ou pessoa.

Ser dona do meu tempo é, sem dúvida, um privilégio, mas é também uma grande responsabilidade. Trabalhar em casa é um conforto e um grande desafio: criar rotinas, métodos, auto motivação, auto concentração a toda a hora. Não misturar o trabalho com a trabalho da casa.

Aprendi a viver com a instabilidade financeira ao final do mês, aprendi, mas não me habituei. Porém aquilo que me irrita mesmo é a necessidade de justificação que as pessoas à minha volta exigem. Tenho que justificar que trabalho e que, como qualquer outro trabalho, sou paga por isso. As pessoas têm uma certa dificuldade em levar a sério coisas que possam fugir ao “convencional”.

Depois há dias, como o de hoje, em que acordamos com um balde de água fria, em que somos expostos à realidade mais pura e dura desta vida adulta e em que vemos as nossas fragilidades mais expostas do que nunca.

Nesses dias, apetece-me dizer-vos para não arriscarem, para não perderem a vossa segurança e a vossa rede de conforto. Nesses dias, apetece-me dizer-vos que a vida é uma valente madrasta e que o sofrimento acaba por ser o elemento mais forte neste constante crescimento interno e pessoal e nesta constante necessidade de afirmação.

Sem esperarmos, tiram-nos o tapete e não podemos fazer conta com nada, aquilo que tínhamos como seguro desaparece e tudo à nossa volta parece levar a um assustador abismo…. o desconhecido.

Em dias como o de hoje, apetecia-me pertencer aos 97% de pessoas que seguem a linha recta, que não se permitem tentações e que, por isso, não arrisca. Apetecia-me ter a segurança de um trabalho das 9h às 18h, sem tempo para me permitir pensar ou sonhar. Em que o meu tempo fosse dominado pelas rotinas intermináveis dos dias e das tarefas.

Em dias como o de hoje, em que vocês talvez não percebam nada daquilo que aqui escrevo, sinto a força a faltar-me na escrita, sinto falta de ar e tento que o medo não se apodere de mim. Escrevo para soltar o que está cá dentro e criar a distância que preciso para ganhar lucidez.

Nesta vida adulta, aquilo que me aborrece não é o trânsito caótico da cidade, as contas ao final do mês para pagar, as birras no supermercado ou as inúmeras vezes que deixo o carro entrar na reserva.

Aquilo que me custa verdadeiramente é o ser humano e ter que lidar com a sua natureza tão cruel e egoísta. Aquilo que me custa é perder a confiança naqueles em que eu mais confiava, perder a esperança no dia de amanhã e ver cair por terra todos os meus sonhos e as minhas crenças. Aquilo que me custa é perceber que não sou a excepção à regra que achava que, com a minha força interior e o meu desprendimento, conseguiria ser face à tanta coisa que via acontecer à minha volta. No final do dia de hoje, chego à conclusão que sou mais uma… simplesmente mais uma.

 

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