Sempre que permito que a minha voz se eleve perante os meus filhos, na são muito raras as vezes em que o motivo são eles próprios. Quando deixo a minha voz se exaltar, sou eu a vacilar perante o meu próprio cansaço, algo que me está a preocupar, alguma chatice que tive naquele dia ou, simplesmente, a própria saturação das rotinas de todos os dias.  

E, para mim, só é possível melhorarmos enquanto seres humanos se formos capazes de reconhecer os nossos próprios erros e os nossos defeitos. Sobretudo, quando se trata de sermos o exemplo para alguém, como é aqui o caso. E é sempre essa a análise que tento fazer quando a cabeça esfria ou quando a casa fica em silêncio ou quando olhos para cada um deles e sinto um abanação de quem está a exagerar.

Ontem foi um desses dias. Ando novamente a dormir pouco, ando um pouco stressada, porque durante o dia não estou a conseguir fazer tudo aquilo a que diariamente me proponho, porque há momentos em que a instabilidade profissional nos afecta mais. Enfim… ontem estava num dia menos bom e, como de costume, começa-me a falta a paciência, fico menos tolerante ao choro, aos gritinhos, às birrinhas, especialmente quando decidem fazer tudo em duo: choros aos pares, gritos aos pares, implicâncias mútuas… Todo o cenário que vocês, de certeza, também já conhecem. Dei por mim a pedir inúmeras vezes ao Vicente para parar com a birra, à Laura para não se levantar da cadeira de refeições (sim, aquela alta do Ikea, é só mais uma situação de perigo em que ela faz questão de se meter), questionei em voz alta se eventualmente falarei chinês, pois nem um nem o outro fazem o que lhe peço. E daí a estarmos já todos a falar aos berros foi um instante.

No fundo, eu sabia que o meu problema era o meu próprio cansaço, o Vicente, em particular, também me pareceu especialmente cansado. Mas, mesmo assim, o meu estado era tal que não me permitiu parar e dar a atenção especial que ele estava a precisar e, por isso, a chamar tanto a atenção com todos aqueles comportamentos que me estavam a tirar do sério. 

Foi quando o vi quase a cair (de sono) no prato da sopa que caí em mim. Rapidamente, deixei o meu jantar a meio para ir despachá-lo e pô-lo a dormir. Em poucos minutos adormeceu, eu não me deitei com ele e devia tê-lo feito. Em vez disso, regressei à mesa para terminar o jantar à pressa e fazer o mesmo com a Laura.

Regressei ao quarto passado pouco tempo para ver como ele estava, tive uma espécie de intuição. Estava encharcado, pois deve ter tido um pico de febre. E eu caí ainda mais em mim… Troquei-lhe a parte de cima do pijama e nem ferrado a dormir. Aninhei-me junto dele, fechei os olhos e disse para mim mesma que tinha sido egoísta. Não tive a capacidade de perceber que ele não estava bem e que, em vez de lhe levantar a voz pedindo que parasse com a birra, deveria ter feito precisamente o oposto.

Mãe que é mãe, mesmo sabendo que é de carne e osso, tem sempre um sentimento de culpa latente. Acha sempre que deveria ter feito melhor, que tinha obrigação para ser mais altruísta. Mãe que é mãe é muito exigente consigo mesma. 

Não gosto de ser a mãe que levanta a voz para disfarçar o seu cansaço e outras emoções. Gostava de ser mais equilibrada e com capacidade de ter um maior distanciamento. Quando estou com os meus filhos, gostava que fosse o  meu papel de mãe unicamente a dominar, deixando tudo o resto para depois, quando eles já estão a dormir. 

Boa noite.

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