Para quem ainda não sabe, eu sou nascida e criada em Santarém, como se costuma dizer. Sai de lá quando entrei na Faculdade e, desde aí, que as idas passaram a ser apenas de passagem.

Na verdade, nunca pensei em regressar após o término do curso – licenciei-me em Comunicação Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, o famoso ISCSP. Porém, mantive idas mais ou menos regulares, um fim-de-semana aqui, outro fim-de-semana acolá. Gostava e gosto de sentir o abrandar do stress e do ritmo quando lá estou. Gosto da sensação de que a vida se vive mais devagar e há mais tempo para fazer mais coisas. Digo por comparação à vida de Lisboa. E gosto da minha cidade, a capital do Gótico, com tantas coisas bonitas para ver. No entanto, tenho pena que tenha ficado sempre um pouco aquém do tanto potencial que possui. Hoje, a cidade tem muito menos vivacidade, mesmo em termos de comércio quando comparado com a altura em que eu lá vivia, mesmo com todos os melhoramentos que tem sido feito, incluindo em termos de infraestruturas. Tive sempre a sensação que as pessoas fugiam de lá para vir para Lisboa. 

No entanto, quando o meu pai faleceu, há já alguns anos atrás, período em que tive toda uma série de coisas chatas associadas – como, por exemplo, a sua transladação de outro país e de um outro continente – fora toda a carga de sentimentos que só quem passa por isso, sabe, que fazer aquela auto-estrada se tornou um sacrifíco para mim. Era pesado e a minha energia ficava completamente em baixo. Com efeito, fui deixando de ir, ao mesmo tempo que ia convencendo a minha mãe a vir para Lisboa. E assim fomos fazendo a nossa vida e gerindo tudo aquilo que cada uma sentia da melhor forma que podíamos.

Admito que, na altura, possa ter tido pouca maturidade para o tanto que tive que enfrentar (eu, a minha irmã e a minha mãe). Sei que preferi “fugir” para sofrer menos. Não a tenho a pretenção que as pessoas à minha volta entendam isso, contudo também não quero ter que me explicar sobre algo que me é tão intímo e tão pessoal. Não quero ter que dizer que o meu afastamento foi a minha maneira de tentar me proteger. 

O Vicente e a Laura têm, no entanto, sido os responsáveis por uma mudança e insconscientemente têm sido eles a fazer com que, aos poucos, volte a ir a Santarém. Hoje, por exemplo, foi um desses dias. Fomos para tratar de assuntos, mas eu assim lá chego perco a vontade de me vir embora a correr. Sinto vontade para passar lá tempo, tempo com os meus filhos. Afinal, é ali que grande parte da história da família deles está. Incentivo sempre a que se dê um passeio pelo centro da cidade, pelas Portas do Sol ou simplesmente, ficar em casa da minha mãe a rever as fotografias das centenas de álbuns que ela tem guardados.

Hoje em dia sabe me muito melhor estar lá, custa- me menos fazer as viagens e já não lembro com tanta nítidez do dia em que tivemos que o escoltar para lhe dizer adeus. E sei que é graças aos meus filhos, porque gosto que eles tenham contacto com essa parte da minha vida que também é deles. É como se aquilo que me movesse fosse o meu desejo de lhes proporcionar todo o enquadramento da sua família, o desejo de lhe criar raízes, que eles percebam as nossas origens e que eles sejam capazes de criar toda essa história na cabeça deles, à maneira deles. A Laura ainda é muito pequena, mas o Vicente sabe quem é o avô, mesmo não o tendo conhecido. Falamos dele muitas vezes e isso tem sido uma boa terapia para mim. 

Nunca deixarão de ser viagens emotivas e cheias de significado. Aquilo que eu sou, as minhas raízes, estão ali. Por isso, é muito bom sentir que finalmente, levando o tempo que tenha que levar, eu vou conseguindo encontrar a minha paz interior. Vou conseguindo reconciliar-me com as minhas “pequenas” dores interiores. É sinal de amadurecimento, penso eu 🙂

Boa noite.

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