Falo tantas vezes das birras do Vicente, da sua teimosia, de como acorda demasiado cedo todos os dias, de como absorve todos os segundos dos nossos dias com perguntas e chamadas de atenção constantes e ainda sobre a forma como tudo o que fazemos dá a sensação de não ser o suficiente para ele. Porém, ainda não falei o suficiente das suas qualidades e da forma como tem lidado com o facto de ser o irmão mais velho e, sobretudo, a forma como reage à cada vez maior invasão da irmã em casa e na vida de todos nós.

O Vicente tem um bom fundo e isso percebe-se logo no primeiro contacto, embora seja tímido e que observa tudo muito bem antes de decidir se quer ou não fazer alguma coisa. É aquele tipo de menino que não é egoísta, ele até pode tentar, mas a reacção dele vai acabar por ser sempre a de partilhar. Às vezes, sinto que é até um pouco demais, pois deixa-se prejudicar só para não dizer não aos outros. Contudo, o princípio é bom, só precisa ser um pouco trabalhado. Por exemplo, ainda esta semana pediu para fazer um bolo para levar para a escola e assim fizemos. Quando chegou à escola e viu a reacção dos amigos, numa total excitação, não coube nele de tanta satisfação.

Com a irmã,  oVicente também é assim. E, se no início eu fazia pressão para que ele partilhasse os brinquedos, agora admito que mudei um pouco a minha atitude, pois também percebo que a Laura se aproveita e só quer porque o irmão tem. Porém, o Vicente não aguenta muito tempo a ver a irmã chorar por querer uma coisa e lá vem ele dizer-me, com toda a sua calma, que “não faz mal, mãe”, “ela pode brincar, eu não me importo”. 

Também é um menino muito meigo e doce e que ainda faz uma festa quando eu bato à porta da sua sala, ao fim da tarde, para o ir buscar. Dá muita atenção, mas também precisa e a parte mais dificil desta sua aprendizagem de ter uma irmã é esta. É aprender a gerir os seus sentimentos e deixar de se sentir melindrado quando a irmã está a precisar ou a captar toda a nossa atenção. Quando dou por ele, está com aquela carinha meia triste, meia envergonhada… a carinha de Vicente 🙂

Depois, por oposição à irmã, é muito respeitador das regras, mesmo quando desobedece. Desde bebé que reagiu muito bem às rotinas e, desde então que não dá trabalho algum para adormecer, comer ou o que seja. É da sua maneira de ser. A irmã é o oposto, é uma força da natureza, com um misto de teimosia e de determinação. E, por isso, o meu grande exercício, enquanto mãe de dois, é sentir que não sou demasiado exigente com o Vicente. Acho que, quando temos um filho mais certinho, a tendência é exigir ainda mais dele, ao passo que, quando temos outro que é o oposto, soltamos um pouco mais a corda, porque é assim, mais traquina, mais irreverente. E não deve ser assim!

O Vicente precisa, sem dúvida, de momentos em que possa pisar o risco, em que seja picado para lutar pelo que é seu, para que expresse a sua opinião. É algo que eu acho que com os amigos, por exemplo, ele não faz. Fica magoado e sentido quando alguém faz alguma coisa que ele não gosta, mas não se impõe e é incapaz de dizer quando não gosta de alguma coisa.

O Vicente é um bom menino, tem bom fundo, disso tenho eu a certeza absoluta. Sei que, enquanto irmão mais velho, tem feito o melhor que, com os seus quatro anos, consegue. Sei que adora a irmã e que é sempre a primeira pessoa por quem pergunta e já tem alguma dificuldade em fazer alguma coisa sem ter a irmã por perto. Também é certo que lhe passa rasteiras e a última novidade foi darmos com ele a fazer judo com a irmã… nem vos conto!

Sei que tem uma adoração por mim e pelo pai. E se antes a ligação mais forte que tinha comigo era inequívoca, actualmente já não é bem assim. Mas é do género de menino que me diz não já quer fazer cinco anos para que a mãe não fique velhota, é do género de reparar quando mudo a cor do verniz das unhas, quando coloco um baton diferente ou quando vou arranjar o cabelo. É um menino que elogia e que sabe quando estamos a precisar de um elogio. É um menino que não tem problemas em dizer o quanto gosta de alguém, em abraçar ou dar beijinhos.

O Vicente é o meu menino crescido, ainda que me seja um pouco díficil reconhecer que o meu bebé está a tornar-se, alias, já é, um rapazinho. O próprio corpo já tem outra constituição, as roupas assentam de maneira diferente, as conversas e o raciocínio que ele faz de tudo o que se passa à sua volta e a companhia que nos faz.

Daqui a meses faz cinco anos e já está cheio de ideias para a sua festa. É uma mão cheia de anos que parecem ter passado a voar. No entanto, ainda que nos seja difícil reconhecer isso – e até aceitar – a verdade é que as fases que se seguem são igualmente desafiantes e giras. Começam a tornam-se verdadeiros companheiros do dia-a-dia, os programas passam a ser outros, a nossa vida enquanto pais também se altera, entre tantas outras coisas. Ainda assim, está a crescer e, sem dar por isso, vai perdendo a imagem de bebé, que é, afinal, quando tudo isto começa, quando se dá o inicio de toda uma vida.

Tenho muito orgulho neste meu filho, sinto que está a formar-se um futuro adulto com valores e com uma boa índole, mesmo que nem sempre isso seja algo apreciado pela sociedade em que actualmente vivemos. É só preciso que aprenda a defender-se e a afirmar-se.

Para já, sabe que, cá em casa, não se diz “não consigo”, mas sim “vou tentar!!!” 🙂

E ainda sobre este tema, deixo-vos a ligação para este post: O Vicente não pisa o risco

Boa noite.

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