Um dia sentaram-se no sofá, cada um no seu canto. Tinha passado algum tempo desde a última vez que o tinham feito. Invariavelmente, adormeciam assim que deitavam as crianças. Nesse momento, o silêncio foi constrangedor, não trocaram nem uma palavra, não deram as mãos, não trocaram um carinho… ficaram os dois em silêncio, com a televisão ligada, mas com o olhar perdido. Afinal, o que lhes tinha acontecido?

Tinham deixado de saber o que era estar apenas um com o outro. Tinham perdido a capacidade de diálogo, as marcas dos últimos anos estavam demasiado vincadas. Os filhos, a mudança de rotinas, a falta de tempo, o cansaço… Cada um tinha vivido a sua experiência em silêncio. Aos dias somaram-se as semanas, às semanas, os meses e aos meses, os anos… e agora, quando se reencontraram de novo, pareciam dois estranhos.

Ainda havia memória dos tempos em que andavam de mãos dadas, em que haviam as brincadeiras, em que os sorrisos eram fáceis e despretenciosos. Memória de um tempo que era só deles. Depois, vieram os filhos e absorvidos por toda a experiência, nem se aperceberam que o tempo deles estavam lentamente a desaparecer. Não se aperceberam das consequências e deixaram confundir o seu amor e o seu carinho com o amor pelos filhos e com os cuidados que eles precisam. A isso, juntaram-se todas as dificuldades (normais), as noites mal dormidas, as inúmeras vezes que é preciso mudar fraldas, os dias intermináveis e um tempo cada vez mais dedicado e consumidos pelos filhos. Primeiros os cuidados, depois, as brincadeiras e sempre todas as rotinas inerentes.

Nunca mais houve uma refeição a dois, uma ida ao cinema, entre as suas mãos tinham passado a estar outros pares de mãos mais pequeninas e na sua cama, outros pequenos visitantes. O tempo foi passando e nem se aperceberam que se estavam a tornar dois estranhos. O diálogo deixou de existir, porque também deixou de existir a paciência e a vontade. E o tempo livre que lhes restava, era passado a colocar em dia as suas próprias coisas. As trivialidades (normais) do dia-a-dia passaram a ser motivos para discutir e no lugar ocupado pelo outro, estava agora um enorme vazio.

Afinal, o que lhes tinha acontecido?

Substimaram os “perigos” da maternidade/paternidade e a passagem do tempo. Quando pararam para olhar para trás, tinham-se passado anos, anos de afastamento e estavam perante alguém completamente estranho. Os planos agora traçados eram sempre vagos, porque ambos sentiam o mesmo: o medo e a incerteza. No fundo, estavam ambos perdidos numa espécie de luta pela sobrevivência – sua e daquela relação.

Não existem fórmulas certas ou erradas e, infelizmente, não existem livros que nos ensinem a sobreviver a toda a densidade de uma vida adulta, de uma vida a dois e de uma vida em família. Importa que pelo caminho, não deixemos de saber quais as razões e os motivos que nos fizeram chegar até ali. Importa saber até quando vale a pena lutar e se valer a pena, então, não desistir. Importa saber que não existem contos de fada nem vidas perfeitas – eu, pelo menos, não conheço – e que as dificuldades fazem parte da evolução do próprio ser humano.

A família é um projecto para a vida, os filhos são os elementos que lhe conferam o seu corpo e a sua alma. Mas até lá chegar, o percurso não é isento de obstáculos. Muitas vezes, duvidamos de nós e da nossa capacidade, enquanto mãe/pai, mulher/homem, pessoa. Nesse todo, existem várias partes que precisam ser cuidadas individualmente: cada filho precisa de sentir que tem momentos de atenção só para si; cada elemento precisa sentir que tem momentos que pode dedicar apenas a si e a mulher e o homem precisam sentir que continuam a ser olhados dessa mesma foram e não apenas como mãe e pai.

Embora, não existam fórmulas certas, há alguns meses atrás, escrevia assim:

9 Motivos que levam os casais a discutir (após os filhos)

 

Bom dia!

 

 

 

 

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