Do lado da minha mãe, não cheguei a conhecer a minha avó e não guardo qualquer memória do meu avô. Portanto, é do lado do meu pai que ficam as memórias e as lembranças de outros tempos – sim, outros tempos, pois ambos já faleceram. São memórias felizes, como todas, alías, que guardo da minha infância. O crescimento e o amadurecimento permitem-nos dar o devido valor ao que já passou. O meu pai era o mais novo de três irmãos e eu a mais nova dos seis netos. Havia uma ligação muito forte a este lado da família paterna. Talvez para compensar o facto da minha mãe ser filha única.

Os meus avós viviam numa casa rodeada por um terreno, era o casal do avós! Havia espaço e camas para todos os netos, havia sempre comida pronta e havia línguas de gato (que vinham embrulhadas num canudo de papel da mercearia). Os meus avós eram pessoas bem dispostas e divertidas, riam-se das minhas piadas e tinham paciência para os seis netos. Haviam muitas fotografias espalhadas pela casa, antigas e a preto e branco. Contavam-nos histórias e como tinha sido a infância dos nossos pais.

Lembro-me de dormirmos todos juntos e dos mais velhos verem filmes assustadores e eu, que morriam de medo, não dava parte fraca para que ser excluída daquele programa.

Lembro-me do meu avô me deixar conduzir o seu pequeno tractor, o seu meio de transporte, e de eu ter partido o muro do vizinho, porque tinha feito marcha atrás em vez de andar para a frente. Lembro-me dos almoços tardios e de ficar tão cheia por ter comido tanto. Lembro-me da minha avó repetir carinhosamente a forma como eu a chamava quando era bebé e que apenas ela se lembrava. Lembro-me das suas rugas e da sua pela morena. Era pequenina, tinha um ar frágil, mas era ela que tomava conta de tudo e de todos. Do meu avô, nunca me irei esquecer dos seus olhos azuis, um azul que mais ninguém na família teve a “sorte” de herdar. Lembro-me da sua voz forte, sempre a chamar pela sua “Maria”.

A casa de banho ficava fora de casa, por isso, lembro-me de ter sempre muito medo de acordar a meio da noite com vontade de ir à casa de banho. Lembro-me de ir com eles à horta, do almoços por lá com legumes e frutas acabadas de apanhar. Lembro-me que os meus avós, à despedida, nos davam sempre uma nota para “os rebuçados” que eu guardava religiosamente. Lembro-me das brincadeiras no pátio, de andarmos aos pulos em cima do feno e do meu avô nos repeender;

Lembro-me, acima de tudo, de afecto e de carinho. Lembro-me do cheiro, da voz e dos sorrisos.

O meu avô foi a primeira pessoa por quem eu chorei a perda de alguém próximo e o meu pai a segunda.

Deste casal já pouco ou nada resta e, com ou sem razão, eu preferi guardar apenas as boas memórias. É assim que sou feliz.

O amor pelos avós em nada se compara com os dos pais, são coisas distintas e que, por isso, não compentem. O amor pelos avós é uma coisa única e especial, pois existe qualquer coisa de mágico a envolver estes seres que se tornam uma espécie de pais uma segunda vez. Com a vantagem de terem a distância necessária para que a paciência seja praticamente inesgotável. O amor volta a multiplicar-se e descobre-se que o coração, afinal, ainda consegue esticar mais – os corações não rebentam de amor, isso é um mito 🙂

Recordo com saudade estes dois seres tão especiais que fizeram parte da minha vida nos tempos mais bonitos que tive em família. Sei que não eram a família perfeita, que tinham as suas turras, cada filho com o seu feitio, mas havia um respeito que se suplantava a tudo o resto e que os manteve unidos durante muito tempo. O suficiente para que estas e outras memórias sejam parte importante da pessoa que sou hoje.

Um beijinho especial a todos os avós que acompanham este blog.

Um especial às duas avós dos meus filhos, cada uma com o seu papel, cada uma com a sua presença, mas ambas com um lugar muito especial na vida dos dois.

Que o seja amor (pelo netos) sempre mais importante do que qualquer outra coisa e que seja em nome desse sentimento que não deixemos passar ao lado de momentos felizes que, mais tarde, serão as nossas memórias e parte importante do adulto que somos.

Feliz Dia dos Avós!

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