“Agora é a tua vez” ou, então, “Vai lá tu” podia ser um dos síndromes que tão bem caracteriza a parentalidade. Alguém tem que o fazer, mas há momentos em que queremos muito que essa pessoa não seja a nossa pessoa. Para isso, tenta-se uma subtil passagem de testemunho no momento. Ou seja, um dos pais vai tentar arranjar um plano para que quando chamarem por eles, seja o outro pai a responder!

De um modo geral, é algo que pode acontecer de uma das seguintes formas:

Opção 1: Sempre que é necessário fazer alguma coisa e antes de se verbalizar o que quer que seja, ambos – pai e mãe – ficam em silêncio na esperança que a outra pessoa se antecipe a nós sem ser necessário sermos nós a pedir. Um silêncio constrangedor, porque claramente tanto um como o outro sabem que o que está a acontecer é “um duelo de forças” para ver quem resiste primeiro!

Por exemplo, quando se ouve lá do fundo “Mãe, Pai, já fiz cócó. Podem vir aqui!”. Inevitavelmente, há sempre ali um compasso de espera, a ver quem se chega à frente primeiro.

Opção 2: Que acontece logo a seguir à opção A. Um dos dois, arrisca, dizendo “podes ir lá tu, porque eu agora tenho que mesmo que terminar isto que estou a fazer” – ou qualquer outra desculpa que se arranje e se aponte como urgente. A troca de olhares continua a ser tensa, porque a pessoa que disse primeiro, safou-se e a outra vai “contrariada”.

Opção 3: Um dos dois nem dá hipótese e avança logo com um “podes ir lá tu?” ou, então, com um “agora é a tua vez”. 

Os pais quando querem descansar também conseguem inventar mil e uma formas de se escaparem a algumas responsabilidades, rotinas, tarefas, sobretudo aquelas que por serem feitas todo o santo dia dão a sensação de cansar mais. Por exemplo, lavar o dentes – que nem sempre é pacífico – mudar a fralda – por aqui nada pacífico – dar banho – é bom, mas só às vezes – adormecer, que tem sempre aquele chorinho básico de um, enquanto o outro que não adormece sem ter lá alguém ao lado. Os pais quando estão cansados são exactamente iguais a qualquer outra pessoa que esteja cansada. talvez, disfarcem melhor, afinal, há coisas que se não forem eles a fazer, mais ninguém faz. Mas há dias em que olhamos o sofá, assim que entramos em casa, e suspiramos… se não adormecermos entretanto, havemos de lá chegar.

Nestes momentos, os pais ainda se armam em “chicos espertos” tentando persuadir os filhos a descansar, afinal, ficar sossegado no sofá, em silêncio também pode ser uma brincadeira divertida (ou não?!). Também  tentam dissuadir os filhos de ler aquela (mesma) história pela 21 998 vez! Era só um dia, que mal teria?! 🙂

De manhã, muitas vezes, só conseguimos ter um olho aberto enquanto lhes preparamos  o pequeno-almoço. Às vezes, quando estão sentados a comer, dizemos que vamos só ali à casa de banho e já voltamos. E, na verdade, vamos deitar-nos novamente e fazer render aqueles cinco minutos o mais que puder. Somos chamados a primeira e a segunda vez, fingimos que não ouvimos, à terceira eles já não perdoam e vem ver onde estamos. Com 4 anos já nos questionam do género: “Disseste que ias a casa de banho e, afinal, está na cama. Porquê?”. OPS! Apanhados!

Há alturas, quando estou no parque com eles, por exemplo, em que olho para o lado e consigo reconhecer nitidamente outros “pais cansados” a lutar para mostrar o mesmo entusiasmo mesmo quando estão a fazer a mesma coisa desde que chegaram. Eu costumo estar na zona do escorrega com a Laura – a descer e a subir – entretanto, já estou na fase em jogo à apanhada. Se nos encontrarmos por aí, venham e damos um “hi 5” de solidariedade 🙂

Boa tarde.

 

 

Comentários

comentários