Repito muitas vezes que o difícil é estar casado e ainda mais o é estar casado e ter filhos.  Ainda assim, consigo ter a distância necessária para olhar para as alturas de crise e para as discussões à luz da conjuntura em que vivemos, sem esquecer a idades dos nossos filhos.

Tenho agora, pois há uns meses isso não acontecia. Há uns meses, estávamos a chegar a casa com um novo bebé, há uns meses toda eu era dominada pela hormonas e pela privação do sono. Há uns meses cobrava à outra metade tudo e mais alguma coisa: cobrava o facto de não dormir; o meu cansaço; o reboliço dos dias; a confusão; as birras… cobrava tudo. Não tinha a capacidade para entender que isso era uma demonstração do meu ego, da minha individualidade e que, no seio de uma família, não podem existir egos.

A harmonia de um casal e de uma família não se constrói com base em vontades próprias, naquilo que cada um pensa, sobretudo, não se alcança idealizando uma forma de estar no dia-a-dia que vá simplesmente ao encontro daquilo que cada um individualmente precisa. Atenção que falo em egos e não em tempo para cada um estar consigo mesmo. É preciso haver momentos a sós, pois é aí que vamos recarregar as baterias, é aí que cada um terá liberdade para fazer o que quiser, é aí que libertamos os nossos egos.

No seio de uma família existem prioridades que não são as nossas – mas que têm que passar a ser. Tem que existir a capacidade para relevar o que não é uma prioridade e travar as “lutas” estritamente necessárias. É preciso pensar, muitas vezes, antes de falar e não agir por impulso. Também é preciso engolir sapos e o nosso orgulho. É preciso entender que diante de nós está um bem maior, a nossa família e que se a queremos preservar, não vale a pena continuar a alimentar o nosso ego. Existe um pai e uma mãe que têm que mostrar união e serem coerentes um com um outro diante dos filhos e colocar acima de qualquer oura coisa, o seu bem-estar e a sua educação.

E o mais fascinante deste desafio está aqui: quando duas pessoas, cada uma com a sua personalidade, conseguem formar o par “perfeito”. Duas pessoas diferentes que se alinham para cuidar de algo em conjunto e que é prioritário nas suas vidas. Porque quando se decide ter uma família, inevitavelmente terá que haver uma reestruturação daquela que é a nossa postura perante nós próprios e perante a vida.

Vai haver dias em que vamos jantar mais tarde, outros que nem jantamos; vamos ter que aceitar que os atrasos vão ser cada vez mais recorrentes e que, no dia-a-dia, em casa, o nosso tempo praticamente não existe; também é possível que tenhamos de abdicar de fazer algumas coisas (especialmente no momento em que nos apetecia fazê-las). No fundo, há que aceitar que há sempre alguma coisa a fazer e, quando não há, vai haver alguém a chamar por nós.

Viver em família é uma canseira, sim é verdade. Mas qual é a alternativa? Dispensarmos a companhia uns dos outros? Entreter os filhos de forma a chamarem o menos possível por nós? A resposta, a meu ver, é simples: é o equilíbrio. É preciso mais do tal “life kids balance”: tempo para nós – tempo para o casal – tempo para a família. 

Boa noite.

 

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