Há uma necessidade intrínseca à grande maioria das mulheres para comentar a vida de uma outra mulher, especialmente quando o assunto é a maternidade. Eu não fazia a mais pequena ideia do quão grave, por vezes, chega a ser. Lá no fundo, sou um pouco ingénua e o meu primeiro impulso é sempre o de confiar na natureza humana, sobretudo quando se trata de um universo que teria tudo para se entender e para se entre-ajudar, optando, muitas vezes, por fazer deliberadamente o oposto.

Cada uma de nós – como qualquer ser humano, individual e com direito à sua opinião e vontade própria – embarca na aventura da maternidade um pouco a medo, com muitas dúvidas, mas também com uma determinada postura em relação ao modo como quer viver essa experiência, tão aguardada por muitas de nós. O mais normal é, quando engravidamos, nos aproximarmos dos nossos pares, das pessoas que estão a passar ou que já passaram pelas mesmas coisas que nós, ou seja, as outras mães- que quando se apercebem que há uma novata nessas andanças, se apressam em se aproximar. Começamos, então, a descobrir o fantástico mundo dos grupos de “mães”, estreitamos laços com as amigas dos nossos maridos que já foram mães, socialmente passamos a ser o centro das atenções e o motivo de conversa.

As opiniões das outras mães, de repente, parecem sagradas, os conselhos autênticos mandamentos e as chamadas de atenção verdadeiros puxar de orelhas. A opinião do nosso obstetra quase que tem que passar pelo crivo daquela nossa amiga para quem olhamos como sendo a mãe experiente e sábia.

Eu própria senti isso na pele, sobretudo – imaginem vocês – porque estava sozinha em Portugal com um bebé recém-nascido e mãe pela primeira vez. Mas ainda antes disso, e quando referia o meu receio em relação à cesariana, tive uma amiga que sempre me tranquilizou, subestimava todos os meus receios, porque “não era nada de especial”. Podia jurar a pés juntos que ela falava com conhecimento de causa. No entanto, e se eu vos disser que não? Se vos dissesse que o único filho, na altura, tinha nascido de parto natural? Após a gravidez, entre os motivos do choro do bebé e a amamentação, há toda uma lista de comentários “certificados” que ouvimos e que nem nos apercebemos do mal que nos fazem.

Mas isto é já no durante ou no pós gravidez. E no antes? Antes de engravidar, nas conjecturas que se fazem sobre quando se deve engravidar e sobre quantos filhos devemos ter e com que intervalo de tempo entre eles… Como é que se lida com esta intromissão, às vezes sem noção, na nossa vida pessoal?

  • Como é que uma mulher que não quer ter filhos se explica perante a sociedade? Não haverá legitimidade para que alguém diga, sem rodeios, que não pensa em ter filhos? E não será que essa pessoa não pensou já nos prós e contras dessa decisão antes de ter formado a sua opinião e de a partilhar com os demais?
  • Como é que se explica, perante uma sociedade, que uma mulher nos seus trinta e poucos anos, não tenha filhos ainda e, pior, como é que se explica relativamente à inevitabilidade de poder estar a esgotar o “seu prazo”? Será que essa pessoa não tem porque não quer ou será que esta mulher, em particular, até queria, mas simplesmente, a vida ainda não reuniu as condições necessárias para que tal fosse possível? Seja por não reunir condições pessoais, seja, muitas vezes, por uma questão mais delicada como a infertilidade? Sabemos quantos casais ao certo travam essa luta? E se essa mulher tiver, simplesmente, outras prioridades antes de ter filhos?
  • E as mulheres que só querem ter um filho? E as que ficam tão traumatizadas que só querem pensar nisso quando a memória apagar o sofrimento do primeiro filho? E, como estas, tantas outras que tomam decisões tão diferentes das nossas e, ao mesmo tempo, igualmente tão válidas?

Seremos nós mulheres com prazo de validade? A verdade é que, ao contrário dos homens, nós vivemos com o peso da idade e com a forma como isso poderá interferir com a nossa vontade em engravidar. Pronto, isso já nos basta! Mas, ainda assim, também é verdade que, hoje em dia, há cada vez mais mulheres a engravidar mais tarde, gravidezes normais, vigiadas, mas que correm lindamente, com bebés lindos e saudáveis. A idade é mais um indicador para se vigiar uma gravidez, juntamente com tantos outros, não sendo uma limitação, pelo menos até um certo horizonte de tempo. É claro que um homem pode ser pai aos setenta anos, por exemplo, o que numa numa mulher será já mais complicado…

Tenho algumas amigas que estão nesta situação de sentir que têm um prazo de validade e, mais grave do que isso, de sentir que devem uma explicação perante os outros. E se fosse connosco, será que íamos gostar? A resposta é não! Não, não e não!

Vamos ser um pouco mais amigas umas das outras, sim?

Boa noite 🙂

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