Muda praticamente tudo ou, então, somos apenas nós que mudamos – porque é preciso uma adaptação a uma nova realidade – e isso é o suficiente para que tudo pareça diferente. Ouvi muitas vezes, enquanto ainda estava grávida, que a primeira coisa que iria sentir era o facto de passar menos tempo com o bebé e mais com o filho mais velho. Confesso que torci o nariz, sobretudo porque sou um pouco controladora no início. Porém, hoje sou capaz de reconhecer que é um pouco verdade – a única vantagem que temos é mesmo pelo facto da Laura ainda estar em casa e, assim, acabar por ter momentos de filha única enquanto o irmão está na escola.

Quando o Vicente nasceu, por todos os motivos e mais alguns, eu fui bastante protectora, com alguma dificuldade até em delegar algumas tarefa, mesmo para poder descansar. Com o Vicente, não só ele esteve em casa, como eu própria vivi a experiência de ser mãe em exclusivo, vinte e quatro horas por dia. Para além disso, fui uma mãe que teve bastante tempo sozinha com o seu filho, no período antes de nos mudarmos para Bruxelas, o que levou a que houvesse um domínio natural e inconsciente, assim como uma relação especialmente forte entre mim e o Vicente. Depois, passámos dois anos expatriados, em que o nosso núcleo forte e de apoio éramos apenas nós os três .

No entanto, e apesar das minhas particularidades, o primeiro filho é sempre especial por ser o primeiro e por toda a dedicação exclusiva que lhe conseguirmos dar. Com o segundo ainda achamos que, mesmo com todas as diferenças, ainda haverá essa entrega. Mas, na prática, será que conseguimos?

Na minha opinião, não. Não, porque já nada é exclusivo e porque damos por nós a relativizar, a adaptar e a facilitar em prol das rotinas que já existem com o filho mais velho. Com o primeiro filho o mundo parava, com o segundo é ele próprio que se adapta ao “mundo”. Com o segundo filho, descobrimos que existem várias formas de fazer a mesma coisa e que todas estão certas, o importante é a harmonia de todos. Com o segundo filho, mesmo antes de nos apercebermos, já damos por nós a delegar e a pedir ajuda. Não somos tão criteriosas e tão implacáveis, porque reconhecemos a importância desse apoio.

Do primeiro para o segundo filho também é tudo muito mais rápido, por exemplo, no tempo que levamos a sentirmo-nos confortáveis para o deixar ao cuidado de uma outra pessoa ou no rigor com que cumprimos determinadas tarefas ou rotinas. Nos momentos de brincadeira, no banho, na muda da fralda, na hora da refeição… acaba por haver uma atenção mais dispersa. Com o segundo filho, queremos que o primeiro não sinta radicalmente a diferença de ter um irmão e procuramos manter alguns momentos de filho único… enquanto o segundo filho, fica, por exemplo, com a avó.

Com o segundo filho, aprendemos a importante lição de que na maternidade não existem certos nem errados; que nunca podemos dizer “nunca”; que a força das circunstâncias leva-nos, por vezes, a tomar decisões que achávamos que nunca iríamos ter que tomar; que o mais importante é o bem-estar de todos, o amor que se partilha, a qualidade dos momentos que passamos em conjunto; valorizamos muito mais o outro; e, acima de tudo, somos privilegiados por poder viver tão de perto o amor que existe entre irmãos, da descoberta que fazem um do outro e da forma como o vão recebendo na sua vida.

O segundo filho nunca terá memória de ter sido filho único, não terá memória da infância sem a presença de um irmão mais crescido. Um segundo filho aprende a saber que é tão especial e que o facto de ser segundo, é apenas um número, uma sequência cronológica de nascimento, porque sente que, no fundo, é tão especial e único quanto o irmão. E é igualmente feliz vivendo desde sempre numa partilha diária com alguém.

Do primeiro para o segundo filho, o que muda somos nós, enquanto aprendizes constantes desta arte de ser-se pai e mãe. Apercebemo-nos de que nunca sabemos tudo, descobrimos que temos um amor infinito pelos filhos, não existindo primeiros e segundos ou terceiros e quartos. Mudamos para melhor, ficamos mais completos e preenchidos, sobretudo, se soubermos colocar os nossos padrões de perfeição e de exigência de lado, porque os nossos filhos não esperam ter pais perfeitos!

Boa noite.

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