É quando ficamos sozinhos os três que sei que preciso estar mais forte, com mais paciência, mais cheia de tudo o que é preciso para dar a volta aos momentos de tensão. Sei que vão haver mais chamadas de atenção e sei que é ao fim do dia que tudo se transforma… para pior. Sei também que é fundamental cumprir os horários se quero ter alguma harmonia ou tranquilidade – mas também sei que a probabilidade disso não acontecer é grande. Sei de tudo isto, de cor, de trás para a frente e de frente para trás. As viagens e as ausências fazem parte da nossa vida, aceito, porque se assim não fosse, não estaria a ser honesta.

No entanto, mesmo sabendo tudo isto, não deixam de haver os momentos em que fico tensa e em que me falta a paciência. Momentos em que gostava que os meus filhos fizessem tudo de forma automática, que as coisas básicas e essenciais do dia-a-dia, como tomar banho, comer e lavar os dentes, não fossem todos os dias motivo de stress entre nós. É quando estamos sozinhos a três que me sinto mais vulnerável e com as minhas fraquezas mais expostas, afinal, foi sempre assim. Nem estes sentimentos são novidade para mim.

Talvez, agora o que é mais difícil é saber gerir os sentimentos do Vicente que, pela idade, já sente coisas que em bebé nem se apercebia. São sentimentos que precisa exteriorizar e nem sempre sabe como. Invariavelmente, as birras, numa mistura de cansaço e saudades do pai, terminam com ele agarrado a mim a chorar e a chamar pelo pai. Um choro sentido, pobre Vicentinho, que até custa ouvir.

Dar a volta a isto exige alguma imaginação da nossa parte, encontrar até coisas diferentes para fazermos no dia-a-dia, que o distraiam da passagem do tempo e das perguntas constante de quando o pai chega. E desde a última viagem que fiz um pedido ao pai para que todos os dias enviasse um vídeo para o Vicente, como se estivesse a falar ao telefone. E não é que resulta? E não é que o pai tem jeito para esta “simulação” de conversa telefónica?

Outras dicas importantes:

  • Tentar ser o mais organizada possível;
  • Deixar as roupas preparadas de véspera;
  • Preparar as refeições e deixar a mesa posta antes de ir buscar o Vicente;
  • Garantir que o fim-do-dia é só para eles numa tentativa de contrariar as birras e as chamadas de atenção;
  • Ligar o descomplicómetro e relevar o que for acessório;
  • Ligar o nosso piloto automático também ajuda.

No dia-a-dia isto traduz em coisas tão simples como deixar que o Vicente durma na minha cama e que veja televisão depois de jantar, enquanto se adormece a Laura. Que de manhã aconteça sair de casa sem lavar dentes – mesmo que depois vá todo o caminho a ouvir o meu sermão de que os dentes vão ficar cheios de bichos feios e desate a chorar porque afinal já quer lavar os dentes – que coma mais que uma vez na semana ovo mexido com arroz, que vista o que ele bem entender, não importa se faz frio, se está a chover ou a fazer calor. Aquilo que importa é “do mal o menos”, o que eu quero é chegar ao fim do dia de domingo e sentir que não perdi o controlo e que eles não sintam que estar sozinha com eles não é fácil.

A maior parte do tempo já passou, agora são só mais dois dias até o pai chegar.

Boa noite.

P.s: O magazine semanal sai amanhã.

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